Não passa um único dia sem que se ouça um comentário, um acontecimento, uma notícia ou um estudo sobre a recessão económica. Como é que podemos manter uma atitude positiva e esperançada durante este aperto económico?
Tem-se tornado um tópico inevitável que acaba sempre por ser debatido em reuniões de trabalho, à refeição, numa conversa de amigos, seja onde for a tendência é para que este assunto se torne o centro das atenções no nosso dia-a-dia. Acresce a esta situação a inevitabilidade da escassez de emprego, e o sufoco familiar aumenta drasticamente. A quantidade de pessoas que se vê forçada a alterar os seus estilos de vida, sem capacidade para pagar as despesas com que se responsabilizou tem sido crescente. Inevitavelmente a grande maioria de nós tem de se esforçar para adaptar-se a esta habitual realidade.

No entanto é importante fazer-mos uma distinção entre realidade e verdade. Passo a explicar, se considerarmos que a “realidade” é aquilo que nos é transmitido pelos media e por grande parte dos estados de espírito da sociedade em geral, temos tendência para formar um conceito acerca do momento actual como sendo um momento extremamente incapacitante, tenebroso, desesperante, insatisfatório e infeliz. Conduzindo-nos a um estado de incapacidade e sem soluções, caímos nas malhas do miserabilismo e tornamo-nos num profeta das desgraças (que é aquilo que mais vemos na comunicação social).

Por outro lado, se fizermos um esforço para procurar e construir a nossa “verdade” – aquilo que queremos realizar e que pretendemos que aconteça, quer na nossa vida quer no mundo. Nesse exacto momento que começar a materializar a sua verdade, um fenómeno extraordinário toma lugar – Você começa a agir de acordo com os seus objectivos, estes serão a sua maior linha orientadora e não os inúmeros factos “reais” da recessão económica mundial. Devemos sim levá-los em consideração, para nos movimentarmos com uma perspectiva das dificuldades que poderemos vir a encontrar.

É aqui que a mesma informação pode ter dois caminhos distintos. A forma como a interpretamos, aliada às estratégias que colocamos em acção fazem a diferença entre um caminho para a solução ou o caminho para o insucesso e miserabilismo. Chega de miserabilismo, à que enfrentar a realidade com a nossa verdade (aquilo que cada um de nós pretende que aconteça e que quer fazer), munirmo-nos das nossas melhores características, forças, virtudes, poderes e partir para a luta.

Recentemente atendi em consulta um paciente que estava extremamente preocupado com a recessão económica, e consequentemente com a saúde financeira da empresa em que trabalhava e mais especificamente no seu emprego e salário. Colocou-se num estado de incapacidade, andando constantemente receoso, preocupado, desiludido e algo deprimido. Começou a antecipar a situação até ao seu limite e vivia em agonia constante, como se a empresa já tivesse falido. Afinal tudo não passou de especulação construída da sua cabeça.

ALGUMAS QUESTÕES ESCLARECEDORAS

Ter medo não é normal?

Claro que é. Mais do que normal, é biológico. Todos nascemos com a capacidade para ter medo. Mas há dois tipos de medo: o capacitador e o destruidor. O primeiro é aquele que todos temos, que nos faz ser prudentes, antecipar perigos, situações desagradáveis e nos mobiliza a energia para evitar as suas consequências. É, por isso, bom tê-lo. O medo destruidor, paralisa-nos e impede-nos de enfrentar os nossos objectivos. É o medo que impede o talento de se desenvolver, é o medo que nos tolda a criatividade e nos inibe as nossas habilidades. É o que se está a passar com a crise económica.

Induz-nos mais medo do que devia?

Acredito que sim. É uma crise muito dura e duradoura, mas se olharmos para a história da Humanidade, não tem trazido a desgraça, os horrores e a infelicidade das que existiram nos períodos das guerras mundiais, de crises económicas mais profundas, de pandemias de doenças. Temos de saber pôr as coisas em perspectiva e perceber que vamos sair da crise, agora como no passado. Mas quanto mais medo tivermos menos vamos atrever-nos a tomar boas decisões e mais difícil vai ser sair desta crise.

Estamos a ser demasiado fatalistas?

Sem dúvida. O antídoto para a crise é termos confiança em nós próprios, no nosso potencial, dar o nosso melhor e seguir em frente. Não é parar, deixar-nos paralisar. É preciso reagir.

Porque é que o medo nos condiciona tanto?

Em primeiro lugar, porque é protector: tem a função de nos alertar para os perigos. É a emoção que mais impacto teve na evolução do ser humano e nos permitiu tomas decisões de lutar e fugir, e não é de estranhar que tenha tanta importância. O medo é no entanto uma emoção que permite mobilizar grande recursos num curto espaço de tempo, está “programado” para a acção imediata. Por outro lado, se o medo for constante torna-se destruidor, não só da capacidade de gerar soluções mas também na capacidade de gerir emoções.

RECUPERAR DE NOVO O CONTROLO

O que é que você pode mudar, tornando-se aborrecido, ansioso ou nervoso? Arrisco a dizer, Nada. Ao queixar-se ou permitir que o seu corpo sofra com os sintomas da ansiedade e stress, não irá conseguir nada. Pelo contrário, corre o risco de entrar num ciclo pessimista, inibindo qualquer solução que pudesse ser viável para a resolução da situação. Não deverá optar por concentrar toda a sua energia em algo que o coloca num estado não criativo, de não solução. Lembre-se, aquilo em que nos focalizamos expande-se. Usamos muito do nosso tempo naquilo em que pensamos, falamos e ouvimos, logo tem uma influência abismal em nós.

Eu sei que quando eu me foco no medo, sinto mais medo, encontrando mais razões para me tornar mais tenebroso. Isto pode tornar-se incapacitante ao ponto de poder antecipar cenários, que já não se fundamentam na realidade, mas em algo pior que isso. Vou criando uma inclinação mental de hipersensibilidade, ao ponto de começar a viver numa ameaça constante apenas imaginada por mim. É uma espiral descendente, até que de forma consciente e pro-activa consiga uma interrupção no padrão, e deliberadamente escolher concentrar-me em algo mais produtivo e propício para o meu bem-estar. Infelizmente, entrando numa espiral negativa de medo de vir a ter medo que as coisas possam piorar, dificilmente sem ajuda conseguirei de forma saudável dar a volta por cima.

Se está nesta situação, pondere procurar ajuda, no sentido de não se deixar afundar ainda mais e assim ser possível reverter a situação.

Todos reconhecemos que existem muitas coisas na nossa vida que estão fora do nosso controlo. Coisas como o tempo, o passado, as outras pessoas, a economia. A ansiedade, a preocupação e o medo normalmente instala-se quando você se foca nas coisas externas sobre as quais não tem controlo. Relembre-se da ultima vez que esteve nervoso ou ansioso acerca de alguma coisa. Em que é que estava focado? Foi em alguma coisa exterior ao seu controlo?
Estará certamente de acordo que todos temos poder para fazer escolhas. Todos temos sempre a possibilidade de escolher. Talvez perante determinadas situações de vida, possamos sentir que não temos escolhas, porque não queremos olhar para as opções. O nosso orgulho e ego ficam magoados e ressentidos. Existe sempre em última instância uma coisa sobre a qual temos controlo, que é o significado que damos às coisas e circunstâncias. Tomos temos uma opção de escolha relativamente à perspectiva que usamos para interpretar uma determinada situação.

Dica: “Quando mudamos o significado de algo para nós, quando mudamos a nossa interpretação, mudamos as nossas emoções. Esta é a chave para melhorar o nosso bem-estar emocional.”

É bastante capacitador relembrar a nós próprios, que não somos os nossos títulos/categorias profissionais, não somos aquilo que ganhamos, não somos as nossas circunstâncias, não somos os nossos problemas, nem somos os nossos pensamentos ou comportamentos. E não seremos certamente o medo que nos percorre a mente. Nós somos muito mais que tudo isto.

Reflexão: Nós somos maiores que tudo o que expressamos ou nos acontece (o todo é maior que a constituição das suas partes). Somos “aquele” que dá significado a tudo na nossa vida.

A vida de todos nós é enriquecida com as experiências pelas quais passamos. Na maioria das vezes estas oportunidades de crescimento e desenvolvimento acontecem-nos sob a forma de adversidades, dificuldades e obstáculos. É através da superação e dos desafios que desenvolvemos que sedimentamos o nosso carácter, forças, virtudes e sabedoria. A vida torna-se assim dinâmica e rica em experiências que permitem construir “aquele” que toma decisões – VOCÊ.

Faça o seguinte:

Em vez de perguntar “ porquê a mim?” ou queixar-se, “pobre de mim”, considere fazer a si próprio as seguintes questões.

  • O que é que eu posso aprender com esta situação?
  • Como é que posso usar esta adversidade para me tornar numa melhor pessoa?
  • Como é que posso usar esta oportunidade para servir os outros e a mim próprio?
  • O que é que posso fazer para chegar onde quero?
  • O que é que posso fazer para obter a clareza que necessito, para me colocar num melhor estado de recursos?
  • Como é que posso beneficiar desta situação?

E se nos focássemos nas coisas que realmente interessam para nós, em vez de nos focarmos nas coisas que estão para lá do nosso controlo. Focar-se no medo de que algo venha a acontecer na grande maioria das vezes é uma perda de tempo. Primeiro, porque as coisas que receia podem nunca vir a acontecer, significando que o tempo e a preocupação que dedicou foi uma perda de atenção no que era importante, um desgaste emocional e uma total perda de energia. Segundo, toda a energia utilizada não esteve ao serviço da resolução do problema, mas sim no seu aumento, e na deterioração da capacidade de tomar boas decisões.

Sugestão: Em vez de passar o seu tempo à procura de porque é que a economia está desta forma, porque é que os governos não tomam medidas mais eficazes, confirmando assim os seus receios, use esse tempo e energia para fazer algo mais significativo para si de forma a beneficiá-lo. Coisas como, passar mais tempo no desenvolvimento das relações com as pessoas que gosta, contactar com a natureza, ler algo motivador, ouvir um discurso inspiracional, aprender uma nova competência, ou refinar uma habilidade que já possui. Você é o autor da sua história de vida. Faça-a valer a pena.

1. FOQUE-SE NAQUILO QUE PODE CONTROLAR

Aquilo sobre o qual nos focamos pode mudar drasticamente a forma como nos sentimos. Reconheço que quando estamos em sofrimento é extremamente difícil focarmo-nos noutra coisa para alem da nossa dor. Também já estive nessa situação e é doloroso. Mas é possível mudar o nosso foco de forma intencional e alterar o estado emocional. É tudo uma questão de tomar consciência e agir progressivamente. É impossível ignorar os níveis emocionais. Por exemplo nós não mudamos drasticamente de um estado de ressentimento para um estado de excitação. Se não veja, facilmente mudamos de um estado emocional de ressentimento para zangado, de zangado para chateado, de chateado para indiferença, de indiferença para afectuoso.

Com pequenas mudanças, e de forma gradual conseguimos alterar a forma como nos sentimos. Reconheça que está em controlo. Você pode escolher focar-se numa perspectiva capacitadora. Verifique como é que pode mudar o significado de uma circunstância externa de forma a que o beneficie.
Por exemplo, não podemos controlar os altos e baixos da venda de stock, mas podemos escolher perceber que o stock é apenas dinheiro, e o dinheiro é algo em movimento do qual podemos sempre vir a ganhar mais. Podemos escolher perceber que a saúde é mais valiosa do que algo que nos faz andar constantemente stressados e do qual não temos controlo.

2. ELIMINE OU REDUZA DRASTICAMENTE O CONSUMO DE NOTÍCIAS

Qual foi a ultima vez que uma fonte popular de noticias, divulgou algo motivador, capacitador e pacificador? Isto raramente acontece porque não são “notícias interessantes”, e também quase nunca são capa de jornal. Notícias interessantes significam: guerra, conflito, sofrimento, mexericos, desastres. Provavelmente não é intenção da agência publicar notícias que instalem o medo, mas é trabalho dos reportes criar conteúdos que destaquem os problemas e exagerem o stress dai decorrente. Se não existir perturbação emocional, as pessoas não lêem ou não vêem as noticias, e rapidamente as agências baixariam os seus rendimentos. Qual foi a ultima vez que se sentiu bem depois de assistir ao noticiário da noite ou ler a capa de um jornal? Como é que lendo constantemente sobre a crise de crédito, a crise das hipotecas, a queda do mercado de acções, ou a recessão nos fortalece, nos eleva ou nos aumenta o nosso bem-estar? Em que é que isto nos ajuda? A constante lembrança mantém-nos focados no medo, ao invés das soluções e esperança. Mesmo as pessoas que não têm razões ficam preocupadas, desnecessariamente.

3. GRATIDÃO

Quais são as coisas mais importantes na sua vida? De que é que está agradecido? Quem é que ama? Escreva num papel em forma de lista, depois feche os olhos e imagine na sua mente. Sinta os sentimentos de gratidão. Faça isso regularmente.
As relações serão certamente o mais importante na vida de todos nós, o nosso bem mais precioso, é aquilo que nos reforça, que nos engrandece e dá sentido à vida. Incidindo a atenção sobre as coisas de valor inestimável e intangível, que traz propósito à vida ajuda-nos a colocar as coisas em perspectiva. Quando coloco as coisas em perspectiva, confirmo que não trocaria as posses materiais pela minha saúde e relacionamentos. Quando passamos por dificuldades, de quem é que nos socorremos? Certamente daqueles que nos são próximos, só eles nos ajudam a recuperar e a ganhar esperança e determinação.
Colocar as coisas em perspectiva, pode rapidamente dar-lhe uma sensação de “riqueza”.

4. PARE DE ESPALHAR O MEDO

Se pretende ajudar-se, pare de se lamuriar sobre os problemas económicos, pare de falar sobre as más notícias com os seus amigos, e comece a fazer coisas que estejam ao seu alcance. Se as suas necessidades básicas estiverem ameaçadas (exemplo, perda de emprego, habitação e alimentação), faça alguma coisa, faça muitas coisas, embrenhe-se num conjunto de acções para se ajudar a si mesmo. A única excepção para falar acerca da sua situação económica é quando procura ajuda dos outros durante os tempos de necessidade.

5. AS COISAS IRÃO RESTABELECER-SE

Você não está sozinho, estamos todos no mesmo barco. A história irá repetir-se a ela própria, e a nossa economia irá recuperar. Os Invernos virão e irão passar. Aguente-se firme, entretanto faça algo para se manter à tona de água.

6. TENTE AUMENTAR O SEU PATRIMÓNIO

Alinhado com o foco naquilo que está ao seu alcance de ser feito, procure verificar se existem algumas competências que necessite melhorar no sentido de lhe trazer mais vantagem na área profissional. A forma mais fácil e rápida de atingir segurança de emprego, é tornar-se flexível, multi-facetado e qualificado naquilo quer faz. Comprometa-se a ser altamente eficaz naquilo que é o seu trabalho e nunca pare de aprender.

7. FAÇA UM FUNDO DE EMERGÊNCIA

Quando tomamos as decisão de não nos focarmos no medo, não quer dizer que não nos possamos preparar para dias menos bons. Decidir criar um fundo de emergência é uma prática que deveremos fazer em qualquer altura, não apenas durante tempos de recessão. Se não está na situação de estrangulamento das necessidades básicas, faça da criação do fundo de emergência uma prioridade. Tente perceber que quantidade de dinheiro pode reter todos os meses, mesmo que seja mínima. É a prática da poupança que importa. Se for disciplinado, em pouco tempo terá a recompensa.

8. FOQUE-SE NOS BENEFÍCIOS

Existem oportunidades, que se podem transformar em benefícios em tempos de crise. Existem nichos de mercado que por vezes beneficiam da crise. Alguns preços de produtos principalmente stoks e bens também baixam, pelo que se torna uma óptima oportunidade para comprar.
Por outro lado, se for o caso e tivermos menos dinheiro, pode servir para verificarmos que provavelmente consumíamos muitos produtos dos quais não necessitávamos e que até nos eram prejudicais.

9. ESCOLHA SER CAPAZ SENTIDO-SE BEM

Sentir-se bem não significa tornar-se vulnerável ou ignorante face ao assunto. Também não significa colocar um sorriso falso na cara. Significa simplesmente que você escolhe focar-se intencionalmente nas coisas que são importantes, que o faz sentir-se bem, que lhe dá alegria e motivação e que o faz sentir-se agradecido por estar vivo. Todos os dias estamos rodeados de oportunidades para a nossa felicidade, é preciso olhar para elas. Tal como o medo, a capacidade para experienciar alegria e reconhecer que existe capacidade em si para resolver a situação também é uma opção. Qual é que você escolhe?

PARA REFLECTIR

Gaste alguns minutos no visionamento do vídeo que aqui referencio sobre o Nick Vujicic, um homem extraordinário que nasceu sem braços e pernas. Vive uma vida cheia de obstáculos, que para nós consideraríamos condições incapacitantes ou mesmo impossíveis. Nick conseguiu ser bem sucedido e agora viaja por todo o mundo espalhando a esperança e inspirando milhões de pessoas.
Colocar as coisas em perspectiva ajuda-nos, claro que não nos resolve os problemas, mas se espelharmos a atitude de Nick face aos problemas, certamente será uma grande ajuda a nós próprios.

Você tem algumas palavras de encorajamento para aqueles que sofrem como resultado das condições económicas actuais? Tem alguma coisa a acrescentar? Partilhe connosco na secção dos comentários, em baixo.

Abraço.