Por natureza as crianças têm impulso para a ação, uma enorme curiosidade e avidez para irem ao encontro do que gostam. Podemos mesmo afirmar que têm uma forte tendência para o egocentrismo, tudo gira em torno dos seus gostos, interesses e necessidades. Quando são contrariadas, quando as impedimos de fazer algo que gostam, ou lhes pedimos para fazer algo que não querem, sofremos a retaliação. A resposta da criança à frustração pode tomar vários cenários. Birras, choros, amuos, comportamentos agressivos, evitamento social, verbalizações impróprias, indisciplina, comportamentos desviantes, entre outros. Saber lidar com os comportamentos inapropriados das crianças e comunicar-lhes eficazmente as mensagens que queremos é uma tarefa que requer conhecimento específico, estratégia e ponderação, que irá permitir construir a atitude correta para comunicar com a criança.

Esta atitude envolve quatro qualidades essenciais que irão mantê-lo no caminho certo quando as coisas ficam difíceis:

PACIÊNCIA

A paciência atua como a base para o sucesso dos três próximos conceitos. Quando você faz um compromisso com você mesmo relativamente à estratégia que pretende implementar e que mensagens deliberadas pretende transmitir, tem de reconhecer que o processo só se torna eficaz a longo prazo. Infelizmente, vivemos numa cultura onde vamos implementando a ideia que as soluções devem ser instantâneas e o sucesso fácil. No entanto, se adotarmos esta atitude como pai ou educador, estaremos certamente a garantir uma experiência repleta de frustração, raiva, desespero e, provavelmente o fracasso, porque para educar uma criança esta atitude simplesmente não pode coexistir no universo da educação e criação dos filhos.

Assim, todo o processo de melhorar a comunicação de pais para filhos ou educadores para educandos deverá ter na sua base a paciência. Sabendo que a maioria dos seus esforços não serão recompensados de imediato, talvez meses, talvez anos, mas baseada na crença de que o seu empenho e trabalho duro vai dar frutos, mais cedo ou mais tarde. Quando sabemos ser pacientes, aceitamos os obstáculos, reveses, fracassos e resistência apenas como uma parte do longo caminho de criar e educar os filhos. Na construção desse caminho, certamente irão emergir emoções negativas associadas a alguma ineficácia pontual das estratégias e mensagens transmitidas. Nem sempre o efeito é o desejado, por isso há que manter a cabeça fria e acreditar que aquilo que tem vindo a ser feito é o correto. Em retorno, você desenvolve mais empatia, menos frustração, e  sobretudo, uma mensagem muito poderosa e muito clara para a criança: “Eu sou firme e não desisto“.

comunicação eficaz

REPETIÇÃO

A Repetição é necessária porque as crianças não entendem nem seguem as mensagens transmitidas à primeira ou segunda ou décima ou centésima vez. A boa repetição do hábito conduz aos bons resultados. Não estou a falar da repetição de algo óbvio, ou da repetição da mensagem vezes sem conta no mesmo dia, hora ou minutos, nada disso. De nada vale dizer à criança: “Desliga o computador” e passado três minutos repetir-se “Desliga o computador” depois passado cinco minutos, como a mensagem não surtiu efeito, diz-se em volume mais alto: “Já te disse para desligares o computador” a criança continua sem ceder à mensagem, e temos de continuar: “É sempre a mesma coisa, nunca fazes o que te digo”.

Este tipo de repetição não surte efeito, é contraproducente. A mensagem que a criança recebe é que aquilo que os pais ou educadores dizem não tem importância, porque ela acaba sempre fazendo o que quer. Que emoções normalmente experiencia nestas situações? Frustração, raiva, exaustão e desespero deve resumir bem o que acontece. E, por vezes quando bate o desespero a próxima reação é desistir. Mas não há lugar na parentalidade para a rendição, porque se você jogar a toalha ao chão, o mesmo será dizer que desistiu do seu filho. O resultado ? Ele perde. Você perde. E não é isso que pretende.

Pegando no exemplo da mensagem para desligar o computador, o que merece ser repetido, não é a mensagem imediata de ver concretizado o encerramento do computador, mas sim repetir uma mensagem assertiva e eficaz, dia após dia. Do género: “Daqui a cinco minutos desliga o computador”. Se a criança não desligar, devemos aproximar-se dela e perguntar-lhe: “O que é que eu te disse?” e força-mo-la a responder o que queremos ouvir. A criança pode responder: “Disseste para desligar o computador.” e nós perguntamos: “O que é que tu fizeste?” a criança responde: ” Não desliguei”. O que deveremos fazer é mantermo-nos no objetivo do comportamento ou tarefa que queremos ver realizada. Na continuação da conversa, poderíamos dizer: “Então desliga.”

Para aprofundar o assunto, leia: 3 armadilhas na comunicação com o seu filho

O que deve ser repetido dia após dia, é este tipo de diálogo apresentado acima, sempre que a criança não cumprir à primeira vez. Não nos devemos desviar do assunto, mas sim mantermos em mente o objetivo pretendido.

PERSISTÊNCIA

É por isso que a persistência pode ser a coisa mais importante que você precisa ter para passar e fazer cumprir as suas mensagens à criança. Para que as mensagens surtam efeito e o comportamentos possa ser melhorado, você deve manter-se obstinadamente persistente, mantenha a sua linha de raciocínio conduzindo a criança para o seu resultado pretendido. É fácil ficar frustrado e desistir. Você pode ser levado a expressar algo do género: “Para quê colocar tanto tempo e energia em mensagens positivas, se o meu filho não presta atenção?” Mas deixe-me assegurá-lo de que as crianças ouvem. O que pode acontecer é que a forma como está comunicando a sua mensagem não é eficaz. O que surtiu efeito e julgamos estar resolvido, a qualquer momento pode retroceder. Nessa situação não deve desesperar ou pensar que nada funcionou. Nada disso. O que deve fazer é voltar a ser assertivo nas suas mensagens, voltando à carga. Pode levar anos para que finalmente a criança ou jovem passe a agir adequadamente sobre essas mensagens, mas vale a pena a espera.

Ao sermos persistentes na implementação de determinada mensagem, aplicando a persistência sobre a mesma, podemos comprovar que pode não ser suficiente para nos mantermos no rumo educacional. O que nos leva ao próximo conceito.

PERSEVERANÇA

É aí que entra em jogo a perseverança. Eu vejo a perseverança como diferente da mera persistência. A última envolve a repetição continua das mensagens em condições normais e focadas num objetivo concreto e específico. A perseverança significa continuar a enviar a mensagem em face a contratempos e desânimo e numa base alargada das situações comportamentais impróprias. Não há nenhum passo de mágica para o desenvolvimento da perseverança. Ela é assegurada através de um compromisso inabalável de fazer o que é melhor para as crianças, não importando o quão cansativo, frustrante ou simplesmente irritante é lidar com a situação. Importa que você tenha também a noção que o processo de aprendizagem e modelação comportamental da criança não é uma corrida de velocidade, mas sim uma maratona. Você tem de continuamente ser firme na reafirmação das mensagens. Relembro que não é dizendo muitas vezes a mesma coisa que você constrói a a atitude correta, mas sim, nas situações idênticas de não cumprimento da mensagem, transmitir sempre a mesma ideia. A ideia de que o resultado que você pretende é a única opção a ser seguida pela criança. A perseverança é alimentada por uma profunda fé no valor que as suas mensagens têm para o seu filho. Essa convicção inabalável de que os seus esforços serão recompensados irá fornecer-lhe a força emocional necessária sempre que existir um recuo ou dificuldade. Mantenha-se firme na sua viagem de mensagens saudáveis e assertivas para o bem do seu filho.

Abraço,

Miguel Lucas