Quando conseguimos entender que temos a capacidade de não reagir a determinados estímulos, sejam eles externos (agressões verbais, stress, ansiedade, injustiça, perda) ou internos (sentimentos, sensações físicas, pensamentos, imagens, frustração, mágoa, dor emocional) ficamos com a possibilidade de aprender a agir mais em consciência e de acordo com o resultado desejado. Quando somos confrontados com alguma situação ansiosa que nos impele para uma determinada reação negativa, ao invés, podemos escolher responder conscientemente sem nos deixar afetar negativamente.

 “Entre o estímulo e a resposta existe um espaço. Nesse espaço está o nosso poder de escolher a nossa resposta. Na nossa resposta encontra-se o nosso crescimento e a nossa liberdade. “ -Victor Frankl

A seguir apresento um vídeo com um excerto de uma consulta de psicologia online via Skype, onde explico à minha paciente um conjunto de estratégias e conceitos para deixar de reagir negativamente aos sintomas da ansiedade, para que possa ser mais funcional na sua vida. Na minha explicação destaco quatro pontos essenciais:

1. Apanhar a nós mesmos a ficar num estado incapacitante e incómodo, tomando consciência do momento.

2. Ficar focado na experiência incómoda e nas sensações sentidas no corpo sem ficar alarmado, sem julgamento.

3. Não associar um cenário catastrófico à ansiedade sentida, aceitando o incómodo das sensações físicas

4. Agir em consciência e de acordo com aquilo que valorizamos e tem significado na nossa vida.

Link do Vídeo: https://youtu.be/Ln4jAb8le9U

Aceitação: A chave para o controle da ansiedade

A aceitação é o conceito central a ser aprendido e praticado para que se consiga deixar de reagir negativamente aos sintomas da ansiedade. A aceitação não tem a ver com baixar os braços perante os acontecimentos, ou de forma passiva continuar a dirigir a vida em frente como se nada de menos bom estivesse acontecendo. Nada disso. A aceitação deve ser compreendida como o encarar a realidade dos fatos, tal como eles acontecem e são impostos pela condição da vida humana. Importa ganhar a noção que desejar uma vida completamente estável, sem mudanças e imponderáveis, sem desafios e experiências significativas, é a antítese da própria vida. Este tipo de perspectiva destrói os esforços para a obtenção de equilíbrio emocional. E, o equilíbrio emocional advém de saber experienciar o impacto das emoções negativas de forma assertiva e de acordo com a realidade do momento.

Aceitar as emoções não é propriamente gostar de sentir-se mal, ou destroçado emocionalmente. O que importa perceber é que existem determinadas emoções que sentimos em resposta ao que estamos a viver ou à situação que estamos a enfrentar. Se nos estamos a sentir frustrados em relação a algo que não estamos a conseguir realizar ou alcançar, não devemos expressar a frustração de forma a termos uma atitude que prejudique ainda mais o problema.

Ao sentir a frustração, devemos aceitar essa emoção como um alerta, como informação sentimental que nos informa que não estamos a obter o que desejamos. Ao fazer esta interpretação, ficamos numa situação favorável para exprimir a emoção de forma adequada. Não negando a frustração, permite-nos expressá-la de forma adequada. Esta expressão adequada da frustração permite que se aceite esse sentimento até que ele desapareça, para em seguida retomarmos o foco para aquilo que mais importa.

Avaliar o que se sente

O que podemos é aprender a avaliar adequadamente o que sentimos, e para isso temos necessariamente de aceitar o que sentimos. Não temos de gostar, não temos de concordar, não temos de julgar que somos o que sentimos, podemos apenas perceber que temos um corpo onde se manifestam determinadas emoções, por vezes na forma de ansiedade. A próxima vez que sinta uma emoção incómoda (não necessariamente má ou negativa) sinta-a em toda a sua dimensão, como um alerta que é, como uma mensagem que o próprio corpo está enviando, e não como algo que se identifique como “monstruoso” ou “impróprio de sentir”.

Tente perceber se o que está sentido pode estar ligado a algo que gostaria de obter, ou algo que perdeu, ou porque se sente injustiçado, ou porque se sente diminuído, ou porque gostaria de ser reconhecido e isso não tem vindo a acontecer. Seja o que for, as emoções disparadas em reação a alguma interpretação que faz, podem conduzi-lo a caminhos pouco satisfatórios.

vencer a ansiedade

Entender as emoções

Entenda algumas das suas emoções como se fosse o choro de uma criança pedindo atenção (a sua própria criança interior, temerosa e desorientada) e que você deve ouvir, deve deixar que se expresse. Se você ignora as suas emoções, ou não lhes dá atenção, ou não tenta perceber a razão da sua manifestação, é como se não desse atenção à criança que chora, como se não quisesse perceber porque chora, e do que precisa para voltar a acalmar-se. Não é possível aclarar a água turva se não a deixarmos repousar. Por momentos seja um observador das suas próprias emoções. Não reaja, não esconda, não oprima, nem se envergonhe das suas emoções. Tê-las é uma condição humana.

Observe as suas emoções ou pensamentos associados como se fossem nuvens a passar no céu, dando a si mesmo a oportunidade de aceder à sua consciência. Depois tente perceber os gatilhos da vida que podem estar a fazer disparar os sentimentos incómodos, e a que crenças, formas de olhar a vida, necessidades, desejos e fraquezas, a sua ansiedade está associada? Ao realizar este exercício, consegue criar um espaço para a autobservação, permitindo a si mesmo perceber o processo responsável pela sua ansiedade. Ficando ciente desse processo, coloca-se numa posição de controle. Fica mais capacitado para poder intercetar o impulso automático que usualmente acontece, e decidir se é indicado ou não para a circunstância que está a viver. O processo anteriormente descrito é uma maneira eficaz de regular os sintomas da ansiedade, tendo na base o filtro da consciência e do autoconhecimento.

Abraço,

Miguel Lucas