Somos maioritariamente aquilo que pensamos numa base consistente. Este é um princípio extraordinário, pois podemos intencionalmente construir e desenvolver pensamentos que nos sirvam e cumpram os nossos objetivos de vida. A não ser que não consigamos. E, quando não conseguimos, ou quando somos invadidos por pensamentos negativos, intrusivos e indesejados, tudo se complica. Podemos ficar vítimas dos nossos próprios pensamentos, e vermos a nossa qualidade de vida diminuir drasticamente. Quando os pensamentos negativos tomam o controle de grande parte dos nossos recursos mentais, o sofrimento psicológico pode tomar várias formas, como ansiedade, depressão, fobias, ataques de pânico, preocupação excessiva, ruminações, obsessões, medos, entre outras.

No artigo: Como os seus pensamentos criam a sua mente?, expliquei como se formam os padrões mentais que regulam a nossa vida, que influência consciente podemos ter nesse processo, e o que fazer para termos o controle dos nossos pensamentos e evitar sermos prejudicados pelos pensamentos negativos que nos passam na mente. Para que esta abordagem surta efeito, importa ficar ciente do seguinte pressuposto:

“Não acreditar em tudo o que pensamos.”

Na base de grande parte dos problemas emocionais e problemas psicológicos que nos afetam, está a incapacidade de não termos consciência da frase colocada acima. Se você ficar ciente que nem tudo o que pensa é real, nem tudo o que pensa tem de acontecer como lhe surge na mente e que não tem de seguir ou realizar os conteúdos de alguns dos seus pensamentos, isso, permitir-lhe-á criar o distanciamento suficiente para mudar um pensamento negativo para um pensamento positivo. Se você conseguir quebrar a ilusão de julgar que é os seus pensamentos negativos, fica livre para poder libertar-se dessa angústia e criar o hábito de avaliar o que pensa, e se aquilo que está a pensar se justifica, se tem relevância, se lhe serve, se é importante, se deve ser descartado, e assim sucessivamente.

A dor emocional advinda da autocrítica negativa, ansiedade, depressão, preocupação e outros hábitos mentais negativos é comum a todos nós. Essas emoções podem ser-nos úteis, como todas as outras emoções elas têm o seu lugar como possíveis sinais de que algo está errado, ou algo está a acontecer na nossa vida que não gostamos ou nos prejudica. Mas, em excesso, essas emoções são simplesmente avassaladoras e certamente não nos farão bem.

A seguir apresento 5 passos que você pode aplicar quando se encontra numa situação em que os seus hábitos de pensamento negativo estão a provocar sofrimento:

RECONHECER

Reconheça as emoções ou pensamentos que o incomodam. Observe sem julgamento. Depois constate o fato, ou seja, verbalize o que está a pensar ou a sentir. Por exemplo, “Estou a pensar que a vida é injusta.” ou, “Estou a sentir-me revoltado.” ou “Sinto-me desprezado.” Declarar o que pensa ou sente pode tornar os pensamentos mais gerenciáveis e provocar alívio. “Ah, então é isso que está na minha mente.” Você pode até perceber que os seus sentimentos dolorosos desaparecem passado pouco tempo. O ato de declarar, permite separar-se da sua angústia. Sente-a, mas tem a capacidade de não ficar “colado” a ela, sendo capaz de orientar a sua atenção para pensamentos que podem melhorar o estado em que se encontra.

CERTIFICAR, ACEITAR, PERMITIR

O próximo passo é certificar-se da sua angústia e aceitá-la como a sua realidade atual. Aceitar o seu estado negativo não significa que você gosta de estar nessa condição, nada disso, significa que você é capaz de colocar estes conteúdos mentais desagradáveis à sua frente, ficar com eles, dar-lhes atenção, ao invés de permitir que eles inconscientemente invadam todos os seus sentidos e espaço mental. Você pode dizer para si mesmo, por exemplo, ” Sim, eu estou preocupado com a possibilidade do meu relacionamento terminar.”

INQUIRIR E INVESTIGAR

Nesta fase do processo, você pode usar a sua curiosidade natural para descortinar mais profundamente a sua aflição e angústia. Você pode questionar-se:

  • O que desencadeou este meu sofrimento atual?
  • Quando é que já me senti assim antes?
  • Que pensamentos, sentimentos e sensações estão ligados ao meu estado atual?
  • Quão realista é o meu pensamento?
  • Há ações que eu poderia tomar para mim ou para outra pessoa, que ajudassem?
  • O que eu preciso fazer?
  • Para que pensamentos importa orientar a minha atenção?

Inquirir e questionar permite que você trabalhe positivamente o seu pensamento negativo. Permite que se coloque no lado da solução ao invés da vitimização.

NÃO PERSONALIZAR

Você não é os seus pensamentos negativos, sentimentos dolorosos e sensações desagradáveis. Em vez de se identificar com eles, você pode mentalmente “deixá-los ir” e vê-los a desaparecer como se fossem automóveis a passar à porta de sua casa. Se isso não for suficiente, devido à elevada intensidade dos mesmos, importa perceber que os pensamentos são apenas isso mesmo, pensamentos, e que você pode estar preocupado ou a sentir-se angustiado, mas mesmo assim, consegue organizar o seu pensamento de forma a orientar ações que possam minimizar a dor, ou que o retorno das suas ações possam fazê-lo sentir-se melhor. Neste processo, o que faz todo a diferença é você não personalizar, não se resumir ao seu sofrimento emocional ou pensamentos negativos. Você é muito mais que isso. No momento em que se sente perturbado pelos seus pensamentos, você continua a ser a pessoa que quer melhorar ou que tem consciência que não gosta de estar como está. Lembre-se do primeiro pressuposto: “Você não é aquilo que pensa.”

AUTOCOMPAIXÃO

Autocompaixão significa ter alguma amizade, generosidade e simpatia por você mesmo. Não é autopiedade, mas sim um reconhecimento e aceitação da sua humanidade, da sua imperfeição, e da sua capacidade para o sofrimento.  No fundo, é aceitar a sua condição de ser humano. É empatia com você, do mesmo jeito que tem para o seu melhor amigo ou parceiro. Você pode dizer para si mesmo: “Tudo fica mais difícil quando penso e me sinto neste estado.” A aceitação  da nossa condição enquanto ser humano, surte o mesmo efeito que o abraço de uma mãe tem quando reconforta o seu filho.

Estes passos podem não funcionar para todas as condições se a pessoa já tiver um padrão mental negativo demasiado instituído, e com isso possa ter desenvolvido algum transtorno psicológico. Mas acredito ser incrivelmente eficaz em muita situações e para muitas pessoas. Como eu digo no meu livro, Como Mudar a Sua Vida Para Melhor:

“Quanto mais compaixão e aceitação você tiver com o seu pensamento negativo, mais fácil será dissolvê-lo e seguir em frente.”

Abraço,

Miguel Lucas