Desenvolver a capacidade de desapegar-nos dos acontecimentos dolorosos é fundamental para conseguirmos recuperar o equilíbrio emocional. Com treino é possível aprender a deixar ir aquilo que já não importa na nossa vida. De uma forma geral todos nós temos tendência para focar a nossa atenção nos aspetos negativos da nossa vida. Mas quando isso é tão profundo que impede que possamos desfrutar das coisas boas que temos, torna-se um tormento. Certamente que alguns dos nossos problemas são importantes e merecem a nossa atenção e energia. Então, precisamos abrir espaço para uma atitude de honrar isso e, ao mesmo tempo, não deixar que tomem de assalto a nossa vida. É uma ideia paradoxal, mas mantendo estas duas atitudes simultaneamente é a fonte para o equilíbrio emocional. Desenvolvemos um senso de respeito para com todas as coisas, juntamente com a capacidade de deixar ir. Por isso, não devemos menosprezar os problemas, mas por outro lado não devemos atiçar o fogo neles até que se transformem numa batalha sem tréguas.

 O meu sofrimento de onde vem?

Só sei que se materializa na minha pele, invade-me os pensamentos, explode-me os sentimentos, aperta-me o coração,

Apodera-se do meu corpo por inteiro,

Será que fui feito para sofrer, para me sentir perdido, fora de mim, tomado pela loucura, pelos desejos, pela procura do êxtase?

Só sei que deliro de sofrimento, arrebatado pelas minhas memórias cortantes, pelo meu presente ansioso, pelo meu futuro esvanecido,

Também eu me sinto a esvanecer, a perder as forças,

Quem aguenta tanto sofrimento?

Desejo sentir-me bem, sem ter de enfrentar as minhas batalhas mentais, sem ter de sentir a dilacerar-me por dentro,

Como desejava ter mais força emocional, saber distanciar-me da dor, não deixar que se torne em sofrimento,

Sinto-me num casulo de dor, sem perspectiva de melhoria,

Mas que visão horrenda é esta?

Preciso de um vislumbre de alívio, por momentos que seja, desejo muito mesmo, nem que seja por segundos, preciso distanciar-me da minha dor,

Tenho de perspectivar um caminho,

Tenho de me agarrar a algo,

Sinto dor, mas não quero sofrer, sei que não posso não sentir dor,

A dor da perda, a dor do fracasso, a dor da desilusão, a dor da decepção, a dor da falta de afeto, da falta de reconhecimento, da falta de compaixão dos outros, da insensibilidade generalizada do mundo,

Como posso não sentir dor?

Aprendi que não posso não sentir dor emocional, mas que posso não sofrer,

Consigo perceber que sou maior que a minha dor,

Que sou o desejo de melhorar, sou também a vontade de percorrer novos caminhos, de traçar novos objetivos, de voltar a sentir-me bem, de voltar a sorrir, a sentir o prazer do sol,

Sim, mesmo com dor tenho ainda a capacidade de contemplar, até mesmo de ajudar quem me é querido, de dar a mão,

Mesmo com dor, continuo a conseguir perceber que tenho em mim a capacidade de seguir em frente,

É esta consciência que tenho de ser maior que a minha dor, que me permite entender que posso não sofrer,

Que posso deixar de ter autopiedade, que posso deixar de me vitimizar,

Possuo imensos recursos que quando colocados em ação me abrem a um mundo de possibilidades,

A possibilidade de olhar para a minha dor, não me confundir nem fundir com ela,

Distancio-me e sigo, maior, mais forte e mais ciente que sou tudo isso,

Sou dor, sou desejo, sou alegria, sou futuro, sou amigo, sou filho, sou força, sou fé, sou esperança,

Sou tudo isso para além da minha dor,

A dor expressa-se em mim, mas eu não expresso a minha dor em sofrimento,

Aceito-a, contextualizo-a, separo-me dela, até que se esvaneça na imensidão da riqueza da minha vida.

-       Miguel Lucas

Espaço mental para ser mais positivo

Quando você começa a ver a vida sob o ponto de vista de que a grande maioria dos acontecimentos é a natureza da vida a expressar-se, e que as coisas não estão “contra você” ou “tentando atacá-lo”, provavelmente irá permitir-se a relaxar e a encontrar espaço mental para ser mais positivo e mais grandioso. Você pode aprender a relaxar o seu corpo e a diminuir a ansiedade e angústia associadas aos momentos de tensão da sua vida. Tem um nó no seu estômago, pode apenas relaxar. A parte de trás do seu pescoço está tenso, pode apenas relaxar. A sua mente está agitada, pode apenas relaxar. Quando desenvolvemos a capacidade de promover boas sensações no nosso corpo, ficamos numa posição mais confortável para enfrentarmos os problemas que nos surgem na vida sem lamentações vitimizantes.

fim de problemas

Abrandar as sensações incómodas e os pensamentos negativos

Ao conseguirmos relaxar o corpo e a mente mais facilmente conseguimos aceder à nossa consciência, ficamos menos propensos a influenciarmo-nos negativamente pelas emoções do momento, e assim podemos experimentar a quietude. A grande maioria de nós consegue experimentar este estado de forma natural, quando estamos sozinhos a contemplar algo que gostamos, ou quando estamos a realizar uma caminhada no bosque ou na praia, ou olhando pela janela observando o infinito, ou simplesmente quando observamos aquilo que pensamos, sem interferência. 

Aprender a relaxar e a acalmar a mente entrando num estado de quietude, é realmente a essência para deixar ir a dor advinda dos problemas que nos atormentam. Saber manter e voltar para a experiência de quietude quando os pensamentos negativos e incómodos começam a chegar (pensamentos como, mau, bom, deve, não deve, sou idiota, eles são injustos, sou um fracassado), permite que você se distancie do que lhe aparece na mente ou se faz sentir no seu corpo. É assim que podemos ter a experiência de desapego, e perceber que não somos limitados ao que pensamos e sentimos num determinado momento. Este processo permite-nos em consciência percebermos que estamos a ter uma determinada experiência interna, e ao mesmo tempo que não somos essa experiência. Nós somos aquele que determina o impacto da experiência, podendo limitar-nos à própria experiência e consequentemente sofrer com isso, ou distanciar-nos da nossa experiência, relativizar, e ir ao encontro de uma solução.

Ligar-se à sua essência e consciência

A prática de saber relaxar e ficar totalmente em quietude no momento presente, permite que você seja capaz de experienciar o seu coração a bater forte, a sua preocupação ou a sua angústia sem perder a noção da sua essência. Por exemplo, quando você acorda pela manhã, antes de uma conversa difícil, o medo ou o desconforto pode surgir. Esta prática é uma bela maneira de reivindicar a necessidade de aceitar o seu momento presente incómodo, sem se confundir com ele. Em outras palavras, é uma forma de reivindicar a sua coragem, a sua bondade, a sua força, a sua capacidade de orientar-se a si mesmo e perceber que pode distanciar-se do que percepcionou e aceder à sua essência, à sua consciência, e conhecer a razão do que está a expressar-se no seu corpo e o que fazer para lidar com o seu “problema”.

Sempre que algo idêntico ocorrer, você pode fazer uma breve pausa, relaxar, tranquilizar a sua mente e perceber a forma com se está sentindo fisicamente e mentalmente, e em seguida, conectar-se a si mesmo, ao seu ser mais amplo. Esta é uma maneira de aceitar o que está acontecendo com você no momento presente, sem problematizar. Você pode ter uma dor nas costas, uma dor de estômago, pânico, raiva, impaciência, calma, alegria, seja o que for, podendo apenas observar a forma como se manifesta em você, sem rotulá-lo de bom ou ruim, sem dizer se você deve ou não estar sentindo-se assim, sem problematizar. Ao observar o que está acontecendo, com abertura e aceitação, você pode ir mais além com curiosidade e coragem, orientado por si mesmo em consciência. Eu chamo este passo de “salto da consciência“.

Abraço,

Miguel Lucas