Desde o primeiro dia das nossas vidas a mudança é uma constante. A pergunta crucial não é se vamos mudar, mas sim como vamos mudar. Como vamos implementar mudanças em nós mesmos ou na nossa vida de forma intencional e de acordo com os nossos objetivos? Afirmo perentoriamente que a forma mais eficaz é usando a consciência. Tendo a consciência como autoridade máxima, podemos tomar o controle das nossas vidas e usarmos a nossa excelente capacidade de adaptação. Quando observamos a nós mesmos, quando entendemos os nossos padrões comportamentais e de raciocínio, quando conhecemos a forma como expressamos as nossas emoções, e porque as expressamos, ficamos cientes da nossa experiência interna e, por ação consciente conseguimos mais facilmente construir respostas e cursos de ação que nos sirvam.

OS DOMÍNIOS DA CONSCIÊNCIA

De acordo com a wikipedia.org a consciência é o estado ou a capacidade de perceber, sentir, ou estar consciente de eventos, objetos ou padrões sensoriais. Neste nível de consciência, dados sensoriais podem ser confirmados por um observador, sem que isso implique necessariamente compreensão. Mais amplamente, é o estado ou qualidade de ser consciente de algo.

É ao estado mais amplo de consciência que me irei referir durante o artigo. A nossa liberdade de escolha reside no intervalo que existe entre o estímulo e a resposta. Nesse precioso intervalo a ação da nossa consciência permite exercermos o poder daquilo a que chamamos liberdade de escolha. Se essa escolha estiver alinhada com os nossos valores mais elevados e enquadrados com os nossos objetivos de momento, estaremos agindo em consciência por ação consciente. Sim, porque podemos agir subconscientemente por ação consciente (reação automática). Aquilo a que podemos chamar de estado consciente pode ser considerado tudo o que fazemos desde o momento que acordamos (isto para pessoas mentalmente saudáveis). No entanto, no estado de vigília (acordados) nem sempre permitimos, ou conseguimos que a nossa consciência atue ou tome as rédeas do nosso processamento mental relativamente ao que estamos a viver em determinado momento. Quando dizemos que agimos sem pensar, quer dizer que os nossos comportamentos foram acionados de forma automática (previamente aprendidos) sem a intervenção consciente do nosso raciocínio. É usualmente nesses momentos que fazemos e dizemos coisas que mais tarde nos arrependemos de termos feito ou falado.

Dica: Se pretendemos mudar algo em nós, um dos ingredientes mais importantes para o sucesso é a consciência. A consciência é uma ferramenta incrivelmente poderosa para nos ajudar a mudar para melhor.

Existem três grandes domínios da consciência humana. O primeiro domínio é um nível de consciência que nós compartilhamos com outros animais e é chamado de consciência experiencial (que também é chamado de sensibilidade). Esta é composta das sensações não verbais, perceções, impulsos, e estados emocionais que guiam as ações. O segundo domínio é a autoconsciência, e é aí que reside o autoconhecimento explícito. Neste domínio é o narrador internalizado que desenvolve significado nas coisas e constrói “teorias” sobre o mundo, acerca das outras pessoas e de si mesmo. O terceiro domínio da consciência é o Eu público, que refere-se ao que nós explicitamente dizemos às outras pessoas e a imagem que tentamos projetar.

controle

DOMÍNIO DAS AÇÕES

Muitos de nós, em determinadas situações perdemos o controle das nossas ações. Certamente por influências das emoções que disparam no nosso organismo e dos pensamentos que nos aparecem na mente. Reagimos às situações da vida, em vez de, conscientemente elaborarmos uma resposta que seja assertiva e nos sirva.

Ao longo dos anos, fui ficando familiarizado com o conceito de meditação e mindfulness. Sempre me esforcei para conseguir aplicar o conceito no meu dia a dia, mas nem sempre fui bem sucedido. Essa dificuldade vinha da confusão gerada na minha cabeça acerca do próprio conceito e da forma como é utilizado pelos praticantes tradicionais, que é esvaziarmos a nossa mente e sermos testemunhas dos nossos próprios pensamentos sem interferência e julgamento. Esta ideia não me parecia praticável na azáfama do dia a dia. Até que cheguei a um conceito simples: Atenção Plena, ter a noção do impacto emocional que as situações e acontecimentos têm no meu corpo, a reação que isso produz na minha mente, e o impulso gerado para verbalizar e agir, mas agir apenas quando todo esse processo é filtrado pela consciência. O resultado é agir ao invés de reagir, é responder assertivamente ao invés de simplesmente falar, é elaborar pensamentos ao invés de simplesmente pensar.

Obviamente que todo o processo anteriormente descrito requer treino. Durante um determinado período a pessoa tem de propor-se à observação dos seus sentimentos, pensamentos, ações e  atitudes que vai tendo na sua vida. Importa que se comprometa a tornar-se mais consciente e conhecedora dos seus próprios processos emocionais e de raciocínio.

Exemplo entre um casal, em que o marido começa a perceber o autocontrole que a sua esposa tem comparativamente a ele, e questiona-a para tentar entender como ela consegue:

  • Marido: Eu noto que quando tu interages com outras pessoas, inclusive comigo, embora às vezes fiques chateada por ações e palavras dos outros, tu nunca respondes em retaliação com palavras pejorativas. Eu estou estupefacto. Como consegues fazer isso? Eu mesmo, ao sentir-me magoado ou ofendido, instintivamente respondo com um comentário negativo. Será que os pensamentos negativos nunca surgem na tua cabeça?
  • Esposa: Não, quer dizer, de fato os pensamentos negativos entram na minha cabeça ocasionalmente. No entanto, em vez de vomitá-los para fora, faço uma pausa e reflito, pensando para mim mesma: “Se eu disser estas palavras duras, qual o impacto que elas têm sobre a outra pessoa?” Se eu pensar que as palavras irão ser realmente dolorosas para a outra pessoa, então eu simplesmente não as verbalizo.
  • Marido: Que aprendizagem extraordinária. Quer dizer que eu posso sentir os meus sentimentos, mas se eu parar e pensar antes de falar, eu poderei responder em consciência, antecipando as consequências das minhas atitudes. Isso certamente irá contribuir para o meu desenvolvimento e crescimento, tornando-me numa pessoa melhor.

Abordei este assunto no artigo: Deixe de reagir, escolha a sua resposta em consciência afirmando quem você quer ser.

CONSCIENCIALIZAÇÃO: UM PODER AO ALCANCE DE TODOS

O ingrediente chave que pode ajudá-lo a mudar alguns dos seus comportamentos indesejados é a sua consciência. Tornar-se consciente do que faz, e da forma que pensa e sente, facilita a implementação de novos comportamentos. Sem ficarmos cientes que temos a possibilidade de mediar as nossas ações através da nossa consciência, certamente, na grande maioria do tempo, agimos em piloto automático, correndo o risco de falarmos sem considerarmos o impacto das nossas palavras, ou sem nos apercebermos das consequências das nossas ações para os outros e igualmente para nós. Tendemos a agir de acordo com aquilo que sentimos e nos passa na mente, assumindo que tem de ser assim, e que somos assim. A consciência é fundamental para sermos bem sucedidos, progredirmos e sermos felizes, porque mudamos maioritariamente por ação consciente.

Abordei este assunto no artigo: Cuidado com as suas palavras, 8 formas de otimizar o seu discurso interno.

É crucial não sermos negativamente críticos de nós mesmos, mas em vez disso, olhar para nós mesmos e perguntar: “Ei, o que está acontecendo agora? Como vai a minha vida?” A fim de provocar uma mudança nas nossas vidas e para alcançar a felicidade, precisamos saber o que está acontecendo. Novamente, não estamos julgando, apenas observando e filtrando pela nossa consciência aquilo que percecionamos. Muitas vezes as nossas vidas não seguem o rumo pretendido, não porque somos incapazes ou porque não possuímos competências, mas sim por ignorância. Com estas novas ferramentas e esclarecimento, certamente será capaz de mudar a vida para melhor, de forma saudável, produtiva e funcional. Quando temos consciência, quando entendemos o que está acontecendo, podemos olhar para as nossas vidas e, em seguida, iniciar a mudança.

Abordei este assunto no artigo: A consciencialização é o primeiro passo para a mudança

OLHE PARA SI MESMO DE FORMA REALISTA E HONESTA

Para que se torne mais consciente e conhecedor das suas formas de sentir, pensar e agir, importa ter um olhar realista e honesto sobre si mesmo. É muito pouco construtivo sermos antipáticos, hostis, desagradáveis, agressivos, negativistas, raivosos, porque as nossas vidas não estão indo bem. Ou, eventualmente enveredarmos por maus hábitos. Este tipo de comportamentos não vai ajudar-nos. Precisamos perguntar: “Como vão as coisas verdadeiramente?” Quando fazemos isso, estamos praticando a autoconsciência construtiva. Estamos apenas olhando e analisando, explorando e eventualmente conversando com outras pessoas, a fim de tornarmo-nos plenamente conscientes de quem somos e do que fazemos. Quando algo na nossa vida não está funcionando, essa consciência pode trazer a mudança. Só então, podemos caminhar em terreno fértil para deixarmos de ser reativos. Só assim conseguimos antecipadamente prever as consequências, e em consciência escolher que curso de ação será melhor tomarmos. E, claro, as coisas vão ser melhor, porque você se torna consciente das suas ações anteriores, você descobre uma nova maneira de lidar com o stress e tensões, construindo um padrão mental positivo que facilitará a adaptação funcional à vida. Com a autoconsciência aumentada, você vai ser uma pessoa mais feliz, mais saudável, e todos ao seu redor serão beneficiados.

A consciência é uma forma verdadeiramente eficaz para implementar mudanças positivas nas nossas vidas. É uma ferramenta construtiva e poderosa que podemos utilizar para ganharmos mais controle sobre nós mesmos, e com isso, melhorarmos o bem-estar e promover a felicidade.

Para aprofundar o assunto leia:

Abraço,

Miguel Lucas