O passado é talvez aquilo que mais nos pesa, não só porque nos acontecem coisas das quais gostaríamos de esquecer, ou não ter vivido, mas também porque transportamos connosco, o arrependimento, vergonha e sentimento de culpa de coisas das quais não nos orgulhamos. Gravamos na nossa mente e igualmente no nosso corpo as experiências que nos incapacitam, guardamos as memórias dos acontecimentos e do impacto emocional que tiveram, e sempre que uma situação idêntica nos transporta para os cenários passados, voltamos a reviver os mesmos pensamentos e sentimentos, reforçando ainda mais tudo aquilo que nos manda para baixo.

Alguns acontecimentos podem mesmo condicionar de forma negativa toda uma vida. Não só porque podem derrubar de forma arrebatadora a pessoa que passou pela situação, alterando o que pensa acerca do mundo, de si e dos outros, mas principalmente porque pode ficar num estado de ressentimento exagerado, olhando para tudo e para todos quase sempre de uma forma hostil, e num estado de proteção, em modo de sobrevivência.

Na altura em que os acontecimentos indesejados ocorrem, na grande maioria das vezes, ficamos com uma ideia acerca do que nos aconteceu e do quanto isso nos afeta, ou pode vir a afetar no futuro. Essa história que compomos de acordo com a nossa experiência de vida, crenças e modo de pensar, joga um papel tremendamente importante acerca da forma como isso nos vai afetar daí em diante.

“Um homem é sempre um contador de histórias. Ele vê tudo que lhe acontece através delas. E, ele tenta viver a sua vida, como se estivesse contando uma história.” – Jean Paul Sartre

“Quem é que eu vou ser nesta história? Em que é que eu realmente acredito, o que realmente dou valor, e quanto vale a pena lutar por mim?”

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SOMOS TODOS CONTADORES DE HISTÓRIAS

De acordo com António Damásio, o nosso corpo está cartografado no nosso cérebro, o que quer dizer que a um nível subconsciente grande parte das alterações fisiológicas que ocorrem no nosso organismo são lidas pelo nosso cérebro, e este constrói uma representação mental do que está a acontecer. As alterações fisiológicas (por exemplo, emoções e sentimentos) são acionados pela nossa percepção do ambiente ou pelos nossos pensamentos. O que o nosso cérebro observa e regista que está a acontecer no corpo, é contado na forma de uma história (pensamentos) que são criados na nossa mente. Quando estes pensamentos surgem na mente, nós tomamos consciência deles, e nesse momento construímos a nossa história. A história é baseada na experiência externa que registamos na nossa memória (fatos sobre o acontecimento) e ao mesmo tempo o nosso cérebro emocional (sistema límbico) faz-nos sentir uma emoção, é esta emoção que sentimos no corpo que nos deixa uma forte “impressão” associando na nossa memória os fatos e as emoções vividas nesse exato momento. Formamos uma memória emocional, que mais tarde conseguimos descrever por palavras, constituindo e construindo a nossa história dos acontecimentos.

“O cérebro é um espetador forçado do espetáculo do corpo.” - António Damásio

António Damásio, em “O Erro de Descartes” diz: “É-me muito difícil, se não impossível, pensar que espécie de emoção de medo restaria se não se verificasse a sensação de aceleração do ritmo cardíaco, de respiração suspensa, de tremura dos lábios e pernas enfraquecidas, de pele arrepiada e de aperto no estômago. Poderá alguém imaginar o estado de raiva e não ver o peito em ebulição, o rosto congestionado, as narinas dilatadas, os dentes cerrados e o impulso para a ação vigorosa, mas, ao invés, músculos flácidos, respiração calma e um rosto plácido?

Mas o mesmo é válido para o nosso  meio ambiente. De certa forma, aquilo que nos rodeia também está cartografado no nosso cérebro. Nós temos milhões de células nervosas, a que chamamos neurónios, que se organizam em redes neuronais especializadas, que por sua vez permitem interpretar o que acontece no nosso meio externo. A estrutura mental positiva ou negativa que vamos edificando pela força do hábito, pelas interpretações que vamos fazendo, pela forma de pensar que vamos instituindo acerca das coisas, uma e outra vez, pela forma como vamos enraizando algumas crenças e como estas vão criando e reforçando as redes neuronais é que nos fazem pensar de uma determinada forma. Tudo isto vai alterando a nossa estrutura cerebral, para que de forma antecipada nos prepare para processarmos estímulos idênticos aos que temos vindo a receber.

A forma como vamos pensando acerca da nossa história (daquilo que vamos fazendo e que nos vai acontecendo) vai alterando e enraizando o nosso mapa mental do mundo e igualmente da ideia que temos acerca de nós mesmos. Se aquilo que vivemos, e a forma como olhamos o mundo é depreciativo, traumático, angustiante, frustrante, depressivo e negativo, ambas as cartografias do nosso cérebro (interna do corpo e externa do meio ambiente)  trabalham em uníssono, contando e sentido a mesma história. Uma história que fica entranhada no corpo e no cérebro, na forma de uma memória. Se no momento presente nos formos movimentando por essa memória do passado, pela nossa história, e esta for incapacitante, iremos recorrentemente viver num estado idêntico aos acontecimentos desagradáveis e negativos que provocaram mal-estar, infelicidade e tristeza. Assim se constrói uma história baseada num ressentimento, assim se vive uma vida de ressentimento, imposta pela força do hábito.

Se não está contente com a sua história, ou pretende viver de hoje para o futuro de forma diferente, mais capacitadora e positiva, leia: Mude a sua história, se está insatisfeito, faça algo de diferente.

A SEU FAVOR OU CONTRA SI

E você, qual o seu ponto de vista acerca da sua história e das muitas coisas que lhe acontecem? Mesmo uma curta história acerca de algo engraçado que lhe possa ter acontecido hoje, revela o papel que você escolhe ter na sua vida, os valores que a suportam, e a maneira que lida com a adversidade. É a ideia que constrói da sua vida a partir de um ponto de vista na primeira pessoa, que vai construindo a noção que tem de si mesmo. Esta é a história que você prefere contar acerca de si mesmo.

Mas, o problema é que nem todas as histórias pessoais são as mesmas em termos de promoção do nosso bem-estar, no sentido de conduzir-nos do ponto A ao B na nossa vida, e fazendo isso de uma maneira que descreve a nossa perseverança, aprendizado, resistência e crescimento. Algumas das nossas histórias preferidas limitam o desenvolvimento de uma fase da vida para outra e, assim, mantêm-nos presos a um certo ponto de vista no nosso cronograma de vida. Algumas histórias que contamos a nós mesmo podem-nos restringir, ao invés de abrir possibilidades para novas formas de ser, mais adequadas, funcionais e vantajosas.

A forma como olhamos para os acontecimentos na nossa vida, a forma como os avaliamos e o impacto emocional que têm, contribui em larga escala para a tomada de decisão que fazemos e nas estratégias que utilizamos para lidar com a situação. A posição que tomamos, de vítima ou de resiliência, deprimida ou esperançosa, frustrada ou de aceitação, irá contribuir para vivermos à sombra dos acontecimentos, ou ao invés, resignificar o que sucedeu emergindo sentimentos de coragem, orgulho, e superação.

Podemos não ter controlo sobre o que nos acontece, e numa primeira fase, podemos até reagir de forma negativa, inadequada e prejudicial, mas com o passar do tempo, temos a possibilidade de analisar os fatos e as emoções envolvidas, atribuindo-lhe um significado de aceitação, para que possa interpretá-los de uma forma a que retire algum tipo de aprendizado que possa ser útil. No entanto, ainda que possa não ver utilidade, pelos menos não permita que a relembrança do sucedido lhe prejudique ainda mais a vida do que o evento em si. O que pode facilitar o descondicionamento, ou seja a separação do seu estado emocional memorizado e as lembranças dos fatos passados do bom desenrolar da sua vida presente é, dissociar-se das emoções sentidas e dos fatos registados. Por outras palavras, você não é os seus acontecimentos, e apesar de algumas histórias da sua vida terem sido desagradáveis abalando a sua forma de olhar o mundo, você tem sempre a possibilidade de criar uma visão de si mesmo independente daquilo que lhe aconteceu. O que lhe aconteceu pode avaliar-se como perturbador, angustiante, injusto, aterrador, no entanto você pode não percepcionar-se como sendo uma pessoa perturbada, que vive em angústia, injusta e com medo do futuro.

Dica: O que importa é o ponto de vista pessoal que você expressa acerca do que lhe acontece e não propriamente o que lhe acontece.

Só você saberá o caminho que quer percorrer para o resto da sua vida, e o quanto vai interpretar os acontecimentos como incapacitantes, ou não. Você é única pessoa que pode construir uma descrição dos acontecimentos que faça sentido para si, podendo ajudá-lo nas suas decisões, ou não, e o quanto podem influenciar a sua história pessoal a seu favor, ou não.

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USE A SUA HISTÓRIA PESSOAL COMO AJUDA PARA A MUDANÇA POSITIVA

No artigo, viva no presente não se paralise pelo passado expliquei que nós não somos as nossas emoções, e como podemos usar o passado a nosso favor. No artigo, como libertar-se das angústias do passado, apresentei a ideia de pudermos viajar até ao passado usando a nossa memória dos acontecimentos, e como através da atribuição de um novo significado era possível fazer uma nova interpretação, mais positiva. Aprofundei o assunto no artigo, como dar um novo significado aos acontecimentos passados através da implementação de nova informação, transportada do momento presente para os fatos passados, complementado com o seguinte vídeo:


Link do Vídeo: http://youtu.be/ZzNUmjMn2as?hd=1
Escola Psicologia TV: http://www.youtube.com/escolapsicologia

Em seguida vou explicar passo a passo o processo que o pode guiar na construção de uma história mais capacitadora:

Como é que você sabe se a história que constrói acerca da experiência é mais certo do que errado? Se a história for mais adequada, funcional e positiva, você vai começar a sentir-se mais livre e pronto para avançar, e a sua compreensão evidencia as suas necessidades e desejos, e faz sentido com as características da vida que você viveu até ao momento, mas igualmente com as que pretende vir a viver.

É importante perceber que a atividade de colocar a experiência em forma de história merece a sua atenção consciente e reforçada. Você não deve simplesmente ignorar as coisas negativas, ou colocar uma visão positiva em cima das coisas que lhe aconteceram. O processo reflexivo que o pode conduzir a uma nova produção da sua história é uma tarefa psicologicamente desafiadora. Você tem que:

Primeiro, considerar os seus pensamentos e sentimentos, mesmo os que você pode estar tentando evitar ou negar. Sentimentos de medo, vergonha, arrependimento, injustiça, nojo, raiva, traição, dúvida, entre outros. Permita que invadam a sua mente, tente verbalizá-los. Enfrente o seu mundo interior de frente, não olhe mais para o lado como se nada tivesse acontecido, evitando não abordar o assunto consigo mesmo.

Segundo, promova o entendimento e significado usando este processo para escolher o papel que melhor sirva os seus objectivos, metas e propósitos da sua vida. A grande questão que importa focalizar-se é: “Quem é você, o que quer pensar, o que quer sentir e como quer agir?” Você pode decidir que precisa exercer ações mais auto-orientadas para os seus objectivos, nesta fase da sua vida.Talvez, você decida que uma grande mudança é errado para você, porque você está vivendo a vida que sente ser a mais autêntica. Mas, se você  sente que ficou preso no passado, ou que transporta um fardo que lhe consome grande parte da sua energia, então resignifique a sua história. Separe-se dos fatos e das emoções sentidas, interprete a situação como tendo fugido ao seu controlo, ou tendo sido imposta por condições externas. Se tiver de perdoar alguém faça-o, se tiver de se perdoar a si mesmo, faça-o. Desapegue-se daquilo que o faz sofrer, do que lhe enviesa o pensamento, que serve de justificação para continuar paralisado na sua vida. O que aconteceu não está mais aqui e agora. O que permanece consigo são apenas memórias, eventos mentais que lhe aparecem na mente e lhe condicionam as ações desprendidas.

Em terceiro lugar, pegue nas histórias dentro de você, perceba como o fazem sentir, e perceba que esses sentimentos não descrevem quem você é, ou pretende vir a ser. Essas histórias que estão dentro de você e que o empurram para o fundo, não são você, ganhe  consciência disso. Podem conter algumas das suas frustrações, mágoas e arrependimentos e eventualmente fixaram-se na forma como você pensa. Desapegue-se disso, focalize-se no que quer sentir, como quer pensar e o que pretende fazer para iniciar um novo capítulo na sua vida. Visualize-se a agir sem interferência do seu passado. Olhe para ele à distância, olhe para ele de forma positiva, como algo que lhe aconteceu, como algo que faz parte da sua história, mas que não o define como a pessoa que é, ou que pretende vir a ser. Olhe de forma positiva, percebendo que apesar de ter vivido maus momentos consegue seguir em frente, desprendido, e ciente que você é muito mais do que aquilo que lhe acontece. E isso, só pode ser positivo. 

CERTIFIQUE-SE QUE CONTA A HISTÓRIA QUE LHE SERVE

Depois de ter revisto e olhado para alguns dos acontecimentos que definem a sua história mais marcante, perceba e reflita se é exatamente assim que você escolhe recordar e resignificar essa parte da sua experiência de vida?

Para refletir: Tenha cuidado, porque a história que você conta (ou constrói) sobre o que aconteceu é realmente o que você está interiorizando. Você está registando este capítulo da sua vida, como você o vê. Tenha a total certeza de que é a história que deseja contar e que é a que lhe dá mais opções para esculpir o próximo capítulo da sua vida.

As histórias mais edificantes e úteis para nós, são as contadas por pessoas que foram resilientes. Ao lidar com os seus problemas de uma forma resistente, você realiza ações físicas e mentais que mudam a sua vida. O processo anterior é um conjunto de passos mentais que permitem expandir a sua compreensão e perspetiva para que possa ver de que maneiras você está preso num passado castrador. Você começa a analisar os significados que deu para as experiências, permitindo verificar se elas têm potenciado ou limitado os seus objetivos, metas e propósito de vida. Agora, você adquiriu um auto-conhecimento e uma perspetiva que lhe desenvolveu um “olho de falcão”  que lhe expande os horizontes, olhando à sua volta e percebendo que tem asas para voar mais longe. Altos e baixos vão acontecer sempre na sua vida, mas, o que mais importa é a maneira como você lida com eles, e acima de tudo como conta a sua história de superação, coragem e combatividade. E, isso é uma grande experiência para contar (principalmente para si mesmo).

CURE O SEU PASSADO

Se você sente que o seu passado está prejudicando a sua vida, se está infligindo sofrimento diário e inibe o seu futuro e projetos de vida, temos à sua disposição uma forma de terapia que tem sido de grande utilidade na superação do Transtorno de Stress Pós-traumático e que é aplicada igualmente a outros traumas ou problemas de grande impacto emocional. Esta terapia inovadora é apelidada de Terapia Perspetiva de Tempo (Inglês: Time Perspective Therapy). Esta nova abordagem atrativa enraizada na Teoria Temporal desenvolvida pelo Dr. Philip Zimbardo ajuda a quem sofre de Transtorno de Stress Pós-traumático a parar de viver no “passado castrador” e olhar para a frente para um futuro positivo.

Se tem vindo a sofrer com as angústias do seu passado e, apesar dos seus esforços não vê melhorias, pondere adquirir a minha Palestra em Vídeo: Superar o Passado e Promover o Futuro. Você Irá receber ensinamentos de como dar um novo significado aos acontecimentos passados e como gerir as emoções negativas que o atormentam no presente. Serão divulgadas estratégias para eliminar o autofoco, aumentar o autocontrole e restaurar a capacidade para saborear momentos de prazer e satisfação. Para adquirir a palestra em vídeo clique na imagem em baixo:

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Abraço,

Miguel Lucas