Dando continuidade à importância que as verbalizações não-favoráveis que dizemos a nós mesmos no nosso dia-a-dia têm na nossa vida, e a forma negativa como isso nos pode afetar, apresento a continuação do artigo: Deixe de dizer: Desculpe, Eu não sei, Eu não consigo (Parte I). Abordarei cada uma destas verbalizações e tentarei explicar o seu efeito na nossa forma de raciocinar. Vamos também, considerar algumas frases alternativas que podemos usar no lugar das “negativas”, e que são mais favoráveis ao nosso crescimento pessoal. O novo ano está à porta, esta é uma ótima oportunidade para iniciar algumas mudanças positivas na sua vida, levando em consideração a possibilidade de reformular algumas frases que lhe provocam auto-sabotagem e lhe retiram capacidade e habilidade para solucionar os problemas ou atingir um objetivo. Tenho todo o gosto em colocar a psicologia positiva ao seu dispor. Use-a!

EU NÃO SEI

As outras formas de “Eu não sei”, tendem para uma capacidade de não conseguirmos fazer alguma coisa. Apresento exemplos de variações:

  • Eu não sei como fazer…
  • Eu não vejo…
  • Eu não me lembro…
  • Eu não consigo…
  • Eu não sou capaz…
  • Eu não tenho capacidade para…

Mais uma vez, nós dizemos repetidamente este tipo de frases porque são fáceis. Lavamos daí as nossas mãos, e simplesmente declaramos não saber. Na grande maioria das vezes desistimos sem sequer tentar. Não iniciamos qualquer tipo de esforço, e rendemo-nos às frases que estamos habituados a que nos martelem a cabeça. Vamos assim fazendo crescer as ervas daninhas da preguiça, vamos permitindo que se instale a inépcia.

Considere o seguinte cenário:

Pessoa A: “Onde está o sal?”

Pessoa B: “Na prateleira da cozinha.”

Pessoa A: “Eu não o vejo.”

A pessoa B dirige-se onde está a pessoa A, coloca-se onde ela está, olha para o sitio para onde ela estava a olhar e tira o frasco do sal. Estava mesmo à frente dos olhos da pessoa A.

Você identifica-se com o cenário? A mim, já me aconteceram situações idênticas. A pessoa A não terá visto realmente o sal? Ou a pessoa A, acreditou que não via o sal? Certamente terá sido isso mesmo, acreditamos por vezes não ver as coisas, não conseguir fazer ou não sermos capazes, não que não tenhamos capacidade ou habilidade para tal, mas simplesmente porque não nos damos ao trabalho de nos colocarmos num estado de recursos. Não nos colocamos num estado de capacidade e acção face ao que pretendemos realizar. Não procuramos em nós uma forma de arranjar ou encontrar uma solução para o problema. Torna-se mais fácil dizer: não sei, não consigo, não sou capaz!

Relembra-se, que a nossa mente inconsciente assume o comando baseando-se nas nossas palavras? Quando dizemos a nós mesmos que não conseguimos ver algo, estamos a passar a mensagem em forma de comando (ordem) para a nossa mente inconsciente. Desta forma, acontece um comando de auto-sabotagem à tarefa que queríamos realizar, e os estímulos que nos chegam associados ao objetivo (agarrar o sal) deixam de ser processados. É quase anedótico, não é?

Como é que é possível não vermos algo que está mesmo na nossa frente? Agora você já sabe. Isto acontece, porque verbalizamos mensagens de incapacidade, que irão assumir o comando das nossas acções, sabotando tudo o que se opuser a essa ordem, (por exemplo, ver o sal). Conseguir ver o sal era contraditório à ordem da incapacidade construída pela pessoa A. Da mesma forma, quando dizemos “Eu não me lembro”, estamos a dizer à nossa mente inconsciente para não nos deixar saber a resposta, mesmo que a mente consciente se lembra. Então, como temos as memórias armazenadas no nosso inconsciente, temos deliberadamente que enviar a ordem de não trazer as memórias para a nossa consciência, para que aconteça o ato de não nos lembrarmos.

A saber: Este é o ato da auto-sabotagem, deliberadamente impedimo-nos de conseguirmos fazer algo, que na realidade temos capacidade para fazer.

Sugestões para a acção:

  • Praticar a reformulação de  frases não-favoráveis às formulações que sugerem possibilidades. Vejamos alguns exemplos:
  • Quando se ouvir a dizer, ” Eu não vejo sal nenhum na prateleira”, Reformule e pergunte a si mesmo, “Onde é que poderá estar o sal? Tenho de o encontrar.”
  • Quando tiver o impulso para dizer, “Não me lembro onde coloquei as chaves?”, reformule a pergunta para, ” Onde é que elas poderão estar? Qual foi a última coisa que me lembro antes de guardar as chaves?”
  • Ao invés de dizer, “Eu não sei como fazer…”, reformule para, “Eu ainda não aprendi como fazer isto, mas eu posso aprender. E depois serei capaz.”
  • Ao invés de dizer, “Eu não consigo abrir isto…, reformule para, “Se eu pudesse abrir isto, como é que faria? Vou continuar a tentar, eu consigo abrir isto.”
  • Pratique, repetindo frases alternativas, e use-as sempre que for apropriado. Torne as frases alternativas (mas muito mais capacitadoras e construtivas), num hábito.

EU NÃO CONSIGO

Esta é uma frase comum, e confesso que mexe muito comigo quando a ouço de forma deliberada, principalmente aos atletas que treino ou que aplico nos programas de preparação mental. É na verdade uma frase que retira capacidade e acima de tudo, retira-nos a possibilidade de nos focarmos nas acções que nos poderiam levar a conseguir fazer. Apresento algumas variações:

  • Eu não consigo encontrar…
  • Eu não consigo fazer…
  • Eu não consigo colocar isto a funcionar…
  • Eu não consigo lembrar-me…
  • Eu não tenho tempo…
  • Eu não consigo fazer isso hoje…

Quando dizemos que não conseguimos fazer algo, de forma deliberada, estamos simplesmente a declarar a impossibilidade como uma resposta definitiva. Estamos a dizer a nós mesmos que nunca seremos capazes de o fazer, porque não temos as capacidades necessárias. Existem na verdade situações incapacitantes que provam não sermos capazes ou termos capacidade para algo. Existe no entanto, uma diferença entre não ser fisicamente capaz para fazer algo, e mentalmente acreditar que não temos o que é necessário para conseguir. É exatamente este assunto que importa refletir, e o qual tenho vindo a realçar.

Dizendo simplesmente que não conseguimos fazer algo, estamos a sugerir que não temos a capacidade para aprender, que estamos a desistir, que estamos a abrir mão dos dons que temos. Tal como dizer coisas como, “Eu não consigo fazer isto” ou “Eu não encontro isso” ou ” Eu não consigo ter isso pronto”, estamos a negar a nós próprios a possibilidade de encontrar uma solução. Estamos a cegar a nossa própria vista! Estamos a secar a nossa fonte do saber!

Dizendo que não temos tempo, estamos a dar a impressão nós próprios que estamos muito ocupados, o que por vezes nos faz sentir importantes. Mas isto é uma ilusão. Sim, por vezes nós temos a nossa agenda muito preenchida, mas dizer que não temos tempo, normalmente quer dizer que nós não queremos fazer determinada coisa. Não ter tempo suficiente é na grande  maioria das vezes uma desculpa. Se for suficientemente importante para nós, acabamos sempre por arranjar tempo. É, ou não é? Eu acredito que sim! Além do mais, se contabilizarmos o tempo que gastamos a fazer coisas que por vezes não são prioritárias, certamente arranjaremos tempo para todas as outras em que dizemos que não temos tempo.

Tal como no treino esportivo, em que os grupos musculares mais fracos são aqueles em que temos de dedicar mais tempo, acredito que assim também deverá ser na nossa vida:

Citação: “Se eu não consigo, então devo.” – Desconhecido

Experimente, verá que o que você usou para considerar ser impossível torna-se subitamente e, provavelmente, muito acessível.

Sugestões para a acção:

  • Construa e implemente frases alternativas às frases populares de incapacidade. Apresento alguns exemplos:
  • Ao invés de dizer, “Eu não consigo encontrar isso”, diga, “Eu ainda não vi isso, mas continuarei a procurar”, ou “Onde é que isso poderia estar?”
  • Ao invés de dizer, ” Eu não consigo colocar isto a funcionar…”, considere dizer, ” Ainda não está a funcionar, mas continuarei a tentar até que fique” ou ” Ainda estou a trabalhar nisso. Se tiveres um tempo ajudas-me.”
  • Ao invés de dizer, “Eu não consigo fazer isso hoje porque…”, considere deixar-se de desculpas e dar uma resposta firme e honesta, respondendo, “Eu não vou conseguir agora, talvez numa próxima oportunidade, obrigado pelo seu convite. Isso significa muito para mim.”
  • Pare de dizer ao outros que eles não conseguem fazer as coisas. Alternativas para, “Você não consegue fazer isso” são, “Eu prefiro que você não faça isso” ou “Eu não recomendo que você faça isso porque…” ou ” Eu tentei da última vez e não funcionou para mim, talvez funcione consigo.”

EU TENHO DE…

Este tipo de afirmação sugere que não temos alternativa, e que não temos controlo nas nossas vidas. Apresento algumas variações:

  • Eu tenho mesmo de terminar isto
  • Eu tenho mesmo de ir a este evento
  • Eu tenho mesmo de ganhar isto

Na verdade nenhum de nós tem de fazer coisa nenhuma. Este é um conceito que importa pensar. Não vimos ao mundo com esta ou aquela obrigação. Não temos forçosamente de ter de fazer isto ou aquilo. O mundo não acaba se nós não fizermos determinada coisa (na quase totalidade dos casos). Nós sentimos que temos mesmo de fazer algo, por poucas coisas. Por exemplo:

  • Dá-lhe prazer/beneficio. Isto é, algo que você gosta de fazer.
  • Reduz-lhe ou retira-lhe dor. Perder o emprego ou amizade, ou uma desculpa para não fazer mais alguma coisa.

Semelhante ao dizer “Desculpe” ou “Sinto muito”, sugerindo que não temos alternativa para fazer algo, introduzimos em nós o sentimento de culpa. Por exemplo, se não quisermos ir a uma festa, mas sentirmos pressão para ir, e isso gerar um sentimento de culpa, esta culpa é desnecessária. Esta culpa é criada por nós, pela noção errada de que temos de fazer qualquer coisa. Ainda que em algumas situações de vida nós possamos não ter o controlo das coisas, porque não dependem de nós, na grande maioria das vezes isto não acontece. Podemos ter controlo sobre a nossa vida e especialmente dos nossos pensamentos, verbalizações e decisões, substituindo, “Eu tenho de” para, “Eu quero” ou “Eu faço isto porque trás-me muitos benefícios”.  Talvez você não queira ir à festa de aniversário do filho do seu amigo, mas você vai, porque irá contribuir para a felicidade do seu amigo nessa ocasião tão especial. A sua presença irá trazer-lhe benefícios, porque irá fazê-lo sentir-se bem por ter contribuído para a felicidade de um amigo.

Se decidir fazer algo que preferiria não estar fazendo, ao invés de tratá-la como uma tarefa “pesada”ou encarando-a com pensamentos desagradáveis, porque não mudar a sua perspetiva para que possa apreciá-la? Qual o benefício que vai trazer-nos o prolongamento de pensamentos infelizes, usando, “eu tenho de fazer…” como desculpa?

Sugestões para a acção:

  • Ao invés de dizer “Eu tenho de fazer isto”, diga, “eu quero fazer isto” ou “Eu estou fazendo isto porque ____ (escreva aquilo que o beneficia)
  • Se você não que fazer determinada coisa, ao invés de dar desculpas às pessoas, altere isso para, “Eu tinha todo o gosto, mas eu tenho de…”, Graciosamente diga, “Obrigado pelo convite, mas esta noite irei ficar a descansar em casa.” ou “Obrigado, mas já tenho planos para esta noite, talvez par a próxima vez.” (nota: tirar um tempo para você descansar, conta como um evento). Você não tem necessariamente de se comprometer, seja honesto e transmita a informação de forma sincera e de cabeça levantada.

PALAVRAS PARA REFLETIR

A linguagem que usamos é incrivelmente poderosa. Exerce um comando direto à nossa mente inconsciente. Quer estejamos cientes disso ou não, verbalizemos casualmente ou não, a nossa mente inconsciente está à escuta. A nossa mente inconsciente tira sempre notas mesmo quando não estamos a prestar atenção a determinas coisas. Neste artigo foquei-me especificamente na linguagem que utilizamos, mas deixe-me dizer-lhe que o mesmo princípio é aplicado a outros estímulos/impulsos sensoriais. Estímulos como exemplo, os filmes que visionamos, as roupas que vestimos, os pensamentos que repetidamente ecoamos na nossa mente, o tipo de livros e blogs que lemos. Todos alimentam a nossa mente inconsciente, mesmo que muito subtilmente, uns mais que outros, funcionem por vezes como emissores de ordens e consequentemente tratados como uma “voz” de comando.

A reter: Aquilo em que acredita não reflete simplesmente a sua realidade, cria a sua realidade.

A nossa mente inconsciente é uma ferramenta magnífica, aprender a tirar proveito das suas funções pode ajudar-nos a alcançar os nossos objetivos e viver a vida que desejamos. Por muito “oco” que isto lhe possa parecer, não deixa de ser verdade. Os exemplos que apresentei, certamente lhe serão familiares. Fico esperançado que o possam ter alertado e lhe possa dar a oportunidade para olhar de frente algumas verbalizações (não-favoráveis) que tenha no seu reportório e reformulá-las. Adapte os exemplos dê-lhes o seu próprio toque e, se  possível transmita-os a outras pessoas.

PARTICIPE NO DESAFIO!

Quais são as frases alternativas que você pode reformular ou sugerir em substituição de: eu não sei, desculpe, eu não posso? Quaisquer outros pensamentos que você deseja compartilhar connosco? Participe nos comentários!

Abraço, e Boas Festas.