O que são distorções cognitivas (distorção do pensamento) e porque nos atrapalham tanto? As distorções cognitivas são simplesmente maneiras que a nossa mente arranja, convencendo-nos de algo que não é realmente verdade. Estes pensamentos imprecisos são normalmente utilizados para reforçar o pensamento e/ou emoções negativas, dizendo-nos coisas (nosso diálogo interno) que parecem racionais e precisas, mas na verdade só servem para fazer-nos sentir mal acerca de nós mesmos.
Por exemplo, uma pessoa pode dizer a si mesmo: “Eu falho sempre que tento fazer algo novo, eu, por conseguinte, fracasso em tudo que tento”. Este é um exemplo do pensamento absolutista do tipo: ”preto ou branco”(ou polarizado). A pessoa só vê as coisas em termos absolutos. A pessoa acha que, se falhar numa determinada coisa, faz com que no futuro fracasse em todas as coisas. O que pode levar à construção da crença: “Devo ser um perdedor e um fracassado”, o que também seria um exemplo de generalização. A pessoa falha numa tarefa específica e generaliza para a sua própria identidade.
Explicação: Existe como que uma fusão entre o resultado de algo (fracasso/erro) e a própria identidade da pessoa. A pessoa personaliza a sua falha, passando a ver-se a si mesmo como um falhado. Isto é um exemplo de uma distorção de pensamento.
As distorções cognitivas são um dos problemas psicológicos que muitos psicólogos que usam a Terapia Cognitivo-Comportamental (incluindo eu próprio), tentam ajudar a mudar na psicoterapia. Ao aprender a identificar corretamente esse tipo de “pensamento desajustado ”, a pessoa pode agir de forma construtiva sobre o pensamento negativo e, refutá-lo. Ao refutar o pensamento negativo uma e outra vez, aos poucos este perderá a sua força e será automaticamente substituído por um pensamento mais racional e equilibrado.

DISTORÇÕES COGNITIVAS
Aaron Beck, foi o psicólogo que popularizou as distorções cognitivas. Passo a apresentá-las:
Filtragem. Focamo-nos nos detalhes negativos e aumentamo-los enquanto filtramos todos os aspectos positivos de uma situação. Por exemplo, uma pessoa pode escolher um detalhe único, desagradável, focando-se exclusivamente nele. sendo que a sua visão da realidade torna-se distorcida.
Pensamento polarizado. As coisas são “preto ou branco”. Temos que ser perfeitos ou seremos uns falhados, não há meio termo. Você coloca as pessoas ou situações em categorias (ou desta ou daquela), sem tons de cinza. Se o desempenho fica um pouco aquém do ideal, você vê-se como um fracassado total.
Generalização. Chegamos a uma conclusão geral baseada num único incidente ou elemento de prova. Se algo de ruim acontece uma vez, esperamos que aconteça mais vezes. Uma pessoa pode ver um único evento desagradável como um padrão de derrota sem fim.
Tirar conclusões precipitadas. Sem que as pessoas nos informem, nós julgamos saber o que elas estão sentindo e porque agem de determinada forma e quais as razões que suportam isso. Mais especificamente, somos capazes de determinar como as pessoas estão se sentindo em relação a nós. Por exemplo, uma pessoa pode antecipar que as coisas vão sair mal, convencendo-se de que a sua previsão já é um fato estabelecido.
Catastrofização. Esperamos que a catástrofe aconteça, independentemente da razão. Isto também é conhecido como “ampliação ou minimização.” Ouvimos falar de um problema e usamos a questão do tipo: “E se…” (ex.: “E se a tragédia acontecer?”E se isso acontece comigo? “). Por exemplo, uma pessoa pode exagerar a importância de eventos insignificantes (como o seu erro, ou o desempenho de alguém). Ou podem negligenciar/reduzir de forma inadequada a magnitude dos eventos significativos, até que pareçam muito pequenos (por exemplo, as qualidades desejadas de uma pessoa ou as imperfeições de alguém).
Personalização. Pensamos que tudo o que as pessoas fazem ou dizem está relacionado a nós. A pessoa usa demasiado a comparação com os outros, tentando determinar quem é mais inteligente, mais bonito, etc. Uma pessoa vê-se como a causa de alguns eventos externos indesejáveis dos quais não é responsável. Por exemplo, “Nós chegámos atrasados para o jantar o que fez com que o anfitrião coze-se demasiado a refeição. Se eu tivesse apressado o meu marido, tínhamos saído a tempo, e isto não teria acontecido”.
Falácias de controlo. Se nos sentimos controlados externamente, nós vemo-nos como uma vítima impotente do destino. Por exemplo, “eu não posso fazer nada se a qualidade do trabalho é pobre, meu chefe pediu que eu fizesse trabalho extraordinário.” A falácia do controle interno faz-nos assumir a responsabilidade do mal-estar ou da felicidade de todos ao nosso redor. Por exemplo, “Porque é que você não está feliz? É por causa de algo que eu fiz? “
Falácia da justiça. Nós sentimo-nos ressentidos porque achamos que sabemos o que é a justiça ou o que é justo, mas as outras pessoas normalmente não concordam connosco. Como nossos pais nos dizem: “A vida é sempre justo”, e as pessoas que passam a vida a aplicação de uma régua de medição contra a julgar cada situação a sua “justiça”, muitas vezes, se sente mal e negativo por causa disso.
Culpa. Por vezes atribuímos às outras pessoas a responsabilidade da nossa dor, ou então dirigimos a culpa dos problemas para nós mesmos. Por exemplo, dizemos coisas do tipo: “Pare de fazer-me sentir mal comigo mesmo!” Ninguém pode “fazer-nos” sentir de uma determinada forma. Isso é uma ilusão criada por nós mesmos, que funciona como proteção. Apenas nós mesmos temos controlo (ou não) sobre as nossas emoções e reações emocionais.
Os “deverias”. Muitos de nós temos uma lista de regras rígidas sobre os outros e acerca da forma como devemos comportar-nos. As pessoas que quebrarem essas regras fazem zangar-nos, e também sentimo-nos culpados quando nós violamos essas regras. Por vezes podemos acreditar que estamos tentando motivar-nos com os “deves” e “não deves”, como se tivéssemos de ser punidos antes de podermos fazer qualquer coisa. Por exemplo, “Eu realmente devia fazer atividade física. Eu não deveria ser tão preguiçoso.” Obrigações e deveres também podem ser considerados ofensivos. A consequência emocional é o sentimento de culpa. Quando um de nós dirigimos afirmações de dever em relação aos outros, muitas vezes sentem raiva, frustração e ressentimento, e o mesmo pode acontecer quando dirigimos esse tipo de afirmações a nós mesmos.
O raciocínio emocional. Acreditamos que aquilo que sentimos deve ser automaticamente verdade . Se nos sentirmos estúpidos e aborrecidos, então temos de ser estúpidos e enfadonhos. Você assume que as suas emoções não saudáveis refletem coisas que realmente são: “Eu sinto isto, por isso deve ser verdade.”
Falácia da mudança. Esperamos que as outras pessoas mudem para se adequarem a nós se fizermos pressão ou as convencermos o suficiente. Precisamos de mudar as pessoas, porque as nossas esperanças de felicidade parecem depender inteiramente delas.
Etiquetagem generalizada. Generalizamos uma ou duas qualidades num julgamento negativo global. Estas são formas extremas de generalizar, e também são referidos como “rotulagem”. Ao invés de descrever um erro no contexto de uma situação específica, uma pessoa irá anexar um rótulo prejudicial para si mesmo. Por exemplo, podemos dizer: “Eu sou um perdedor” numa situação em que falhei numa tarefa específica. Ou, quando o comportamento de outra pessoa não foi o mais correto, podemos anexar um rótulo desfavorável acerca dessa pessoa, como “Ele é um idiota.” A rotulagem envolve a descrição de um evento com uma linguagem que é muito colorido e emocionalmente carregada. Por exemplo, em vez de alguém dizer que deixa as crianças na creche todos os dias, uma pessoa gosta de rotular, diria que “ela abandona os seus filhos a estranhos.”
Estar sempre certo. Estamos constantemente a tentar provar que as nossas opiniões e ações são corretas. Estar errado é impensável e faremos o que for necessário para demonstrar que estamos certos. Por exemplo, “Eu não me importo o quão mal te sentes quando discutes comigo, eu vou ganhar este argumento não importando o quê, porque eu estou certo.” Estar certo (para a pessoa que usa esta distorção cognitiva), muitas vezes é mais importante que os sentimentos dos outros, mesmo com os seus ente queridos.

COMO MUDAR AS DISTORÇÕES COGNITIVAS?
As distorções cognitivas têm uma maneira muito subtil e própria de interferir com as nossas vidas. Esse tipo de pensamentos desadequados e maléficos podem ser mudados e grande parte eliminados, mas é preciso esforço e muita prática todos os dias.
Se você quer parar o com este tipo de pensamento irracional e disfuncional, apresento uma proposta com alguns exercícios que pode praticar:
Identificar as distorções cognitivas. Crie uma lista dos seus pensamentos incómodos e examine-os mais tarde à luz da lista de distorções cognitivas apresentadas anteriormente. Um exame das suas distorções cognitivas irá permitir-lhe ver as suas distorções mais utilizadas. Além disso, este processo vai permitir-lhe pensar sobre o seu problema ou situação de forma mais natural e realista.
Examinar as provas. Uma análise aprofundada de uma experiência que tenha vivido recentemente poderá permitir-lhe identificar a base dos seus pensamentos distorcidos. Se for muito auto-crítico, então, deverá identificar uma série de experiências e situações em que foi bem sucedido.
Método do duplo padrão. Uma alternativa à auto-verbalização (método utilizado para guiarmos o nosso pensamento), é falar para si mesmo, de forma compassiva e solidária tal como iria conversar com um amigo numa situação semelhante à que enfrenta.
Pensar em tons de cinza e/ou com cor. Deixe de pensar sobre o seu problema ou situação difícil de forma polarizada (preto ou branco) ou seja, deve avaliar as coisas numa escala de 0-100. Quando um plano ou uma meta não é plenamente alcançado, deve pensar e avaliar a experiência como um sucesso parcial. Deve tentar quantificar num valor (numa escala de 0-100). E não necessariamente certo/errado, ou Sucesso/insucesso, ou bem/mal.
Método de Pesquisa. Procure saber a opinião dos outros sobre se os seus pensamentos e atitudes são realistas. Se acredita que a sua ansiedade sobre um acontecimento é injustificada, verifique com alguns amigos ou familiares de confiança se esse sentimento é justificável e como eles lidariam com ele.
Definições. O que significa definir-se a si mesmo como “inferior”, “um perdedor”, “tolo” ou “anormal “. A análise mais cuidada destes e de outros rótulos globais provavelmente irá revelar que eles representam comportamentos específicos, ou um comportamento padrão identificável, ao invés de você mesmo na sua totalidade. Por outras palavras, esses rótulos têm certamente muito mais a ver com comportamentos e pensamentos inadequados que tem e que segue do que propriamente a ver consigo enquanto pessoa.
Re-atribuição. Muitas vezes, nós responsabilizamo-nos automaticamente pelos problemas e dificuldades que experimentamos. Você deve identificar os fatores externos e outros indivíduos que contribuíram para o problema. Independentemente do grau de responsabilidade que assumimos, a nossa energia é mais utilizada na busca de resoluções para os problemas ou na identificação maneiras de lidar com as situações difíceis.
Análise Custo-Benefício. É útil listar as vantagens e desvantagens dos sentimentos, pensamentos e comportamentos. Uma análise de custo-benefício ajudará a determinar o que você pode ganhar pelo facto de estar a sentir-se mal, com pensamentos distorcidos, e comportamentos não desejados ou inadequados.
Abraço








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Fico muito agradecido pelo apoio e suporte.
Abraço
É como enorme gosto que leio as suas palavras. É muito enriquecedor que colegas reconheçam o trabalho da Escola Psicologia.
Os comentário "tristes" não têm nacionalidade. Fico lisonjeado com todas as pessoas que visitam o Blog e sentem-se livres para comentar, independentemente da sua origem.
Grande abraço para todos aqueles que se expressam em português.
Abraço
Abraço!
Agradeço a sua preocupação com a credibilidade da Escola Psicologia. No entanto, o nosso principal objetivo é disponibilizar informação que possa ser útil, construtiva e de ajuda aos leitores. Os preciosismos podem ser melhorados não sendo a principal razão deste blog.
Informo-lhe que "concordancia" em Português escreve-se: concordância.
Abraço
Desta vez, diferentemente das opiniões sobre depressão, para elogiar o teu texto. Muito bom mesmo.
Me identifiquei em alguns tópicos. As sugestões para superação são ótimas. Talvez dificeis e tarde demais para mim, devido o estado em que me encontro, mas muito convincentes mesmo. Começo a avaliar e ver com bons olhos este tipo de terapia (cognitiva) Pena que não percebi nem tomei conhecimento disto antes.
Parabéns.
Abraço
Fico contente que tenha conseguido ver uma mais-valia na terapia cognitivo-comportamental. Existe sempre esperança quando existem abordagens que se têm comprovado eficazes. É sempre de tentar :)
Força
Abraço
Fico contente pela utilidade dos nossos artigos.
Sinta-se à vontade para me contactar.
Abraço
Erros de digitação e troca de letra...comum...a concordância está de acordo...nada a reclamar a não ser pela excelente qualidade do blog e dos posts.
Agradeço a sua força e avaliação.
Por vezes no furor da escrita e do tempo limitado, acredito que o Português podesse ser mais cuidado. No entanto, em primeiro lugar está a atenção com a a transmissão da informação de forma estruturada e perceptível. Assim continuarei a fazer.
Abraço
Como sou leigo, fiquei com algumas dúvidas:
Você apresentou esses distúrbios de uma forma generalizada? Um portador de TOC, por exemplo, pode apresentar alguns desses sintomas de forma específica? A maioria das "doenças" da mente estaria relacionada com essas distorções?
Sim apresentei as distorções do pensamento de forma generalizada, sendo que algumas delas expressam-se em alguns transtornos psicológicos.
Sim pode apresentar algumas destas distorções de forma específicas e outras.
Os transtornos psicológicos não têm necessariamente ter a sua causa nas distorções do pensamento. Na grande maioria elas são uma consequência desses mesmos transtornos, sendo que numa fase subsequente, enraizam-se e exacerbam o próprio problema psicológico ou transtorno.
Fique atento, em breve publicarei um artigo sobre TOC
Abraço
Margareth, o comentário da Fida realmente foi distoante com este trabalho, porém a sua frase: "so poderia ser um brasileiro" também distoa do que o Miguel se propoe a passar para nos seres humanos.
Drº Miguel: Admiro muito aos que possuem conhecimentos sobre a mente. O pensamento é realmente algo fantástico. E a consciencia desse processo (a autoconsciencia) é algo que a semântica não consegue expor, não há palavras para descreve-la, conforme cita o Drº Augusto José Cury (inteligencia Multifocal)e outros (o Srº mesmo inclusive). Seu site é muito sério. Já tem minha credibilidade.
Em tempo: não reparem os meus erros de porgutuês , os de diggitaaç~ao, ou alguma impertinência de minha parte (risos). Acontece. (risos), aliás é (?!) "coisa de brasileiro", e cá entre nós, eu sou.
Hasta.
Obrigado.
Como é óbvio ser Brasileiro, não é pejorativo, como não ser-se de outro pais qualquer. Pelo menos neste blog todos são bem vindos e recebidos da mesma forma.
Tudo de bom e volte sempre.
Abraço
Tenho de dizer que captou na integra o conceito e espírito da Escola Psicologia. Escrevemos para pessoas. E isso para nós é o mais importante. Fazer chegar conhecimento, para que possa ser útil e utilizado por aqueles que precisam.
Abraço
Obrigada ! e, seus textos são ótimos me abriu muito a cabeça para entender mais.
desde já agradeço a vocês do fundo do coração .
Obrigado
Mas quando estava lendo esse maravilhoso blog, não consigo expressar o tamanho alívio em encontrar definições tão exatas ao que penso.
Antes de mais nada, muito obrigada!
ferem ver os erros dos outros ao invés dos acertos e, quase sempre tais comentários partem de pessoas
que não conseguem fazer nada de útil para seus semelhantes. Que bom você saber lidar com a crítica
e o elogio sem perder o prumo. Abraços fraternos.
Obrigado ao Dr Miguel Lucas. Seu trabalho é fantástico.
Obrigado
Eu tenho uma problema serio e que graças à Deus estou enxergando.
Além desses fatores que estão sendo atribuídos no seu artigo eu tenho outro fator prejudicial.
Eu já observei isso em mim e nas pessoas que moram comigo tipo minha mãe, meu padastro (tem atestado de esquizofrênico), sempre falamos algo que não condiz com o contexto e acabamos brigando.Eu quando posto algo no face ou digo coisas para pessoas eu não reformulo bem o que digo ou eu falo realmente coisas que não foi o que eles pretendiam dizer e acaba saindo mau (ás vezes até como louca). Estou sofrendo muito com isso. O que devo fazer?Me ajuda, por favor.
Desde já muito grata.
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