Por vezes quando o infortúnio, dificuldade e problemas nos assombram a vida, os motivos são mais que suficientes para arranjarmos desculpas acerca da ausência de motivação para levarmos  a vida para a frente. Acredito profundamente que tenhamos que passar por um período de desânimo, ou mesmo de sentimento de injustiça. O impacto de alguns acontecimentos pode ser tão devastador que vislumbrar um enquadramento para o sucedido é uma miragem. Mas, acredito igualmente que ficarmos presos a esses acontecimentos e usá-los como “desculpas”, provavelmente nenhum valor acrescentado trás para  a resolução do problema ou minimização da dor emocional.

CUIDADO COM O VÍCIO NA MOTIVAÇÃO

Seja porque não conseguiu a promoção desejada, não foi correspondido no seu amor, ou a sua vida foi interpelada por algum problema físico ou emocional, o mais certo é que a sua motivação tenha sido afetada para encarar a vida com otimismo e esperança. Todos nós precisamos de motivação para derrubar ou ultrapassar os problemas da vida. Mas às vezes ficamos viciados e demasiado dependentes da nossa motivação, correndo o risco de nos tornarmos incapazes de fazer seja o que for sem estarmos motivados. Claro que é bom estarmos motivados face a algo. No entanto, a nossa motivação não é constante e permanente, ela sofre abalos, investidas e contratempos. Perante tal cenário, se apenas fizermos coisas quando estamos motivados, ficamos à sua mercê, e inevitavelmente paralisamos a nossa vida.

Às vezes, fazemos autosabotagem a nós mesmos, e um grande contributo para isso é a ausência de motivação. Deliberadamente justificamos a nossa falta de motivação com as desculpas insalubres dos acontecimento negativos que vivemos ou das coisas que necessitam de um esforço extra para serem realizadas.  Quando você tem que acordar cedo pela manhã para alguma reunião importante no escritório ou quando você tem que estudar muito para os exames, mas não tem vontade para fazê-lo, é basicamente a falta de motivação que faz emergir o sentimento de dificuldade e paralisia da vontade. As pessoas dão várias desculpas para esse tipo de comportamento, mas na verdade a proteção do seu ego impede-as de aceitar que tornaram-se dependentes (viciadas) nos fatores motivacionais para a realização do que desejam ou que querem realizar.

ser motivado

No artigo, autoregulação: para sentir-se melhor foque-se no mais importantes, abordei a questão de quando percebemos que alguns dos nossos sentimentos negativos atrapalham o nosso bem-estar, devemos orientar os nossos objetivos, realizações e desejos pelos valores, por aquilo a que damos significado na vida, ou no presente momento. No que diz respeito à ausência de motivação para fazermos coisas, suportado por desculpas infundadas, o princípio é o mesmo, devemos focar-nos naquilo que queremos e nos serve, não ficando à mercê de termos ou não motivação para fazermos o que tem de ser feito.

Atenção: Apesar de eu estar a apresentar a ideia de que não devemos “viciar-nos” na motivação, no sentido de dependermos única e exclusivamente dela para irmos ao encontro dos nossos objetivos, isso não é sinónimo de não necessitarmos de motivar-nos ou trabalhar e potenciar a motivação. Pelo contrário, eu sou apologista e defendo que devemos promover a nossa motivação face aos nossos objetivos ou atitude perante a vida. Mas, o que pretendo transmitir neste artigo é que quando você se sentir desmotivado, com falta de energia e impeto para realizar algo que necessita, julga importante ou é fundamental para o bom desenvolvimento da sua vida, deve desapegar-se da ideia de que só com motivação é possível fazer as coisas. Puro engano, você pode fazer aquilo que pretende, simplesmente porque quer, mesmo que lhe seja difícil. Ou então optar por promover a sua motivação, tal como explico no artigo: Dicas e estratégias para potenciar a sua motivação em qualquer circunstância.

COMO NÃO DEPENDER DE FORMA TÓXICA DA MOTIVAÇÃO?

Para uma resposta esclarecedora, temos primeiro que perceber como se implementa a desmotivação (ausência de motivação). A desmotivação para a execução ou desempenho de algo começa com lapsos simples na realização de tarefas diárias e passa a afetar todos os outros aspetos da vida. Ou, de forma mais drástica (morte de um ente querido, catástrofe, doença, acidente) quando subitamente a vida nos inflige uma perda ou dor inestimável. Um acumular de simples falhas para concluir algumas tarefas vai cortando a motivação para fazê-lo na próxima vez. Ou no caso drástico, instala-se uma perda de sentido para realizar outras coisas que temporariamente são percebidas como insignificantes perante a tremenda perda sucedida.  Aos poucos, a sua paralisia da vontade sentida como desmotivação começa a diminuir a sua autoestima, retira-lhe foco e capacidade, conduzindo-o à falha e ao erro em cada tentativa de realização da tarefa, devido à falta de confiança instalada. Ou no caso drástico, por sentir que provavelmente não conseguirá voltar a ter alegria e propósito na sua vida.

O que você pode fazer é identificar as coisas que estão constantemente a desencorajá-lo. Uma falha para completar uma tarefa pode ser resultado de um planejamento inadequado, recursos insuficientes ou necessidade de melhorar uma competência ou habilidade. Comece a olhar para as coisas de uma perspectiva diferente. Nem todas as coisas ruins que lhe  acontecem são necessariamente culpa sua, ou de terceiros ou até mesmo de um mundo que possa interpretar como injusto. Tente identificar as tarefas que você normalmente não conseguiu realizar durante os últimos dias e descubra a razão, apesar da sua incapacidade. Você pode descobrir o problema real analisando a dificuldade da tarefa.

Na situação drástica (morte de um ente querido, catástrofe, doença, acidente), tente identificar a razão pela qual não vê sentido em voltar a reerguer-se, ou a perspetivar novos planos.  Avalie o impacto do sentimento de perda que está paralisando a sua vontade. Usualmente existe uma proporção inversa no  grau de motivação em relação ao problema sentido. Ou seja, quando mais sentimos algo como muito significativo e bom, maior é o sentimento de perda e dor emocional. Quer dizer que o nosso sentimento de perda está associado a uma coisa ou a alguém que nos era muito querido. É como se de uma forma cortante a tristeza estivesse ligada à enorme felicidade que retirávamos da situação ou do que vivíamos com essa pessoa. Num estado de abatimento é normal que não sinta força de vontade para encarar a vida. Pode instalar-se a tristeza profunda e sentir-se deprimido. Perante este cenário o que pode ser feito?

MOVIMENTE-SE POR AQUILO QUE QUER

Quando você descobrir que a sua desmotivação não tem a ver com um traço da sua personalidade ou porque não tem vontade para fazer algo, mas porque provavelmente aprendeu a protejer-se para não sentir o peso da falha ou da sua dor emocional, fica no caminho de ter de volta a capacidade de fazer as coisas que abandonou.

Há vantagens e desvantagens de sentir-se desmotivado na vida. Você pode não acreditar, mas existem algumas vantagens de sentir-se sem motivação para a ação. Às vezes a vida ou as ações imaginadas não oferecem benefícios suficientes para impeli-lo a lutar e avançar com a sua vida. Mas se você parar de viver o dia-a-dia e deixar a miséria tomar conta de você, certamente irá contribuir ainda mais para piorar o estado em que se encontra. É isso que você quer? Esta é uma pergunta que pode ser ingrata responder. Mas arrisco a dizer que aquilo que quer é voltar a sentir-se bem e capaz de começar a fazer coisas das quais retire alguma forma de prazer e satisfação.

Então como posso fazer algo sem motivação para isso?

Pode fazer esse “algo”, sem a motivação para isso. Pode fazer esse algo apenas suportado pela ideia que quer recuperar a sua vida e sentir-se novamente bem pouco pouco. Deve propor-se a fazer coisas pela consciência que tem de ultrapassar o momento menos bom que está a atravessar. E que não pode esperar que a vontade lhe bata à porta, dado que os seus sentimentos de incapacidade de momento inibem qualquer vontade de fazer o quer que seja.

Dica: Apenas a ideia de que quer melhorar e ultrapassar o que está a enfrentar, pode orientá-lo e lhe serve. Tudo o resto funcionará como desculpas paralisantes e insalubres, ainda que com toda a legitimidade.

A motivação ou ausência de motivação faz-se sentir na forma de um sentimento de capacidade ou incapacidade. Sentirmos força de vontade para fazer algo, ou ao invés, sentirmos preguiça, inação, falta de energia, abatimento, condiciona-nos os cursos de ação e os objetivos de vida. Na posse de sentimentos incapacitantes, corremos o risco de cair num ciclo de negatividade e começamos pouco a pouco a deixar de sentir significado em grande parte das coisas que nos davam alegria, satisfação, prazer e bem-estar. Se repetidamente, dia após dia nos sentirmos deprimidos e desmotivados, certamente acabaremos por ser afetados pela depressão. A depressão alimenta-se da paralisia da vontade e da consequente desmotivação, reforçando o ciclo de negatividade em que a pessoa se possa encontrar.

motivação

O processo passo a passo na prática:

Passo 1: Inevitavelmente os nossos sentimentos, influenciam o diálogo interno. Se está desmotivado, coloque os sentimentos  negativos que tem à prova, contestando-os.  Confronte esses sentimentos negativos, comparativamente aquilo que quer sentir ou alcançar.

Passo 2: Questione-se. Nesse estado de abatimento tem força de vontade para fazer aquilo que precisa de ser feito? Arrisco a dizer que não tem! Mas se não tem, quer continuar a não ter? Respondo por si, claro que não.

Passo 3: Num cenário de abatimento o que pode ser feito? Você deve propor-se a fazer coisas, em que o resultado das mesmas façam-no sentir-se bem. Por exemplo, se está deprimido, faça coisas que ainda se lembra que gosta. Se tem dificuldade em levantar-se para ir trabalhar, e quer ir trabalhar, perceba o que pode fazer ou imaginar que valoriza. Se está ansioso, e isso dificulta propor-se a fazer algo, arranje forma de aliviar a ansiedade e perceba como pode enfrentar a tarefa ou situação.

Este é o processo: Não deve estar á espera de sentir-se bem para iniciar algo que quer fazer ou deseja fazer. Mas sim o inverso, fazer aquilo que tem de ser feito, para posteriormente sentir-se bem. Por outras palavras: Deve movimentar-se por aquilo que quer, e desapegar-se das desculpas paralisantes que o impedem de fazer aquilo que tem de ser feito para voltar a sentir-se bem e perspetivar significado na sua vida.

Para aprofundar o assunto, leia:

Em alguns artigos já publicados na Escola Psicologia, fui expressando a ideia de que o nosso bem-estar, felicidade, equilíbrio emocional, objetivos, alegria, estabelecem uma forte relação com o lado oposto destes estados, como por exemplo, tristeza, ansiedade, depressão, sentimentos negativos. Alguns investigadores apelidam o processo de desenvolvimento pessoal perante a dificuldade, catástrofe, trauma e adversidade de: Crescimento Pós-Traumático.

O Crescimento Pós-Traumático só é possível quando a pessoa consegue perspetivar um conjunto de ações, decisões e possibilidades de caminhar em frente na sua vida baseado naquilo que quer atingir, ou pretende para si mesmo. Expliquei de forma mais aprofundada este assunto, nos artigos: O lado oculto da felicidade e Transforme a crise numa oportunidade para a sua vida.

Cuidado com seus pensamentos, pois eles tornam-se em palavras.
Cuidado com as suas palavras, pois elas tornam-se em ações.
Preste atenção às suas ações, para que se tornem em hábitos.
Preste atenção aos seus hábitos, pois eles tornam-se no seu caráter.
Preste atenção ao seu caráter, já que se torna no seu destino

TALVEZ A CULPA SEJA MINHA

“Talvez a culpa seja minha.

Talvez eu tenha-te levado a acreditar que era fácil, quando não era.

Talvez eu te tenha feito pensar que o meu destaque começou no lançamento livre, e não no ginásio.

Talvez eu te tenha feito pensar que cada cesto que fiz, fez vencer o jogo.

Que o meu jogo foi baseado em músculo, e não no ímpeto.

Talvez a culpa seja minha, e você não reparou que a falha deu-me força, e que a minha dor era a minha motivação.

Talvez eu te tenha levado a acreditar que o basquetebol era um dom dado por Deus, e não algo que eu trabalhava para … todos os dias da minha vida.

Talvez eu tenha destruído o jogo … ou talvez, você esteja a inventar desculpas. ” – Michael Jordan


http://www.youtube.com/watch?v=woOu_4l3lio

Abraço