Ao longo da vida vamos recebendo muita informação, principalmente na escola, onde temos de prestar provas do nosso conhecimento adquirido. Este conhecimento é considerado de extrema importância para sermos bem sucedidos na vida. O que dizer relativamente à necessidade de entendermos as nossas emoções, saber lidar com elas e regulá-las de forma assertiva? Que tipo de aprendizagem organizada e sistematizada nos é oferecida quando frequentamos a escola? Zero, nada. Não é dado qualquer tipo de importância a esta área do conhecimento. Por sinal, a área que mais influência tem nos nossos raciocínios, escolhas e respostas. Na verdade a grande maioria de nós nunca aprendeu a sentir, a saber como agir na presença de emoções incómodas. Muitas pessoas durante a sua infância sofreram de repressão acerca da manifestação de algumas das suas emoções, por incompreensão e incómodo por parte dos pais ou educadores, os quais realmente não sabiam como comportar-se de forma adequada. Fazendo com que essas crianças se desligassem do seu próprio mundo interior, ou pior, olhar para o que sentiam como algo sinistro, vergonhoso ou impróprio, que deveria ser ignorado a qualquer custo.

Não reprima as suas emoções, regule-as

Alguns de nós chegámos aos dias de hoje sem olharmos de frente algumas das nossas emoções, ou até mesmo alguns dos nossos impulsos, que consideramos impróprios ou moralmente condenáveis, podendo fazer-nos sentir como pessoas “com defeitos” ou “com segredos sombrios”, prejudicando a nossa própria imagem ou autoestima. Tendencialmente podemos esforçar-nos para esconder alguns desses impulso, ou por remetê-los para o subconsciente, os quais, pouco a pouco vão adquirindo poder sobre nós. Isto porque julgamos não ter como nos livrarmos daquilo que não aceitamos ou não queremos sentir. Como se tivéssemos que carregar essa cruz por toda uma vida em silêncio. E, tudo isso porque não entendemos ou repudiámos algumas dessas emoções quando éramos crianças ou adolescentes. Não aceitámos os nossos impulsos por uma interpretação desajustada que nos fez pensar que poderíamos ser “maléficos” ou “monstruosos” por estarmos a sentir-nos de determinada forma, ou por estamos a pensar coisas que supostamente não deveríamos. Não há nada que nós seres humanos não possamos pensar, isto porque temos a capacidade para pensar. Não há nada que não possamos sentir, isto porque temos a capacidade para sentir.

emoções

O que podemos é aprender a avaliar adequadamente o que sentimos, e para isso temos necessariamente de aceitar o que sentimos. Não temos de gostar, não temos de concordar, não temos de julgar que somos o que sentimos, podemos apenas perceber que temos um corpo onde se manifestam determinadas emoções. A próxima vez que sinta uma emoção incómoda (não necessariamente má ou negativa) sinta-a em toda a sua dimensão, como um alerta que é, como uma mensagem que o próprio corpo está enviando, e não como algo que se identifique como “monstruoso” ou “impróprio de sentir”. Tente perceber se o que está sentido pode estar ligado a algo que gostaria de obter, ou algo que perdeu, ou porque se sente injustiçado, ou porque se sente diminuído, ou porque gostaria de ser reconhecido e isso não tem vindo a acontecer. Seja o que for, as emoções disparadas em reação a alguma interpretação que faz, podem conduzi-lo a caminhos pouco satisfatórios.

Entenda algumas das suas emoções como se fosse o choro de uma criança pedindo atenção (a sua própria criança interior, temerosa e desorientada) e que você deve ouvir, deve deixar que se expresse. Se você ignora as suas emoções, ou não lhes dá atenção, ou não tenta perceber a razão da sua manifestação, é como se não desse atenção à criança que chora, como se não quisesse perceber porque chora, e do que precisa para voltar a acalmar-se. Não é possível aclarar a água turva se não a deixarmos repousar. Por momentos seja um observador das suas próprias emoções. Não reaja, não esconda, não oprima, nem se envergonhe das suas emoções. Tê-las é uma condição humana.

Tenha também consciência que algumas dessas emoções incómodas estão transmitindo informação acerca de você mesmo. É uma ótima oportunidade de conhecer-se melhor, de saber as suas necessidades e desejos, de ter contato com os seus medos, e clarificar-se no sentido de poder solucionar as suas preocupações e problemas de forma assertiva. Utilize alguns dos exercícios que apresento no artigo: 5 Exercícios para recuperar a sua paz de espírito para aprender a promover um estado de ser que seja favorável à auto-observação. Sinta-se mais enriquecido por saber que pode aproveitar esses momentos de expressão das suas emoções para melhorar a sua autoconsciência, para aprender de forma eficaz a estar com elas, e permitir-se a criar um espaço de não reação dentro de si mesmo. Expliquei este assunto no artigo: Deixe de reagir, escolha a sua resposta em consciência afirmando quem você quer ser.

Observe as suas emoções ou pensamentos associados como se fossem nuvens a passar no céu, dando a si mesmo a oportunidade de aceder à sua consciência. Depois tente perceber os gatilhos da vida que podem estar a fazer disparar os sentimentos incómodos, e a que crenças, formas de olhar a vida, necessidades, desejos e fraquezas, esse disparo emocional está associado? Ao realizar este exercício, consegue criar um espaço para a autobservação, permitindo a si mesmo perceber o processo de desencadeamento da sua resposta emocional. Ficando ciente desse processo, coloca-se numa posição de controle. Fica mais capacitado para poder intercetar o impulso automático que usualmente acontece, e decidir se é indicado ou não para a circunstância que está a viver. O processo anteriormente descrito é uma maneira eficaz de regular as suas emoções negativas, tendo na base o filtro da consciência e do autoconhecimento.

Para aprofundar o assunto, leia: Consciência emocional, validar emoções e pensamento para seu benefício

Se tem filhos, por vezes, revele as suas emoções incómodas

Muitos de nós temos tendência para educarmos da mesma forma que fomos educados, o que pode conduzir-nos a pensarmos que é benéfico para os nossos filhos não mostrar as emoções e os sentimentos desconfortáveis. ​Pessoalmente, sou da opinião que seria de grande ajuda as crianças poderem ver que os pais ou educadores conseguem lidar com esses momentos emocionalmente desconfortáveis de forma natural. Se os pais ou educadores adotarem esta atitude de serem emocionalmente honestos com as crianças, proporcionam-lhes um bom exemplo, mostrando-lhes que não devem reprimir o que sentem, mas sim aprender a lidar com o que sente. Obviamente, eu não estou dizendo que você deve envolver as crianças com as suas situações emocionais de elevado impacto, ou pressioná-las, ou stressá-las propositadamente (que seria contraproducente submetê-las a tal pressão). No entanto, será útil que as crianças possam observar que os mais velhos, por vezes, também têm determinados sentimentos incómodos e que não os reprimem nem os entendem como uma fraqueza. Assim, as crianças percebem que ter emoções e sentimentos incómodos ou negativos não é necessariamente um problema, ou que não é vergonhoso, ou que não é sinónimo de ser-se fraco. Aprendem ainda que mesmo estando a sentir esse tipo de emoções é possível gerenciá-las com habilidade e de forma funcional.  

Abraço,

Miguel Lucas