Todos queremos ser felizes. Certamente, todos nós perspetivamos sermos felizes e manter a felicidade. Fazemos tudo o que é suposto fazer para nos certificarmos que estamos no caminho certo. Diligentemente seguimos algumas instruções que nos parecem viáveis, praticamos técnicas, ouvimos os mais experientes,  mas, com mais frequência do que deveria ser (dada a quantidade de esforço que fazemos) para a maioria de nós, não somos consistentemente felizes. Provavelmente está familiarizado com o termo: procura da felicidade. Como psicólogo e igualmente como pessoa comum, tenho passado a última década a verificar que muitas pessoas alimentam o seu vício de felicidade. Nessa busca incessante de felicidade, procuram a solução a curto prazo, aqui e ali, mas acabam de volta à procura da felicidade, mais uma vez, ainda mais desesperados. Entram num ciclo crescente composto por uma roda de: felicidade encontrada – felicidade perdida. Para muitos de nós, aquilo que mais queremos e passamos a maior parte do nosso tempo tentando realizar, escapa-nos.

A VOLATILIDADE DA FELICIDADE

Nós, seres humanos, somos criaturas notáveis. Nós podemos propor-nos a fazer o que queremos fazer. Então, porque razão a felicidade não é duradoura? Porque é que existe tal divisão entre o nosso desejo de felicidade e a nossa capacidade de encontrá-la ou mantê-la? Depois de muitos anos a ouvir as pessoas falar sobre as suas tentativas fracassadas para se manterem num estado de felicidade, eu comecei a equacionar as seguintes questões:

  • O que é essa coisa que chamamos de felicidade?
  • É alcançável?
  • É confiável?
  • É sustentável?

Ao estudar o estado de felicidade, fiquei intensamente consciente da sua fragilidade. Quando as circunstâncias da nossa vida mudam e nós perdemos o “objeto” que contribuía para nos fazer felizes, puf, a nossa felicidade desaparece. Quando os sentimentos negativos e desconfortáveis aparecem dentro do nosso estado de felicidade ou o “objeto” que era o promotor de felicidade não funciona mais, a felicidade desaparece novamente. Estamos constantemente a adquirir e a perder a felicidade. Então a felicidade parece não ser mais que um mero estado, como a alegria, contentamento ou a excitação? Respondo afirmativamente, desde que a consideremos um estado, e não um objetivo de vida. Exemplo disso, é aquilo que todos, e eu incluído, corriqueiramente dizemos:

“Eu quero é ser feliz.”

E é legítimo querermos isso, tal como é querermos estar contentes, bem-dispostos, realizados, em paz de espírito, entre outros sentimentos. É claro que estou a entrar num assunto que pode tornar-se polémico, numa altura em que a felicidade se tornou o “objeto” de estudo mais desejado. Por esse motivo, ou seja, de existir alguma controvérsia no termo felicidade, começa-se a usar o termo: bem-estar.

Desenvolvi a ideia de que não são os nossos esforços para criar felicidade que estão falhando, mas sim, a nossa escolha de felicidade como um objetivo último. A felicidade é o objetivo errado (disfuncional) para a nossa vida. A felicidade (tal como usualmente é abordada) depende da nossa capacidade de controlar as circunstâncias que, não importa o quanto tentemos, não podemos controlar na grande maioria das vezes. A felicidade depende das circunstâncias manterem-se iguais ou praticamente inalteráveis. A vida sempre muda, sentimentos desconfortáveis sempre surgem, e o que nós temos de mais certo é o fluxo da vida. Esta é a natureza da vida. A vida flui, a vida muda a cada instante.

Dica: A escolha de felicidade contínua como uma busca e propósito de vida é irremediavelmente um falhanço.

O SUPORTE DA FELICIDADE

Provavelmente, e caso o leitor tenha lido alguns dos meus anteriores artigos em que abordei a felicidade, nos quais a “usei” com um sentimento apetecível e que pode ser promovido, poderá colocar em questão o que estou a transmitir neste artigo. No entanto se observar mais atenciosamente, os artigos têm um elo de ligação que é a construção de uma estrutura mental positiva que permita suportar ações que tenham um retorno satisfatório e consequentemente a criação do sentimento de felicidade. Que é muito diferente de ser algo que tenhamos de procurar como se fosse um objeto a adquirir e assim ficasse imutável até ao fim da nossa vida. Nada disso.

Deixo-lhe alguns artigos caso tenha curiosidade em ler:

Para muitos de nós a vida não é fácil. Porque razão, criamos então a noção que deveremos ser felizes o tempo todo? Provavelmente irá responder: “mas claro que eu sei que isso não acontece.” Sendo assim, porque é que a maioria de nós, quando sentimos que estamos a passar por dificuldades, nos sentimos infelizes? Provavelmente, porque ilusoriamente criámos a noção emocional de que deveríamos ser felizes o tempo todo. Esta expetativa tola cria um sofrimento tremendo.

Ao invés de tentar manter algo de natureza transitória, podemos promover um estado de bem-estar e de ótimo funcionamento do ser humano que seja capaz de dar suporte e florescer dentro da volatilidade inerente à vida humana.

A reter: Nós devemos ser gratos pelo estado de felicidade quando este se faz sentir, mas querê-lo como um objetivo último para a vida, não é sábio.

Importa por isso levantar algumas questões esclarecedoras:

  • Existe algo maior, mais profunda, mais duradouro do que a felicidade?
  • Existe um estado de bem-estar que pode sustentar as novas circunstâncias e as mudanças emocionais que a vida inclui?
  • Existe uma maneira fundamentada de regular os estados emocionais, mesmo quando o conteúdo da nossa vida é instável?
  • Se assim for, que mudança devemos fazer para descobrir este estado que é mais profundo e mais elevado do que a felicidade?

felicidade

ACIMA DA FELICIDADE

É usual quando enfrentamos provações na vida, quando perdemos algo muito significativo ou tardamos em alcançar algo que desejamos muito, que um sentimento de infelicidade se instale. Diferentes pessoas, adotam diferentes estratégias, técnicas ou abordagens para recuperarem o sentimento de felicidade que foi perdido. Retiros espirituais, meditação, grupos de apoio, terapia, medicamentos. Há ainda quem fique mais confuso e procure alguns escapes menos recomendados, acabando por perder o pouco que ainda restava. Evidentemente que algumas das coisas que referi anteriormente podem ajudar a pessoa a recuperar o seu estado incapacitante. No entanto algo mais é possível de desenvolver ou ficar consciente, que se torne útil ao longo de uma vida.

Aquilo que tanto procuramos fora de nós, se olharmos mais de perto, se olharmos para dentro de nós, sempre nos acompanhou. Na verdade, aquilo que pode comprovar-se como mais elevado e como mais permanente, e que pode permitir restabelecermos o equilíbrio emocional e resgatar a felicidade, é muito mais um construto do que um sentimento. É uma noção construída de que nós temos a capacidade de não estarmos satisfeitos com algo, com alguém ou com a nossa vida e ainda assim estarmos conscientes que nós não somos o nosso sentimento de infelicidade, mas somos sim, aquele que tem o poder de voltar a resgatar o sentimento de felicidade, sempre que isso se justifique.

Explicando na prática, este é o processo simplificado:

  • O primeiro passo a ser dado é parar de procurar, é parar de julgar que a felicidade está nas coisas ou nos outros. Nada disso. Claro que muitas coisas que obtemos, assim como as pessoas que nos são queridas podem propiciar-nos belíssimos momentos, mas isso não é a base de algo sustentável.
  • Depois, é focar a sua atenção naquilo que sente quando a felicidade o abandonou.
  • O passo seguinte é não querer não sentir os sentimentos e/ou sensações desagradáveis.
  • Segue-se então o ato de vivenciar a experiência. Você toma assim contato com o que está acontecendo consigo e dentro de si, o que sente no seu corpo e aquilo que se passa na sua mente.
  • Você não é aquilo que sente, você é aquele que sente e tem a noção que necessita fazer algo para voltar a restabelecer o equilíbrio emocional.
  • Consciencialize-se da noção de desapego, vivenciando a realidade, interna e externa, mas ao mesmo tempo percebendo que não é uma coisa nem outra.
  • Você não é a sua felicidade, como tal, quando esse sentimento fica distante, você não tem necessariamente de considerar-se infeliz. Você está passando por algo, e experienciado sentimentos, sensações e momentos desagradáveis, mas tem em si próprio a possibilidade de perspetivar ações que o encaminhem para o sentimento de bem-estar.
  • A sua capacidade de resgatar a felicidade ou o bem-estar é o construto que está acima do sentimento de felicidade.
  • Você é mais que os seus sentimentos, positivos ou negativos, felicidade ou infelicidade, você é o agente de ações que permitem alcançar um equilíbrio emocional e criar um mecanismo de sustentabilidade da sua força de vida.
  • Você é essa força.
  • Essa força está dependente da noção que você tem, ou não tem, de que a sua força depende da sua vontade para usar essa mesma força.
  • Você e a sua força são um só. Quando você está mal, deve acionar essa força, quando a força está em baixo, você deve fazer coisas para recuperar a força.

Seguindo a linha de raciocínio do meu artigo: Superar o passado, torne-se mais do que aquilo que você era, que resumidamente descreve a ideia que você é o seu futuro, transmite-nos a noção de que existe algo muito mais elevado do que os nossos sentimentos, pensamentos e acontecimentos. O mesmo será dizer: Você. Nós somos o observador que nos observa e temos a capacidade de mudar o observador para que possa ver um novo observado. Você.

A saber: Nós somos aquilo que posso apelidar de um metaser. Um ser que pode desenvolver a noção de conseguir vir a ser mais do que aquilo que é, aplicando a vontade de elevar-se a si mesmo.

Na prática, se eu estou a experienciar sentimentos ou sensações em que avalio como infelicidade, dado que eu sou mais do que aquilo que sinto, que penso e que me acontece, eu posso fazer coisas para que me elevem acima da minha experiência do momento, e pouco a pouco caminhar para a construção sustentado do meu bem-estar, onde entre outras coisas incluo o sentimento de felicidade.

Foi esta mudança de consciência ou de noção, que eu comecei a vislumbrar um estado de ser que é radicalmente diferente e surpreendentemente mais capacitado, um estado que é mais profundo e mais consistente do que a felicidade. Na verdade, foi o estudo da volatilidade da felicidade que me permitiu descobrir uma porta para algo muito mais elevado do que a felicidade jamais me ofereceu. A felicidade é um estado passageiro e vivenciado dentro de mim, como tal, é um reflexo de uma parte de mim, é criada em mim, umas vezes imposta, outras vezes promovida.

A reter: O que está acima da felicidade e que pode suportá-la e resgatá-la, é a noção (consciência) de que o ser humano possui em si próprio a vontade de elevar-se a si mesmo, por ação da sua vontade. É uma força dentro da força. É a força de vontade acionada pela força vital (você) que permite elevar-se acima de qualquer experiência que possa estar a acontecer-lhe.

Com esta noção em mente, caso esteja a sentir-se infeliz, redefina essa personalização para: “Sentir um sentimento de infelicidade em mim.” Ao abordar o assunto desta forma, promove o desapego da experiência e a aceitação da mesma. Ao olhar de forma distanciada para o sentimento de infelicidade que está a experienciar, isso permite-lhe tomar consciência que nada pode afetar a sua força vital. A força que suporta todo e qualquer sentimento que você queira promover.

força

A FELICIDADE QUE EMERGE DA APLICAÇÃO DA FORÇA VITAL

No artigo: O lado oculto da felicidade, falei acerca da força transcendente na capacidade humana para florescer sob a maioria das circunstâncias difíceis. Muitas pessoas, e eventualmente você também já experienciou reacções positivas às experiências profundamente perturbadoras. E, esta capacidade extraordinária não se limita apenas aos mais fortes ou aos mais bravos, mas a qualquer pessoa que ganhe noção que tem em si a opção de canalizar a sua força para uma atitude positiva de acordo com a realidade que têm em mãos.

Se abordarmos uma definição mais ampla (acima da felicidade) em que fundimos a parte da alegria, desafios, objetivos, bem-estar, gozo, satisfação com a capacidade que temos para a superação, para a aceitação dos sentimentos negativos, traumas, dor, obstáculos e adversidade. O profundo construto mais elevado que a felicidade é edificado por sentimentos felizes e capacitadores, mas também temperado com nostalgia, arrependimento e dor. A felicidade é apenas um entre muitos valores na vida humana. A compaixão, sabedoria, altruísmo, intuição, criatividade, realização, satisfação geral, por vezes só emergem perante a experiência da adversidade.

A reter: As situações drásticas forçam-nos a enfrentar o doloroso processo de mudança. Para viver uma vida humana plena, uma existência num ambiente tranquilo, alegre, despreocupado e facilitado não é suficiente. Nós não necessitamos apenas de viver, também precisamos crescer, realizar-nos, superar-nos, desenvolvermo-nos, e isso às vezes dói.

ACEITAR O DESAGRADÁVEL PARA ABRAÇAR A ELEVAÇÃO

Passamos as nossas vidas tentando chegar a um lugar imaginário, onde a felicidade duradoura espera por nós. O que não sabemos é como chegar aqui, onde estamos, e elevar-nos acima do que possamos estar a experienciar. Descobrimos o bem-estar quando mudamos o nosso foco para este momento que realmente está aqui, e relembramos a nós mesmos a força que vive em nós, superior a tudo o que possa estar a acontecer no nosso ser.

Dica: O segredo para o bem-estar é contra-intuitivo: permite que o que está sentindo dentro de você aconteça, não faça nada com isso, não o julgue, não tente mudá-lo, não o transforme numa identidade  (qualquer coisa que diga algo sobre quem você é).

Permita experienciar os sentimentos e os pensamentos, deixe que todas as experiências aconteçam dentro de você sem transformar isso numa história sobre você e a sua vida. Quando deixamos de alcançar um resultado em particular com a nossa experiência e conhecemos essa mesma experiência, tal como ela é, quer queiramos ou não, nós descobrimos um estado de profundo contentamento que não depende de nada nem de ninguém, e é inerentemente e eternamente nosso. Na verdade, descobrimos quem realmente somos: uma força viva acima da experiência que acontece dentro de nós. Perante sensações, pensamentos e sentimentos desagradáveis ou perturbadores, é importante estarmos cientes que devemos aceitar isso como uma experiência, que não somos isso, e relembrar a nós mesmos que acionando a nossa força vital por ação da nossa vontade, elevamo-nos acima de tudo o que está acontecendo em nós, e passamos a ser quem realmente somos. Um metaser que se orienta  e se cria a si mesmo, acionando os mecanismos necessários para superar-se acima da sua experiência.

Agarrar o seu filho nos braços, aquecer-se à frente de uma fogueira acolhedora, ou mesmo, apenas beber um bom vinho talvez possa fazê-lo sentir-se feliz. Certamente muitas são as coisas que podem propiciar-nos ótimas sensações que nos colocam um sorriso nos olhos. E, somos uns afortunados por podermos viver essas experiências. A felicidade é importante e todos nós devemos experienciá-la, e ser livres para promovê-la, nos nossos próprios caminhos. Eu não tenho nenhuma “problema” com a felicidade, ou a busca da felicidade. Eu, realmente não tenho. Apenas sou um defensor acérrimo que não é tudo aquilo que devemos perseguir.

A reter: A felicidade vem a felicidade vai. É fugaz.

Não é possível estar feliz o tempo todo. Se fosse, como saberíamos o que é felicidade? No mínimo precisamos de experimentar estados de não felicidade, de modo que possamos ter um termo de comparação.

Em vez de estarmos constantemente tentando alcançar um estado de ser que nos faz felizes, devemos tentar equilibrar a balança e gastar mais da nossa energia mental vivendo o presente com a noção de que independentemente do que possamos estar a experienciar, possuímos em nós a opção de acionar a nossa força vital por ação da nossa força de vontade, e como isso em mente fazer dessa capacidade a nossa ELEVAÇÃO.

ELEVAÇÃO: Capacidade de conduzir-nos e elevar-nos a nós mesmos.

Abraço