Na minha página pessoal do facebook, com bastante regularidade coloco postagens com dicas e estratégias para potenciarem o rendimento desportivo. São informações que resultam da minha experiência prática como profissional nas áreas da preparação psicológica a atletas, treinador de atletismo, formador de treinadores de atletismo e treino psicológico para treinadores. Compilei algumas dessas postagens e construí este guia prático, onde apresento estratégias, dicas e conceitos que considero de grande importância na caminhada e construção do sucesso desportivo.

A mente ao serviço do resultado

Ser um campeão, ou conseguir atingir um nível de excelência requer que qualquer atleta se comprometa com o trabalho físico. Ou seja, não há nenhum atalho para alcançar os seus objetivos. O atleta tem que trabalhar duro, desenvolver força muscular, melhorar a sua rapidez, aumentar a resistência e aprimorar a técnica necessária para competir a um nível elevado. Ao fazer este tipo de investimento físico e trabalhando duro, o atleta certifica-se que se está a movimentar passo a passo para a realização dos seus sonhos. Mas o atleta não pode simplesmente parar por aí (poder pode, mas não deve se quiser seguir para o próximo nível).

Dica: Para se tornar num campeão, ou atingir o máximo do seu potencial, o atleta deve também trabalhar o lado mental do seu desporto.

A diferença entre um resultado excelente e um medíocre, encontra-se exatamente no espaço que está entre as orelhas do atleta. Quando é necessário que o atleta tenha um desempenho ótimo, ou necessite de aplicar-se ao máximo em competição, tudo se resume a quão bem consegue mentalmente potenciar o seu desempenho. Ou seja, se é capaz de manter a calma e compostura sob pressão?

Se o atleta entrar muito nervoso em competição, irá ter de lidar com interferência emocionais, que pode conduzi-lo a fazer um monte de erros e ficar amargamente desapontado. Ficar relaxado, confiante e focado momento a momento sob grande pressão, é um dos “segredos” para que o atleta seja capaz de aplicar todo o potencial em competição.

A prática não faz a perfeição

A simples prática não é suficiente para ganhar rapidamente as habilidades pretendidas. A mera repetição de uma atividade não vai levar a um melhor desempenho. Se o atleta tem uma tacada de golfe pobre, simplesmente repetindo os balanços de fraca técnica do golfe durante 10.000 horas não irá ajudá-lo.

A prática deve ser intencional, visando a melhoria do desempenho, projetada para o seu nível de habilidade atual, combinada com feedback imediato e repetição que vise o desenvolvimento contínuo. Para se beneficiar da prática e alcançar todo o seu potencial, o atleta tem que desafiar a si mesmo constantemente. Isso não quer dizer que deve estar repetidamente fazendo o que já sabe fazer. Isso significa a compreensão de seus pontos fracos e desenvolver tarefas específicas na sua prática para resolver essas deficiências. 

Dica: Quanto tempo o atleta conseguirá persistir nesse desenvolvimento contínuo baseado numa “filosofia” de feedback constante é que irá ter uma enorme influência no estabelecimento dos seus limites. 

Tornar-se num especialista é uma ultra-maratona, não um sprint. O atleta não consegue alcançar os seus limites físicos e mentais em apenas algumas semanas ou meses. Para crescer até o topo da sua performance, vai ter que ser perseverante durante anos. A sua prática tem que ser deliberada e intensa, mas também tem de ser cuidadosamente programada e com cargas adequadas para evitar o cansaço e fadiga excessiva a longo prazo (mental e física).

muhammad ali

Em caso de dúvida, não desesperar

Até os melhores atletas do mundo têm dúvidas de última hora e pensamentos negativos. O pensamento negativo, como o pensamento positivo é apenas uma construção artificial da realidade. Eles são apenas palavras ou imagens na mente do atleta. O mais importante: é perceberes que podes realizar todo o teu potencial, mesmo com o pensamento negativo e dúvidas a manifestarem-se. 

A ideia é ficar calmo na presença dessa negatividade e imediatamente reorientar a atenção na tarefa em mãos. Por certo não queres desperdiçar a tua preciosa concentração num diálogo entre o bem e o mal. Certamente queres, pelo contrário, perceber que estás a pensar negativo e calmamente e rapidamente reorientar a tua concentração sobre aquilo que importa fazer no momento.

Traçar objetivos específicos

Muitos atletas não atingem os resultados pretendidos porque não traçam os seus objetivos o mais específicos possível. Querem ficar melhores, mais rápidos, mais fortes ou mais talentosos, mas este tipo de objetivos ou metas são demasiado generalistas. É suposto estabelecerem-se objetivos para nortearem os esforços. 

Se o caminho ou destino é incerto, o resultado será incerto. Os objetivos específicos são como um GPS que guia um míssil de cruzeiro tomahawk numa determinada direção até acertar o alvo. Porém, se o dispositivo não estiver programado para um alvo concreto, irá gastar toda a sua energia, acertando num alvo inespecífico.

Dica: Quanto mais específicos forem os teus objetivos, mais provável é conseguires alcançá-los!

Quando tens objetivos bem definidos e expectativas realistas para ti mesmo, estabeleces um padrão mais elevado de desempenho desportivo. És mais exigente contigo mesmo. Passas a desafiar-te a ti mesmo. Tais padrões elevados de desafio são necessários para que possas levar o teu treino para o próximo nível. São esses desafios internos que colocas a ti mesmo que permitem que te impulsiones e avances para a obtenção do teu sonho.

Melhorar todos os dias

Continuamente observa os atletas que são melhores do que tu, comemora, não temas o seu nível de habilidade. Estuda a sua ética de trabalho e como eles praticam. Modela-te por eles, vê-los como parceiros de melhoria altamente valorizados. Respeita-os por quem eles são e o que fazem. Vê o seu sucesso como uma oportunidade para o teu sucesso. Evita aqueles companheiros que podem agir de forma ciumenta para com estes atletas, tentando derrubá-los.

LEMBRA-TE: Se uma pessoa pode alcançar a excelência, então tu também podes! Atinges a excelência rodeando-te daqueles que já são excelentes, e se possível superando-os .

Para te tornares num campeão tens que ter o hábito dos campeões, tornando cada prática um momento de melhoria. Tens que estar mentalmente, fisicamente e emocionalmente conectado com o que estás fazendo, enquanto estás fazendo. Tens que tornar cada uma das tuas práticas realmente significativas no caminho do sucesso. Tens que ser capaz de ligar o que estás fazendo hoje e agora, com os teus objetivos finais e sonhos no desporto que praticas. Tens que ser capaz de perguntar regularmente a ti mesmo: “Como é que aquilo que estou fazendo agora vai ajudar-me a chegar onde eu quero?” Quando fizeres isso, o investimento no teu treino vai assumir uma qualidade muito superior. E, assim, vais promover radicalmente o teu rendimento e performance.

Encarar o fracasso como “normal”

Na construção do percurso de melhoria da performance importa que o atleta espere dificuldades, adversidades e desilusões. Elas são normais, integrantes e importantes como parte da sua jornada desportiva. Ninguém constrói uma carreira desportiva de sucesso sem encontrar pelo caminho contratempos de ordem física e emocional. 

Os obstáculos e dificuldades podem vir de várias formas, e provavelmente o caminho para os teus sonhos irá passar por momentos atribulados. Quando isso se fizer sentir, o teu trabalho como atleta é aceitar o desaire como normal, como parte da jornada, como parte do teu percurso desportivo. Não fiques passivo, ao invés, usa a tua dor como um trampolim para te empurrar para a frente.

Com a atitude correta, os teus contratempos são apenas temporários. Só porque falhaste na semana passada, ontem e hoje não significa que irás falhar amanhã. Os teus insucessos passados não são preditores de insucessos futuros ou de permanência desses resultados (por exemplo, “isto sempre acontece comigo“), a não ser que adotes isso como uma atitude a seguir. As tuas deceções, independentemente de quão frequentes sejam, devem ser consideradas apenas ocorrências temporárias. Aprende com elas e deixa-as para trás.

A perda, fracasso e falha do atleta não são necessariamente provas da sua incapacidade como competidor. Essas experiências proporcionam, pelo contrário, preciosa informação sobre o que o atleta precisa fazer para obter um melhor resultado da próxima vez. O fracasso não é algo permanente e fixo. É temporário, sendo necessário superá-lo, uma e outra vez, mantendo-se firme no caminho até conseguir alcançar os seus sonhos.

Não temer o próprio medo

Se és atleta e estás lidando com o medo (seja ele qual for), permanecer focado nesse medo como sendo intransponível, irá imobilizar-te. Quando isso acontece tende-se a ficar receoso e com um pé atrás, e se há uma coisa que alimenta o medo, é evitá-lo. Quando nos afastamos das coisas que nos provocam medo, esse mesmo medo cresce abruptamente. A única forma de diminuir e superar o medo é enfrentá-lo. Para isso, certifica-te que queres superar esse medo, e que tens uma estratégia de enfrentamento que te forneça confiança. 

Usain Bolt

Gerenciar adequadamente as emoções

Pela sua própria natureza, as emoções, assim que se fazem sentir, disparadas pelas circunstâncias, tendem a assumir uma vida própria. Por isso, a melhor aposta que um atleta pode realizar é treinar a capacidade para desapegar-se da sua raiva, medo, frustração e outras emoções fortes que podem interferir com a boa performance em competição. Como pode isso realmente ser feito?

Há três coisas que o atleta pode fazer para desenvolver a capacidade de manter-se calmo e sereno na presença de emoções fortes:

1) Controlar as autovervalizações
2) Controlar o foco e concentração
3) Manter o corpo fisiologicamente ativado e simultaneamente solto e descontraído.

Foco intenso no que mais importa

O pico de performance é sempre um produto da tua máxima concentração e total absorção no momento presente do desempenho, permitindo que instintivamente reajas aos estímulos da competição de forma adequada. Quando te concentras no que está na tua frente, no agora, os teus instintos, memória muscular e treino, são capazes de responder reflexivamente e sem sobressaltos. Os movimentos e reações treinadas ditam o desempenho, e não o pensamento do momento. Por outro lado, quando “viajas mentalmente no tempo”, quer para o futuro ou de volta para o passado, esses reflexos treinados ficam totalmente interrompidos pelo ato de pensar.

Sedimentar as expectativas no treino

As expectativas do atleta relativamente à obtenção de resultados são importantes, mas no dia da competição não são relevantes. Se o atleta realmente quer ganhar ou ter um desempenho excecional, então o tempo para pensar nas suas expectativas é quando pratica. Na verdade, as suas expectativas devem ser o combustível para treinar com afinco e de forma consistente, acreditando na realização do resultado pretendido. As expectativas, ou seja, o que o atleta espera realizar, são a sua fonte de motivação, funcionando como metas. Este é o seu único valor construtivo.

Perante o retrocesso, manter-se firme e persistir

Por mais treino mental e/ou físico que um atleta tenha, nunca vai chegar ao ponto em que consegue atingir sempre resultados de excelência. Porquê? Porque não é como a vida e/o desporto realmente funcionam!

Poucos atletas no mundo (se é que existe algum) conseguem estar sempre no máximo do seu potencial a todo o momento, em todas as competições. A vida e o desporto por vezes complica-se. É o processo de passar por esses contratempos, lesões e decepções que molda o nosso caráter e, em última instância determina a nossa força e sucesso no mundo. 

A lição de vida aqui é aprender a aceitar o que quer que possa aparecer no teu caminho, coisas boas e más, e, em seguida, fazer tudo o que está humanamente ao teu alcance, para expressares da melhor forma todo o teu potencial desportivo. 

Abraço,

Miguel Lucas