Erros, falhas, pressão, recuos, acontece com todos os atletas, sejam eles de elite, profissionais, amadores ou recreativos. O seu nível de desempenho “normal” e consistente, de repente é comprometido por um erro, medo ou bloqueio. Por nenhum motivo aparente, por vezes, os atletas não conseguem terminar um remate, fazer um lance, manter-se composto numa jogada, tomar boas decisões ou mover-se no caminho que costumava conhecer e saber que é totalmente capaz. Assim que o seu desempenho atlético baixa, o mesmo sucede ao seu nível de autoconfiança. O atleta é inundado com dúvidas acerca de si mesmo e começa a pensar demais, prejudicando a sua performance habitual.

As falhas, os medos e os bloqueios são uma parte regular e comum de todos os desportos, mas existem algumas coisas que certamente podes fazer como atleta, treinador ou pai para ajudar a diminuir o efeito negativo dos maus momentos de performance e potenciar o rendimento desportivo.

O que podes fazer como atleta?

Provavelmente, um dos maiores e mais comuns erros mentais que comprometem o sucesso dos atletas e que alimentam as suas falhas, erros e bloqueios é perder o controle da sua concentração. Quando o atleta repetidamente tem vindo a ter baixos níveis de performance, é comum dar-se o fenómeno de “viagem mental no tempo” à medida que se aproxima a próxima competição. Ou seja, é provável que pense sobre o quão pobre têm sido as performances anteriores (passado), então é natural preocupar-se, “e se isso acontecer de novo?” (futuro).

Quando os pensamentos e foco fazem uma viagem mental através da memória e o atleta revisita as performances ruins do passado, rapidamente prejudica a sua autoconfiança e aumentará o nível de ansiedade à medida que se aproxima da próxima competição.

Quando o foco avança para o futuro e o atleta começa a preocupar-se com o próximo resultado ruim, é normal tornar-se ainda mais ansioso acerca da sua performance. Essa ansiedade traduz-se em músculos tensos, respiração mais rápida e superficial e até mesmo menos autoconfiança. Também assegurará que, quando a ação começar, a concentração esteja fora da tarefa em questão, momento a momento da competição, promovendo uma performance pobre e frustrante.

erros no desporto

Como atleta consegues corrigir isso aprendendo a manter o teu poder de concentração e dos teus pensamentos no “agora”. Deves disciplinar-te para rapidamente deixares para trás as competições menos boas do passado e não dares prioridade ao resultado, para que depois possas mais facilmente concentrares-te no que está na tua frente, no momento presente. 

Controlar o teu foco desta maneira é muito mais fácil dizer do que fazer e certamente irás passar por períodos em que a tua concentração irá estar continuamente vagueando para cenários prejudiciais. Isto é normal. Quando isso acontecer, tenta ficar relaxado e rapidamente retorna o teu foco para o momento presente, uma e outra vez, tantas vezes quantas forem necessárias até que fiques concentrado onde tens de estar.

A habilidade de concentração implica tomar consciência imediata de cada vez que o foco “viaja” de volta ao passado ou para o futuro e, assim, rapidamente retornar o foco para o momento presente. O que pode prejudicar-te enquanto atleta e manter a continuidade da fraca performance é, permitires que o teu foco de concentração flua para assuntos e cenários prejudiciais e não retornes rapidamente ao foco apropriado.

A reter: É a ruptura de concentração que não recuperas que, em última instância, te prejudica e prolonga os teus problemas de desempenho.

O que podes fazer como treinador?

Se a tua equipa ou atleta está passando por dificuldades ou está lutando com qualquer problema de fraco desempenho desportivo, a tua resposta imediata como treinador determinará se os problemas pioram ou melhoram. Treinadores que ficam visivelmente frustrados e irritados com os atletas pelos erros e falhas que eles comentem, que apontam publicamente os seus erros, perdas e performances ruins, que usam a humilhação e comportamento degradante, certamente contribuem para que os problemas de desempenho se mantenham. 

Esse tipo de comportamento cria um ambiente inseguro para o atleta. Isso faz com que eles se concentrem demais na sua fraca performance e se preocupem em cometerem erros e falhas. Leva ainda a que os atletas pensem demasiado e joguem de forma cautelosa e conservadora. Isso não promove a melhoria dos resultados nem a performance.

Em vez disso, importa ficar calmo e solidário diante das lutas e perdas dos atletas. Eles precisam do teu apoio mais do que nunca. Importa fazê-los sentir-se emocionalmente seguros, tratando-os com respeito e capacitando-os. Como treinador precisas ajudá-los a sentir que te preocupas genuinamente com eles enquanto indivíduos.

Precisas ajudá-los a manter a sua concentração no momento presente, focados na execução das tarefas desportivas e na estratégia competitiva. Não naquilo que aconteceu até agora na temporada ou o que pode acontecer se eles falharem novamente na próxima competição, nada disso. Importa ajudar os atletas a manterem-se focados nas suas habilidades, forças e capacidades, ajudando-os igualmente a manterem a calma, atitude competitiva vantajosa e gerir as emoções

Como treinador, é fundamental que permaneças positivo sempre que abordes os problemas de desempenho dos teus atletas. Ajuda-os a entender que esses problemas são normais e que podem e serão trabalhados. Ajuda-os a entender o que estão fazendo de maneira errada e especificamente o que eles precisam fazer para corrigir os seus erros. Passa-lhe a mensagem que os seus erros e falhas não lhes retiraram o potencial que têm, nem a confiança que depositas neles. É assim que se constrói atletas ganhadores. Assim estarás a construir um ambiente seguro de treino onde os atletas não têm medo de correr riscos e falhar.

Finalmente, mantém o teu ego fora da equação. O registro de ganhos / perdas da tua equipa ou atletas não te define como treinador ou pessoa. Ganhar não faz de ti um ótimo treinador, assim como perder não faz de ti um mau treinador. Mantém o jogo ou a evolução dos atletas em perspectiva. Em competição há muito mais a ter em consideração do que apenas a derrota ou vitória. Certamente tens atletas jovens, impressionantes. Estás a desenvolver futuros adultos com o teu trabalho diário, e por isso eles estão a aprender lições de vida importantes.

lidar com a falha

O que podes fazer como pai?

Quando os nossos filhos falham e lutam por ter um bom desempenho, o que eles mais precisam de nós como pais é o nosso amor e apoio incondicionais. Eles não precisam de nós para “consertar” o problema ou “treiná-los” ou para dizer-lhes o que estão fazendo de errado e o que eles precisam para melhorar ou trabalhar. Eles não precisam das nossas críticas. Certamente não precisam da tua frustração, decepção e raiva. Eles precisam do teu amor e apoio, tão simples quanto isso. 

Os pais que “amam” mais os filhos quando estes se estão saindo bem e depois inibem esse amor cada vez que erram ou falham, faz disparar a forma mais poderosa de ansiedade de desempenho que existe. Se os pais ficam frustrados e visivelmente infelizes quando os seus filhos perdem, então, na próxima vez que eles forem competir, haverá muito mais coisas que aumentarão a pressão para tudo ter que correr bem. Assim os filhos estarão a competir para tentar obter o amor e apreço dos pais. Se o amor por parte dos pais está em jogo cada vez que vai competir, ou que falha ou que o resultado é fraco, como consequência irá ficar muito angustiado a maior parte do tempo. 

Quando o filho falhar ou errar, importa estar lá, apoiando-o emocionalmente. Sê gentil e afável. Sê empático. Imagina-te na sua pele e permite-te sentir o que ele está sentindo. Não o julgues. Abraça-o. Ajuda-o a manter as coisas em perspectiva. Incentiva-o a continuar acreditando em si mesmo e a trabalhar duro. Ajuda-o a entender que esses tempos difíceis fazem parte da jornada. E deixa-o verdadeiramente saber através das tuas palavras, mas preferencialmente nos teus comportamentos que sempre estarás ali ao lado dele e que pode contar contigo, especialmente nos maus momentos.  

 Abraço,

Miguel Lucas