Ao longo da vida podemos confrontar-nos com acontecimentos que são mais marcantes, influenciando as nossas ações e decisões do dia a dia. Podemos ficar negativamente condicionados, criando um padrão de comportamento incapacitante. Evidentemente, que os acontecimentos marcantes negativos geram-nos algum tipo de dor emocional, normalmente traduzido no sentimento de angústia e desesperança. A mais pequena chatice pode deixar-nos à beira de um ataque de nervos, ou com a lágrima ao canto do olho. A tristeza instala-se de um momento para o outro, acinzentando-nos qualquer tipo de atividade que possamos estar a realizar.

Provavelmente este cenário é-lhe familiar. Se a assim for, o que pode estar a contribuir para o seu sofrimento é a sua incapacidade de desapegar-se dos seus sentimentos e pensamentos negativos. Aceitando e aprendendo a desapegar-se da sua dor emocional, você consegue ficar capacitado para suportar o mau momento que possa estar a enfrentar e, permitir-se a focar alguma da sua energia em estratégias de melhoria, sem que se sinta diminuído ou esmagado pela dor emocional.

“Coragem, às vezes, é desapego. É parar de se esticar, em vão, para trazer a linha de volta. É permitir que voe sem que nos leve junto. É aceitar que a esperança há muito se desprendeu do sonho. É aceitar doer inteiro até florir de novo. É abençoar o amor, aquele lá, que a gente não alcança mais.” – Ana Jácomo

A seguir apresento um vídeo com um excerto de uma consulta de psicologia online via Skype, onde explico à minha paciente um conjunto de estratégias e conceitos que clarificam a importância de saber distinguir o problema que a pessoa enfrenta da sua identidade. Na minha explicação destaco três pontos essenciais:

1. Saber identificar o momento em que o seu problema se manifesta na forma de sentimentos e pensamentos negativos e/ou desagradáveis.

2. Separar o problema (angústia e desesperança) da própria pessoa. A pessoa não é o problema.

3. Sempre que o problema se manifestar, passar a orientar as suas decisões em consciência (estratégias, técnicas e conceitos aprendidos) e não de acordo com o problema. Ou seja, agir em consciência colocando em ação comportamentos e atividades promotoras de bem-estar.

Link do Vídeo: https://youtu.be/z4hOP3uP3Os

Sair do ciclo negativo

Quando achamos que a dor emocional, o mal-estar, a ansiedade ou um estado deprimido tomou conta de nós, mesmo que seja sem uma forte razão, a nossa mente tem tendência para começar a tecer comentários em tom de crítica negativa acerca de nós mesmos. Aqui começa o ciclo negativo que pode efetivamente tornar-se no seu maior problema. Ou seja, o seu estado menos bom que poderia ser temporário, dado que não conseguiu aceitá-lo e separar-se dele (separar-se da sua identidade) ganhou vida própria e começou a condicionar todas as suas áreas de vida.

Exemplo: Eu não me sinto bem hoje. Sinto-me abatido. Ao longo do tempo tenho vindo a sentir-me deprimido, e hoje não é um bom dia. A minha voz interna faz disparar alguns pensamentos muito bizarros, depois de algum tempo eu ligo-me a esses pensamentos e sinto-me ainda pior:

  • “O que está errado comigo? Tudo está bem na minha vida e eu ainda estou deprimido. Sou um perdedor.”
  • “Oh, ótimo. Mais um dia em que não vou fazer nada. Sou tão preguiçoso.”
  • “Se as pessoas realmente soubessem como sou, elas não iriam acreditar numa palavra que eu dissesse.”
  • “Eu não presto”.
  • “Sou um fraco.”

Identifica-se com esta experiência? Você pode não estar deprimido, mas talvez tenha andado ansioso, preocupado, ressentido ou estressado. Ou talvez você se sinta angustiado, confuso, indisciplinado, e sem foco. Ou talvez esteja a passar por um momento difícil devido a um conjunto de razões. E, a sua voz interior deita-o abaixo, e eventualmente você sente que entrou num ciclo vicioso.

Não tema a sua experiência angustiante

Em vez de resistirmos ao nosso humor deprimido, angústias ou dor emocional, tentando livrarmo-nos do incómodo, processo que só nos liga ainda mais ao sofrimento, ao invés, devemos criar espaço para experienciarmos o incómodo e permitir que se manifeste em nós.

É útil, permitir-se a viver a sua experiência. Por exemplo, quando se sentir deprimido ou angustiado, tente perceber em que parte do seu corpo sente alterações físicas. É na zona da garganta? No peito? Na nuca? No estômago? Independentemente da parte do corpo onde sente o seu incómodo, importa permitir-se a senti-lo. Observe-o. Crie um espaço para a sua manifestação. Fique temporariamente com a sua dor, angústia ou ansiedade. Em seguida aceite. Depois, oriente a sua atenção no sentido de aprender a lidar com os seus sentimentos e pensamentos, regulando-os, até que possam diminuir ou extinguir-se.

A aceitação e o desapego permite que você consiga continuar o seu dia a dia, mesmo quando não se sente bem. O outro benefício, é que você deixa de usar grande parte da sua energia contra você mesmo, deixando também de resistir ao fluxo e refluxo natural da vida.

Abraço,

Miguel Lucas