Análise ao livro: The Kaizen Way. O livro The Kaizen Way: One Small Step Can Change Your Life escrito por Robert Maurer, Ph.D., é aplicável a muitos temas, incluindo começar algo de novo nas nossas vidas. O Caminho Kaizen é acerca de como atingirmos as nossas metas passo a passo. O termo japonês kaizen é uma abordagem do uso de pequenos passos através da melhoria contínua para conduzir à mudança. Em vez de procurar mudanças radicais, que são ambiciosos, de difícil implementação e muitas vezes de insucesso. Você deverá dar pequenos passos de forma a sentir-se confortável. Maurer aponta que, apesar da abordagem kaizen se ter desenvolvido num ambiente empresarial, também se aplica aos indivíduos. Kaizen é uma palavra japonesa, cuja essência é captada na frase, “Uma viagem de mil milhas deve começar com o primeiro passo.”— Lao Tzu. Significa simplesmente dar pequenos passos em direcção à gestão do seu objectivo.

Dr. Maurer fala sobre como a abordagem Kaizen facilita a implementação e o sucesso perante a mudança. Sempre que nos propomos a mudar algo, na grande maioria das vezes pensamos que isso exige uma reforma radical e chocante, a abordagem Kaizen preconiza que se inicie o processo de mudança em etapas pequenas e confortáveis para facilitarem o aperfeiçoamento e a implementação. Algumas pessoas são mais propensas pela sua natureza a agir, são mais impulsivas e com mais facilidade se propõem a mudar, mas na grande maioria, quando alguém quer terminar um comportamento ou hábito indesejável ou começar algo, fazem-no durante um curto tempo e depois, gradualmente voltam aos seus velhos hábitos.
Dr. Maurer sugere a abordagem kaizen quando esses hábitos que tentamos mudar são extremamente teimosos e / ou quando você tem medo de fazer a mudança necessária.

A EXPERIÊNCIA DESPORTIVA

Estou bastante familiarizado com a abordagem Kaizen, ela é parte integrante na programação dos treinos de atletismo. Empiricamente todos os treinadores sabem aplicar dois dos princípios do treino desportivo:
O princípio da continuidade - o treino baseia-se na aplicação de cargas crescentes, progressivamente assimiladas pelo organismo.
O princípio da progressão - rege que o aumento da carga de treino deverá ser de forma gradual, esperando para que ocorra uma adaptação geral do organismo.
Enquanto treinador especializado nos saltos (salto em comprimento e triplo-salto) no ensino da técnica a um jovem iniciante, deveremos começar com movimentos muito simples de fácil entendimento e com um grau de dificuldade reduzido, depois pouco a pouco vamos colocando exercícios mais complexos, com um grau de exigência maior e que apelam mais à especificidade e por esse motivo mais dificeis de realizar.
Pouco a pouco vamos preparando o atleta para exercícios e tarefas mais exigentes, mas ao mesmo tempo vai-se sentido com capacidade para as realizar, pois os incrementos são implementados dia-a-dia de forma ínfima. Por este motivo o atleta vai-se adaptando de uma maneira muito subtil, sentindo-se assim mais capacitado, mais confiante e mais eficaz.

Foi com esta estratégia que todos aprendemos a ler, escrever e contar. Num processo de repetição, trabalho diário e esforço continuado. Enquanto adultos facilmente nos esquecemos de aplicar esta estratégia de sucesso, seja por impaciência, por expectativas irrealistas, por impetusidade, por falta de leitura das dificuldades ou simplesmente por falta de vontade, o que é certo é que todos nós já provámos o sabor da auto-derrota, da auto-sabotagem e do consequente insucesso face à mudança ou à melhoria.

TREINAR SEGUNDO A LEI DO MENOR ESFORÇO

Treinar segundo a lei do menor esforço, é uma das regras que sigo à risca e que uso desde que tive sucesso com o atleta Carlos Calado (medalha de bronze nos campeonatos do Mundo de Edmonton no Canadá em 2001 na disciplina de salto e comprimento). Esta lei não se aplica de forma alguma a atletas perguicosos, é apenas uma simples maneira de tentar não queimar etapas de evolução aos atletas – não avançar para um método de treino mais evoluido, mais exigente ou aumentar as cargas sem que o método anterior tenha esgotado todas as hipótese de rendimento, e assim beneficiar a melhoria contínua.

A EXPLICAÇÃO PSICOLÓGICA

O nosso ambiente dita a grande maioria das nossas respostas. As nossas rotinas, que nos são familiares, automáticas, são a nossa segunda natureza, e esta é dominada pelas nossas reacções aos estímulos que nos surgem do meio ambiente. Com o tempo, os circuitos neuronais são reforçados até um determinado grau – primeiro através de associações e depois através da repetição. De uma certa forma podemos considerar que na realidade nós já não estamos verdadeiramente a “pensar” quando agimos com base naquilo que estas mesmas redes neuronais programadas iniciam.
Nós agimos inconscientemente a maior parte do tempo porque depois das redes neuronais ficarem interconectadas e reforçadas, tornamo-nos menos conscientes nas nossas actividades. Na grande maioria das vezes basta apenas um pensamento, ou um pequeno estímulo vindo do ambiente, para iniciar uma série de respostas e comportamentos programados. As nossas respostas tornam-se naturais e normais porque as ensaiámos bem e as repetimos durante muito tempo.

Muitos de nós somos preguiçosos, talvez esteja a exagerar, mas do ponto de vista da poupança de energia, isto é um facto. Os pensamentos e comportamentos habituais, não necessitam de grande esforço da nossa parte, o que é algo bastante importante para a nossa eficácia no dia-a-dia. Nós produzimos normalmente os mesmos pensamentos e comportamentos no dia-a-dia, porque activamos os mesmos padrões de redes neuronais, combinações e sequências. É por esta razão que é tão fácil sermos como somos. Mas é igualmente por esta razão que é tão difícil mudarmos aquilo que somos!

Se nos propusermos a um desafio que percepcionamos como sendo extremamente difícil, rapidamente nos iremos colocar numa zona de desconforto face ao objectivo a atingir, isto porque estamos a sair daquilo que nos é familiar, daquilo que accionada os cursos de acção com o mínimo de esforço. O nosso cérebro está altamente especializado para accionar padrões de pensamento e comportamento que surtiram efeito no passado, tudo o que se lhe apresenta como estranho, diferente ou com necessidade de mobilizar muita energia e esforço, irá colocá-lo num estado de alerta, accionando os mecanismos do medo. E neste estado é natural comportarmo-nos de forma a sabotar o nosso próprio desejo – o desejo de mudar.
Por tudo isto, para implementar uma mudança na nossa vida, deveremos de certa forma “enganar” o cérebro e propor-lhe algo simples, fácil e pouco diferente do habitual. A abordagem Kaizen preenche todas estas premissas.

Mude algo na sua vida, pensando sempre para si: “qual é a menor coisa que posso fazer e com o menor esforço possível que me posso propor a realizar para alcançar aquilo que desejo”?

Boa sorte e mude passo a passo.