Todos nós reclamamos, é inerente à condição humana. A queixa ou a reclamação estabelece uma relação direta com a insatisfação, com algo que não está como desejamos, ou como queríamos que acontecesse. Em algumas circunstâncias é um comportamento que permite assegurarmos os nossos direitos, que permite defendermo-nos ou protejer-nos. No entanto, no reclamar também existe o reverso da medalha, também podemos acionar um mecanismo de negatividade, de desdém, de mau humor, de atitude negativa e depreciativa e pouco a pouco torna-se num hábito pernicioso para nós e para os outros.

O processo de pensamento de reclamar pode ser definido como: para expressar dor, angústia ou descontentamento. Claro, faz sentido para expressar dor, tristeza ou descontentamento ocasionalmente, mas algumas pessoas fazem isso constantemente (ou a cada hora, ou a cada minuto).  Ao fazer isso, essas pessoas estão falando e pensando sobre o que não querem na sua vida e, assim, promovem mais dor, tristeza e descontentamento. Em vez disso, fale sobre o que você quer e não sobre o que você não quer.

O website http://www.acomplaintfreeworld.org/ diz-nos que em média cada pessoa queixa-se entre 15-30 vezes por dia. Sendo só considerado queixa quando você realmente diz a queixa em voz alta. Ter um pensamento negativo não é realmente queixar-se, tal como pensar noutra pessoa quando você é casado não é o mesmo que enganar.

A CONSTRUÇÃO DO PADRÃO DE QUEIXA

Queixar-nos ou reclamar-mos, na grande maioria das vezes estabelece uma forte relação com o nosso diálogo interno autocrítico. Por vezes vamos edificando um padrão de verbalização mordaz, criticamente negativo que tem repercussões terríveis nos nossos estados de humor. Num estado de humor diminuído ficamos mais susceptíveis à queixa, à lamuria desmedida e sem fundamento. Edificamos um mecanismo de resposta automática, baseado num padrão interno constituído no emparelhamento de pensamentos de negatividade com um diálogo interno autocrítico depreciativo. Pouco a pouco, sem termos consciência caí-se na malha da negatividade e vitimização ilusória, cravada numa estrutura mental desadequada e desvantajosa que faz verbalizar um discurso pejorativo.

A pessoa torna-se hábil no desenvolvimento de uma percepção apurada e refinada em tudo que possa ser-lhe desagradável ou que não esteja de acordo com aquilo que quer e gosta. A pessoa especializa-se numa sensibilidade desmedida para aquilo que pode causar-lhe algum grau de insatisfação, mesmo que essa insatisfação seja ínfima. Com um “detetor de queixa” apuradissimo, tal Homem Aranha com o seu “detetor de perigo” a pessoa fica à mercê de um mecanismo que pela força do hábito se tornou automático. Passa a acontecer sem a pessoa se dar conta, o que a impede de ter uma noção do seu diálogo destrutivo.

Numa breve análise ao seu discurso no dia-a-dia, será que você percebe que reclama por tudo e por nada, sobre coisas do género:

O tempo. O tráfego. Os membros da família. O peso. O trabalho que precisa completar. O evento que estava assistindo. A dor no braço. O sol do meio dia. O que nunca conseguiu concretizar.

“A formação foi um disparate, foi sobre e sobre e sobre.  A comida está um horror. Os passeios são irregulares. Detesto que olhem para mim. Odeio camisetas amarelas. Está frio. Está calor. Detesto quando chove. Adoro as ondas, mas detesto a areia.”

Talvez você esteja pensando: “Uau! Eu reclamo muito, eu vou parar agora”. Pense já sobre isso, pondere (se for o seu caso) se as suas queixas estão prejudicando, dificultando e empobrecendo a sua vida. Se sim, decida-se a mudar. Antes de mudar, e para que possa ter uma noção de como pode ser bem sucedido, convido-o a ler: Guia completo para implementar qualquer mudança na sua vida.

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CUIDADO COM A GENERALIZAÇÃO

Pouco a pouco a pessoa entra num processo de generalização desmedida de gatilhos que fazem disparar automaticamente a queixa ilusória.  Acredito que saber identificar esses gatilhos que acionam o seu detetor de queixa, é o primeiro passo para alterar o seu comportamento de verbalização negativista e depreciativo. Quando se aprende a reconhecer os gatilhos, isso permite-nos ter alguns segundos para parar e pensar sobre que escolha nós queremos fazer e seguir.

Um gatilho é algo, como por exemplo, uma situação, um pensamento, uma atitude de alguém, ou um qualquer estímulo que acione automaticamente o seu comportamento de queixa.

Para refletir: Será que você quer disparar as suas queixas, como normalmente faz, ou quer escolher um caminho diferente?

Se pensar negativamente, coisas negativas podem acontecer. Se verbalizar queixas, mais motivos para se queixar terá. O ciclo de queixas vai sendo reforçado e você corre o risco de generalizar até para pequenas coisas que anteriormente não eram alvo da sua reclamação. O detetor de queixa vai ficando apurado, os gatilhos vão-se acumulando e as verbalizações ficam cada vez mais ensurdecedoras. Você tornou-se um profissional da queixa, faz um bom trabalho a queixar-se prejudicando a sua vida como ninguém.

COLOQUE A MÃO NA SUA CONSCIÊNCIA

Quero crer que tem consciência que aquilo que cada um de nós verbaliza, é escutado pelos outros, tendo uma determinada reação neles. Ao verbalizarmos algo, iremos criar uma impressão na outra pessoa ou grupo de pessoas. Inevitavelmente os outros constroem uma ideia acerca de nós mesmos. Relembre-se por momentos de um dos seus dias mais queixosos, imagine agora o que as outras pessoas poderiam ter pensado acerca de si, a influência que pode ter tido neles, o quão os pode ter afetado, e o quão desadequado pode ter sido. Imagine isso por breves momentos. Talvez tenha sentido embaraço.

Agora pondere exatamente o mesmo cenário mas relativamente a você próprio. Que impacto negativo e depreciativo pode ter tido esse dia? Quão negativamente pode ter afetado as suas escolhas, o seu estado de humor, a sua simpatia, as sua amabilidade, a sua compreensão, a sua atenção para com as outras pessoas, o seu otimismo, a sua positividade?

Será que toda a enxurrada de queixas trouxeram alguma vantagem para a sua vida, para o seu bem-estar, para a sua produtividade no trabalho, para o seu relacionamento? Provavelmente não. Então, certamente justifica-se tomar consciência do possível impacto negativo que as queixas desmedidas podem estar a provocar na sua vida, e eventualmente nas pessoas com que interage.

Pelo menos, nem que seja por breves momentos questione-se:

  • Porque é que é propenso a queixar-se?
  • Tem sido útil?
  • Ajuda-o no seu dia-a-dia?
  • Promove-lhe a motivação?
  • Ajuda a influenciar positivamente os outros?
  • Promove as soluções para os seus problemas?
  • Promove-lhe a saúde física e psicológica?

Arrisco a dizer, que salvo raras excepções, queixar-se nada tem de positivo. É um comportamento verbal autosabotador.  Antes de queixar-se reflita:

  • É verdade?
  • É benéfico?
  • É inspirador?
  • É necessário?
  • É simpático?

Se maioritariamente responder negativamente. Não se queixe. Trave a sua língua a tempo de conseguir reestruturar o seu pensamento e pensar numa alternativa mais viável e adequada à interpretação da situação que enfrenta.

EXPETATIVAS ELEVADAS E POUCA FLEXIBILIDADE DE PENSAMENTO PROMOVEM AS QUEIXAS

Quando temos uma noção muito rígida de como gostaríamos que o mundo fosse. Quando temos uma percepção de que as coisas deveriam ser à nossa imagem e de acordo com a nossa forma de pensar, tornamo-nos rígidos. Com essa rigidez instituída forma-se uma dificuldade de adaptação funcional, e o escape materializa-se em reclamações e queixas. As expetativas pessoais não atendidas são um poderoso gatilho para a queixa.

Vejamos o seguinte exemplo: Se eu me considerasse um “queixoso crónico” e quisesse chegar a algum lugar, eu iria assumir que o tráfego iria fluir como eu desejava, a pessoa que eu tinha marcado a reunião estaria lá na hora combinada e a reunião iria ser edificante e gratificante, e o café da manhã iria ajudar-me a raciocinar melhor! Se alguma destas coisas não acontecesse, eu ia começar a reclamar sozinho, depois mais tarde com a minha parceira, se saísse para conviver com os amigos iria queixar-me a eles. “Que dia horrível que eu tive! O trânsito estava terrível, a pessoa chegou tarde ao encontro, o café que tomei era intragável, e para piorar tudo não chegamos a acordo, foi tudo menos proveitoso.”

Identifica-se com este tipo de cenário? Utiliza este tipo padronizado de discurso recorrentemente?  Se sim, é importante ponderar (tal como referi ao longo do artigo) sobre o quão prejudicial pode estar a ser para a sua vida. A queixa recorrente, generalizada à grande maioria das situações que não ocorrem como desejamos coloca-nos num ciclo de pensamento negativista, promove o pessimismo, aumenta a ansiedade e pode fazer disparar estados de humor diminuído, podendo nas suas formas mais graves emergir a depressão. Tudo isto pode ser evitado se trabalhar a sua flexibilidade de pensamento.

Comece por ser menos rígido nas suas expetativas, não me refiro às expetativas que tem quando traça objetivos de realização, como por exemplo ser promovido no emprego, ou melhorar o seu relacionamento, não me refiro a isso, mas sim às pequenas expetativas, como por exemplo ir ao cinema e encontrar uma fila enorme, ou a mesa do jantar não estar posta como gosta, ou estar um pouco mais de barulho no restaurante.  Depois implemente a aceitação da realidade. Se a carne do jantar está rija, de que vale focar toda a sua atenção nesse pormenor e estragar o jantar, não usufruindo da companhia e referindo-se à rigidez da carne uma dezena de vezes? Não ganha nada com isso. No outro dia acorda e a vida continua, vai ter de alimentar-se novamente e outras coisas irão acontecer, isso é a realidade das coisas a manifestar-se.

Aumente a sua capacidade de adaptação, reduza algumas das suas expetativas e aceite a realidade como ela é. O sol do meio dia pode ser um incómodo, isso é uma realidade, não faça disso um problema que alimente a sua queixa. Pense numa solução para minimizar o incómodo, desprenda-se disso e siga em frente. A vida é uma sucessão de acontecimentos e não de queixas.

Para aprofundar o assunto leia: Como melhorar a sua flexibilidade de pensamento?

COMO DEIXAR DE QUEIXAR-SE OU CRITICAR?

Em seguida apresento os passos principais e resumidos a implementar no seu dia-a-dia para abandonar as suas queixas depreciativas e autosabotadoras da suas qualidade de vida:

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1. ACEITAÇÃO DA REALIDADE

Primeiro você precisa aceitar-se do jeito que você é, para que consiga aceitar os outros e a realidade dos acontecimentos. Caso contrário, você continuará sempre reclamando acerca dos outros, dos seus hábitos e de como as coisas deveriam ser. É muito fácil reclamar e criticar. Qualquer pessoa pode fazê-lo. Na verdade, as pessoas que se queixam e criticam por tudo e por nada, mesmo quando tentam argumentar com razões lógicas e racionais, correm o risco de serem demasiado incisivas e tendênciosas devido à sua rigidez de pensamento e detetor de queixas.

Somente quando você aprender a aceitar os outros como eles são, sem julgamentos de qualquer tipo, baixando as expetativas, acionando o respeito pelas ideias e comportamentos dos outros, a queixa pode ter espaço para diminuir, e pouco a pouco extinguir-se.

Tente não tirar conclusões precipitadas ou julgamentos sobre os outros sem conhecê-los. Você até poderá saber algumas coisas sobre o Sr. X, mas certamente não sabe tudo sobre ele e a sua vida. Assim, não julge pela aparência ou pelo seu conhecimento escasso, tente aprender mais sobre a pessoa. Uma vez que você cultive o hábito da aceitação da realidade, de imediato, encontrará alegria e empatia que promove o abandono da queixa desnecessária. Este será o primeiro passo para ajudá-lo a parar de reclamar e criticar por tudo e por nada.

2. ACEITE AS RESPONSABILIDADES

Esta é também uma razão pela qual as pessoas se queixam, porque têm medo de aceitar a sua quota de responsabilidades na vida e até mesmo nas suas escolhas. Assim, fabricam todas as desculpas do mundo para reclamar. E, aprendemos este jogo na infância. A pessoa que se queixa por tudo e por nada, transporta para a idade adulta uma estratégia que provavelmente usou quando era criança. As crianças utilizam muito a queixa para terem a compreensão dos pais relativamente aquilo que não querem. Não quer ir para a escola, simula uma dor de cabeça, dor de estômago, dor de dentes, e assim por diante.

Em adulto aprendemos a ser mais refinados e inteligentes na argumentação de desculpas e reclamações.

Por exemplo: “Bolas, hoje tive um dia super cansativo, para além de me aborrecer com o meu chefe, e o almoço ser uma porcaria, ainda tenho um jantar de aniversário de um grande amigo. Já me vou deitar tarde outra vez. Já viste bem a minha vida?”

Este é um caso típico de queixa sem fundamento e negativista. Algumas coisas até podem correr menos bem, mas depois reclamar porque se vai a uma festa de aniverário de um amigo? Isso não deveria ser motivo de alegria e orgulho? A pessoa só vai porque quer, ninguém a obriga. Se vai deve assumir isso para si, e ir bem-disposta sem reclamar. Aproveitar o momento e divertir-se. Já que decidiu ir, que aproveite.

Estas queixas são apenas uma maneira fácil de escapar da responsabilidades e colocar a frustração nas coisas e nos outros. Por isso, parar de reclamar e ser responsável pelas nossas ações é dar mais um passo em frente na promoção do bem-estar e redução da frustração. É importante sermos gratos pelo que temos e acima de tudo por aquilo que decidimos fazer.

3. DESAPEGUE-SE DO SEU EGO

No início do artigo, referi que todos nós reclamamos. No entanto, existem poucas pessoas que saibam fazê-lo devidamente. É necessário um crescimento pessoal e um entendimento desprendido da nossa maneira de ser para que a grande maiorias das nossas queixas estejam fundamentadas e possam servir-nos de forma adequada. Não estou a querer dizer que você tem que ser iluminado, no entanto, se perceber que não é você, mas sim o seu ego, que é a raiz de grande parte dos seus problemas pessoais, então certamente irá optar por deixar de reclamar e criticar de forma desadequada.

Queixarmo-nos por tudo e por nada, procurar falhas em todos ou em tudo ao nosso redor, irá nutrir e tornar ainda mais forte o ego. Irá empurrar-nos para fora da nossa responsabilidade, colocamos uma cegueira mental, e não reparamos que somos nós próprios a procurar o nosso motivo de queixa. Assim, a chave é desapegar-se do seu ego, e ter uma visão diferente das coisas. Mais uma vez repito, a chave para desapegar-se do seu ego é através de um completo entendimento, o entendimento de que é o seu ego, que está impedindo o seu crescimento e bloqueando os seus pontos de vista para ver as coisas da maneira adequada. Somente quando o muro do ego é quebrado existe a possibilidade para adoptar uma nova perspectiva sobre a vida, as pessoas e as coisas.

Para aprofundar o assunto, leia: Desapegue-se da sua personalidade, aprenda a desempenhar um papel

4. COMPAIXÃO

Depois de implementar os passos anteriores, sem qualquer dúvida criou terreno para a compaixão emergir. Ao adotar uma perspetiva mais positiva da vida, ao aprender a separar o trigo do joio, colocar-se-á numa posição mais favorável para a adequação às circunstâncias. A diminuição da rigidez de pensamento, permite colocar-nos na posição dos outros, e igualmente sermos assertivos connosco mesmos.

Assim que a sua a sua visão sobre o mundo mude, a sua maneira de olhar as coisas também muda. Em vez de ser duro, antagônico e muito crítico, agora você está pronto para adotar uma posição de ajudar, motivar e inspirar as pessoas que você criticou. Agora você está preparado para perceber o quão as vezes que se queixou de algumas coisas não lhe permitiu viver plenamente alguns momentos cruciais da sua vida.

5. SEJA CRIATIVO

Ao aceitar a realidade das coisas, ao ser responsável, desapegar-se do seu ego e promover a compaixão pelos outros e por si mesmo, importa ser criativo. Numa situação em que usualmente você identifica um gatilho que sabe fazer disparar a sua queixa, seja criativo. Imagine algo que minimize a reclamação que você iria verbalizar, evite construir um teoria da conspiração para justificar o momento de frustração. Use essa criatividade, mas dê-lhe uma outra direção. Uma direção que vá ao encontro de uma possível solução, de um possível enquadramento que o coloque numa perspetiva positiva, funcional e que permita que você possa olhar o lado bom da vida, das coisas e até de algumas expetativas defraudadas.

Crie uma alternativa à queixa e ao desdém. Crie um alternativa funcional que sirva a si mesmo e aos outros. Use a energia da queixa de uma forma construtiva. A queixa remete-se sempre para o passado ou algo que está a acontecer num determinado momento. Use esse momento para minimizar, melhorar ou resolver o seu incómodo ou frustração.

CONCLUSÃO

Não pretendi passar a mensagem que todas as críticas são ruins e que não devemos criticar de nenhuma forma. Por favor, não foi isso. Tudo o que eu sugeri e alertei é para que seja consciente das suas queixas e críticas, e que se não lhe servem ou prejudicam, elimine-as. Não basta criticar ou reclamar sem saber nada. Você deve primeiro ter uma profunda compreensão do assunto.  É fácil ser um crítico, mas para criticar ou queixar-se devidamente, é muito difícil.

A queixa e a crítica devem ser honestas e humildes. Não devem partir do desconhecimento, idiotice, e mente egoísta. A  queixa ou crítica devem ter um pressuposto positivo, ajudar os outros e a si mesmo a crescer.

Adicione um pouco de compaixão, um pouco de amor, alguma simpatia, e alguma inteligência, na sua crítica ou queixa. Misture tudo e sirva. Certamente, irá produzir um crescimento e motivação para você e para os que o rodeiam. Medite sobre os pontos acima apresentados, acredito que consiga chegar a um estágio em que pode não ter mais necessidade de lamentar-se.

Você pode ver a beleza, tanto na flor da rosa como nos seus espinhos. Você pode começar a apreciar a beleza da vida na sua totalidade.

Abraço