A semana passada li num jornal diário Português, que os casais discutem à volta de 352 vezes por ano, o que quer dizer “praticamente” todos os dias. E na grande maioria dessas vezes por questões domésticas e/ou sexuais. Não afirmo que seja exatamente assim, estatísticas são apenas isso, expressam comportamentos de uma amostra da população. No entanto, quer por experiência própria, quer por outros estudos que já li, assim como conversas que venho tendo com amigos e com pacientes em consulta, a realidade das relações entre casais que vivem juntos não deve fugir muito às estatísticas.

Por esta razão os micro-compromissos podem ser considerados uma boa estratégia como tentativa de minimizar as discussões entre casais.

“O que é que queres para jantar? Pergunta o marido.

“Não sei, respondeu ela. O que é que queres?”

“Quer tal hambúrguer?”

“Não, eu não quero hambúrguer.”

“O que é que queres então?”

“Não sei bem, e se fosse massa.”

“Estou um pouco farto de massa. E se fosse Pizza?” disse o marido.

“Eu apetece-me mesmo massa.”

Silêncio. Depois: Ok, Massa então.

TODOS NÓS FAZEMOS COMPROMISSOS PARA O BOM E/OU PARA O MAU

Os problemas que minam os relacionamentos estão quase sempre presentes desde o início. Estes são problemas típicos  que foram negligenciados ou conscientemente ignorados no calor da paixão, na adrenalina da esperança e do desejo não se admitiu que interferissem no estabelecimento da relação, mas que estavam esperando a paixão arrefecer, (o que sempre acontece até certo ponto), para ressurgirem mais tarde como possíveis barreiras para o relacionamento.

A natureza dessas questões é tão variada quanto as próprias pessoas e inclui as diferenças de abordagem e atitude: dinheiro, atividades de lazer, educação dos filhos (ou mesmo a possibilidade de ter filhos), religião, educação, desejo sexual, organização do lar e preferência de localização. Estas são grandes questões, as questões que se tornam mais claras à medida que o relacionamento progride, muitas vezes levando à necessidade de se optar por terapia de casal e, às vezes levando ao divórcio ou separação. Não quero ser taxativo, certamente existirão outras incompatibilidades como diferenças na personalidade e no comportamento, que podem condenar um relacionamento, mas em situações em que ambos os parceiros estão emocionalmente saudáveis, geralmente, estas “pequenas” questões são muitas vezes o que levam ao desentendimento.

A SEPARAÇÃO BANALIZOU-SE?

O divórcio está hoje tão banalizado, a percentagem é tão elevada que já ninguém fica surpreendido quando um amigo lhe diz: “Olha divorciei-me.” Este acto tornou-se tão banal, que já se aceita como uma “coisa” do nosso dia-a-dia. Será que a nossa tolerância para os grandes compromissos que todos nós fazemos na formação dos relacionamentos românticos diminui com o  passar do tempo? Será que o nível de tolerância das pessoas diminui drasticamente? Estaremos todos nós mais egoístas? Será que já não conseguimos fazer o exercício de nos colocarmos no ponto de vista do outro?

Também eu não tenho resposta para as questões que coloquei. No entanto, acredito que milhares e milhares de pequenas concessões estão contribuindo para os mal-entendidos entre os casais. Apelido  esses pequenos compromissos diários de: micro-compromissos. São compromissos tão pequenos que quase não reparamos que os estamos fazendo, mas que, se estivéssemos sozinhos não os estaríamos fazendo. Coisas como: desligar a luz que tínhamos deixado acesa, ir almoçar neste restaurante em vez de outro, virar à esquerda nesta rua ao invés de ir em frente e virar na próxima à esquerda, macarrão para o jantar ao invés de hambúrgueres, e até mesmo o quase proverbial deixar (ou não) levantado o assento da sanita quando vamos ao banheiro.

A FORÇA DESTRUIDORA QUE OS MICRO-COMPROMISSOS PODEM TER!

A sua lista de coisas que provocam discórdia, ou pelo contrário que necessita de micro-compromissos será diversificada dependendo dos casos, mas certamente também você não lhes escapará! Estes tipo de situações estão na origem de  muitos  problemas que atingem até mesmo aqueles que ficam  frustrados por eles serem ridiculamente pequenos. Não se deixe enganar pela sua pequenez, eles têm a força destruidora capaz de avassalar muitos relacionamentos. Parecem quase grãos de areia, dificilmente perceptíveis à primeira vista, vão caindo nos relacionamentos pouco a pouco, até que se começam a acumular  construindo uma barreira que irá restringir a nossa capacidade de movermo-nos livremente como desejamos, eventualmente ameaçando a morte da relação.

MICRO-COMPROMISSOS, UM PARADOXO BENÉFICO?

Pergunto-me, se não há para muitos de nós, um efeito negativo de aumento gradual, que emerge de tornarmos estes compromissos aparentemente insignificantes, para depois insidiosamente desgastar-nos a capacidades de tolerar o nosso espaço pessoal com outra  pessoa, talvez até com o passar do tempo envenene a nossa habilidade para nos relacionarmos positivamente com o nosso parceiro(a). O caricato é que os micro-compromissos são paradoxais, se não os fizermos, a relação não terá  pernas para andar, se os fizermos, corremos o risco de eles se voltarem contra nós, seja porque julgamos estar a ceder aos desígnios do outro, ou porque o outro não cede com tanta frequência como nós. Poderíamos dizer que é um pau de dois bicos. Certamente que o é.

Eu acho que quando isso acontece é porque esses micro-compromissos restringem o nosso senso de liberdade. Embora nem todos requeiram o mesmo grau de liberdade, todos nós exigimos um certo senso de autonomia. E porque não há duas pessoas  que queiram exatamente a mesma coisa ao mesmo tempo, quando você vive com outra pessoa no seu espaço pessoal ou de compromisso ou de conflito, invariavelmente, isso acontece. Mesmo que um parceiro consistentemente ceda as suas micro-necessidades para o outro, a pessoa muitas vezes desenvolve um sentimento de ressentimento com o passar do tempo, o que pode levar a uma explosão súbita, ou uma série de explosões, em que o outro parceiro fica chocada ao saber da frustração para o qual eles contribuíram de alguma forma.

A SOLUÇÃO

Então, o que é que podemos fazer para impedir que os micro-compromissos que todos nós fazemos todos os dias, envenenem a nossa capacidade de nos relacionarmos positivamente com os nossos parceiros e, preservar a saúde dos nossos relacionamentos e, simultaneamente, preservar o nosso senso da elevada importância de independência e liberdade para fazer o que queremos?

Deveremos levar em consideração que:

  • Ninguém é absolutamente livre em todos os sentidos.
  • Liberdade é sempre um termo relativo.
  • Nem todas as coisas têm de ser necessariamente como nós queremos que sejam.

Mesmo nos países democráticos, em que temos liberdade de opinião, a nossa liberdade está longe de ser absoluta. Eu não posso bater em alguém só porque essa pessoa me irrita, pelo menos sem sofrer consequências. O simples facto de termos qualquer tipo de relacionamento obriga-nos a alguma forma de constrangimento, mesmo que seja apenas em relação ao tempo reservado para nós mesmos, os nossos amigos e familiares ocupam sempre algum desse tempo. Poderíamos optar por viver numa ilha (mesmo literalmente), mas rapidamente aprenderíamos da necessidade que temos para a interacção social e, o quão importante é para a nossa felicidade.

NÃO DESDENHE DAQUILO QUE ESCOLHEU PARA SI

Se conseguirmos reconhecer que algumas restrições à nossa liberdade é o preço que pagamos por qualquer tipo de relacionamento que temos, pode ajudar a silenciar a frustração dos micro-compromissos que esses mesmos relacionamentos exigem. Lembre-se, foi você que escolheu a sua relação actual. Se você entrar na relação com os olhos bem abertos (e isso é um grande se), relembre-se disso quando você ficar frustrado com o acumular  dos micro-compromissos, isto pode ajudar a restaurar a perspectiva de responsabilidade, e esta pode aliviar a frustração até determinado grau que emerge dos micro-compromissos.

Olhe para os micro-compromisso como uma bênção. Este simples facto, muda a sua perspectiva, efetivando-se como uma estratégia útil na luta contra a frustração em ter que fazer micro-compromissos, evitando desta forma o acumular do ressentimento. Ao invés de sentir que tem de se comprometer, você deve escolher olhar para cada micro-compromisso como um pequeno presente que dá à outra pessoa, e vice-versa. Importante, porém, é ter noção da sua capacidade e/ou habilidade para recusar comprometer-se quando julga não fazer sentido, permitindo assim manter a sua sensação de liberdade desejada. Ou seja, é por esse motivo (quando assim o entende) que nem sempre se deve comprometer.

CEDA POR VONTADE PRÓPRIA

Os micro-compromissos estão diretamente relacionados com micro-cedências que se fazem. Se você se compromete a fazer algo, de certa forma está a ceder à vontade do outro (mas, de acordo com aquilo que tenho vindo a explicar, essa cedência convém ser de forma intencional, por vontade própria). Por exemplo se o marido não quer fazer uma micro-cedência  a esposa  pode satisfazer a sua necessidade, cedendo à sua micro-necessidade, e o marido por sua vez reconhece a escolha da esposa como um “presente” para ele. Se você conseguir olhar para as interacções como a do exemplo que dei, como pequenos “presentes” e/ou “mimos” promoverá a troca e o envolvimento entre ambos (podendo até expressar da seguinte forma: “gosto muito de fazer algumas coisas ao teu gosto”). Isto permite desenvolver uma apreciação mútua, promovendo o orgulho que um tem pelo outro.

Tenho vindo a explicar que a chave para uma relação saudável é o comprometimento, mas este nem sempre tem de ser numa relação de 50/50. Existem alturas em que um dos parceiros necessita de 100% das suas necessidades satisfeitas, e o outro ter de comprometer-se completamente com isso. A chave para um relacionamento saudável (ou pelo menos uma das chaves importantes), será reconhecer que os micro-compromissos são bênçãos/mais valias que necessitam ser trocadas, ao invés de exigências que precisam de ser arrancadas à outra pessoa. Se ambos os parceiros conseguirem abordar  o seu relacionamento desta forma, quando existir necessidade de se comprometerem com grande compromissos, é provável que menos ressentimento possa estar presente para interferir no raciocínio, promovendo uma clarificação e melhores decisões para ambos os parceiros.

No fim o casal comeu massa, mas a seguir, muitos dias houve que comeram hambúrguer.

Não hesite, para bem da sua relação comprometa-se, ceda e faça disso um bênção.

Abraço