Uma vida rica e gratificante, muitas vezes exige uma complicada batalha com a adversidade. Os furacões, incêndios, cancro, acidentes, quedas de aviões, ataques brutais à integridade física, ninguém pede para que qualquer destas coisas aconteça. Mas surpreendentemente, muitas pessoas depois de suportarem tal provação angustiante conseguem relativizar as situações, superá-las e por vezes tomar um novo rumo nas suas vidas. A sua reestruturação pode expressar-se mais ou menos assim: “Eu gostaria que não tivesse acontecido, mas eu sou uma pessoa melhor devido a isso.”

Gostamos de ouvir histórias de pessoas que foram transformadas pelas suas tribulações, talvez porque elas testemunham a verdade da boa-fé psicológica, que às vezes se perde no meio de uma infinidade de relatos de desastres: Há uma força transcendente na capacidade humana para florescer sob a maioria das circunstâncias difíceis. Reacções positivas às experiências profundamente perturbadoras não se limitam apenas aos mais fortes ou aos mais bravos. Na verdade, cerca de metade das pessoas que lutam contra a adversidade dizem que suas vidas têm melhorado em alguns aspectos.

PROSPERAR PERANTE A ADVERSIDADE

A constatação que tem vindo a verificar-se sobre os efeitos da mudança de vida a partir das crises, são um tema  que a nova ciência do crescimento pós-traumático tem vindo a ocupar-se. Não sou apologista da velha máxima de que aquilo que não nos mata torna-nos mais forte. Certamente existem alguns acontecimentos traumáticos que irão deixar marcas jamais possíveis de esquecer e causando algum tipo de incapacidade ou dificuldade. Aquilo que quero dizer é que que o stress pós-traumático está longe de ser o único resultado possível. Na sequência de uma experiência mais aterrorizante, apenas uma pequena proporção de pessoas se tornam cronicamente perturbadas. Mais comumente, as pessoas recuperam, e muitas delas conseguem prosperar. E prosperam não pelo facto dos acontecimentos não deixarem marcas (porque inevitavelmente por vezes deixam), mas porque arranjam formas alternativas de solucionar as situações mais difíceis, escolhendo em consciência encarar a vida com uma atitude positiva de acordo com a realidade que têm entre mãos.

FELICIDADE: UM SENTIMENTO COM DUAS CARAS

Aqueles que lidaram bem com as adversidades são a prova viva de um dos paradoxos da felicidade: Precisamos mais do que o prazer de viver a melhor vida possível. A nossa busca contemporânea da felicidade reduziu (retirou) alguns fundamentos para alcançar a felicidade: uma vida protegida dos sentimentos negativos, livre de dor, confusão e angústia.

Esta definição redutora de bem-estar e felicidade deixa de fora a melhor metade da história, a alegria e o propósito que obtemos de uma vida significativa. É o lado oculto da felicidade, a qualidade extraordinária que admiramos nos homens e mulheres que pretendemos cultivar nas nossas próprias vidas. Algumas das pessoas que sofreram desaires, que foram forçados a enfrentar os choques  e traumas que nunca julgaram ter de enfrentar e conseguiram repensar o significado das suas vidas, podem ter mais a dizer-nos sobre  o significado da vida, da felicidade e bem-estar de uma forma profunda e intensamente do que provavelmente eu próprio ou alguns filósofos que procuram explicar o significado da vida.

Faz mais sentido (sentido realista e otimista) abordarmos uma definição mais ampla em que fundimos a parte da alegria, desafios, objetivos, bem-estar, gozo, satisfação com a capacidade que temos para a superação, para a internalização dos sentimentos negativos, traumas, dor, obstáculos e adversidade. A profunda felicidade, é dominada por sentimentos felizes, mas também temperada com nostalgia e arrependimento. A felicidade é apenas um entre muitos valores na vida humana. A compaixão, sabedoria, altruísmo, intuição, criatividade, por vezes só emerge perante a experiência da adversidade. Por vezes só as situações drásticas nos forçam a enfrentar o doloroso processo de mudança. Para viver uma vida humana plena, uma existência num ambiente tranquilo, despreocupado e facilitado não é suficiente. Nós não necessitamos apenas de viver, também precisamos crescer e desenvolvermo-nos e isso às vezes dói.

EXPERIÊNCIAS LIMITE

Algumas pessoas sofrem uma mudança radical na sua forma de olhar o mundo, essa experiência é sentida intensamente e a pessoa por vezes fica surpreendida com essa alteração. Mas, esse sentimento de transformação é em alguns aspectos típico das pessoas que passam por experiências limite.  Rich Tedeschi, um professor de psicologia na University of North Carolina, cunhou o termo “crescimento pós-traumático“. Ao estudar algumas pessoas que passaram por acontecimentos extremos como a guerra, criminalidade violenta ou doença súbita grave, mostram que a maioria sente-se confusa e ansiosa no rescaldo. Essas pessoas ficam preocupadas com a ideia de que suas vidas foram despedaçadas. Alguns são assombrados algum tempo depois por problemas de memória, problemas do sono e sintomas semelhantes ao transtorno de stress pós-traumático. Mas, Tedeschi e outros descobriram que para muitas pessoas, talvez mesmo a maioria, a vida acaba por tornar-se mais rica e gratificante.

Estas alterações na forma de olhar a vida e o mundo acontecem como um relâmpago. W. Keith Campbell, professor de psicologia social na Universidade da Georiga em Athens nos Estados Unidos da América, fez uma investigação onde se focou no “self” em contexto das relações próximas, e chamou a este tipo de fenómeno (alterações repentinas na forma de encarar o mundo) de “choque do ego“.

Ele descobriu que um sério golpe na auto-estima pode congelar temporariamente os mecanismos psicológicos de proteção. A maneira como reagimos a uma ameaça súbita do ego  (uma rejeição dos outros, um fracasso profissional) é muitas vezes suficiente para abalar o equilíbrio emocional: Apenas por um instante, o tempo pára, a mente fica em branco e de repente o mundo parece estranho.

TRANSCENDÊNCIA LIBERTADORA

Campbell acredita que algo semelhante acontece com muitas pessoas que experimentam uma aterradora ameaça física. Naquele momento, o nosso senso de invulnerabilidade é comprometido, e as armas de auto-proteção mental que normalmente nos protegem das adversidades da vida ditas “normais” tornam-se disfuncionais.  As nossas rotinas da vida quotidiana, os nossos hábitos, auto-percepções e suposições, são deitados janela fora, e ficamos com uma experiência fria do mundo.

O fenómeno é semelhante ao que os budistas Zen se esforçam por atingir na meditação ou o que as pessoas relatam sobre o arrebatamento religioso. As cores ficam mais vivas, objetos comuns, de repente parecem mais bonitos. É uma experiência de perplexidade tingida de medo, quase a roçar a admiração. “Quando você retira o seu “Eu” da equação, por vezes, o mundo surge como mais poderoso e maravilhoso. Vive-se uma experiência de abertura: ‘Oh meu Deus, olhe para este mundo, ele é maravilhoso.”

Neste tipo de acontecimentos algumas pessoas no seu momento de desespero, sentem um sentimento de euforia. Quando o perigo passa, ou a pessoa aceita os acontecimentos é como se visse  a verdade das coisas. Estranhamente tudo fica OK. Tudo é perfeito e bom. Não há absolutamente nada a temer.

Após um choque intenso, as pessoas costumam dizer que as suas vidas foram transformadas involuntariamente e que os seus antigos valores ou hábitos evaporam-se num instante. Campbell descobriu que mais da metade das pessoas nos seus estudos que tiveram um “choque do ego” disseram que finalmente tinham sentido efeitos positivos a longo prazo nas suas vidas.

Opinião: Realmente os eventos negativos podem conter em si a capacidade de sacudir o status quo da nossa vida, abrindo portas para a mudança. Você pode  tornar-se deprimido, cair nas malhas da bebida ou pode  tornar-se numa pessoa muito melhor, mais capaz, funcional e de bem com a vida.

Ainda assim, na verdade, a implementação dessas mudanças, bem como enraizar plenamente uma nova forma de olhar a nova realidade, geralmente exige esforço consciente. Estar disposto e capaz de assumir este processo é uma das principais diferenças entre aqueles que crescem com a adversidade e os que são destruídos por ela.

As crises desafiam as nossas crenças mais profundas:

  • Que as coisas ruins não acontecem com pessoas boas.
  • Que a vida faz sentido.
  • Que temos controlo sobre o que acontece.

É uma mudança sísmica, porque derruba os pressupostos básicos sobre os quais a vida é construída. Depois, um novo quadro tem de ser construído. Isto não é fácil. É preciso que algumas pessoas façam grandes mudanças, não só na forma como elas pensam, mas no que fazem e como escolhem passar a viver. Refletindo sobre o que aconteceu perante as circunstâncias, um perigoso sinal de alerta de depressão pode ser realmente essencial para o processo de crescimento.

ADAPTABILIDADE ÀS CIRCUNSTÂNCIAS

Notavelmente, as pessoas que encontram valor na adversidade da vida não são as mais ”fortes” ou as mais racionais. Pelo contrário, verifica-se que tendem a ser pessoas comuns, nem os melhores, nem os piores. O que as torna diferentes é que elas são capazes de incorporar o que aconteceu na história da sua própria vida. Elas estão dispostas a empreender um doloroso processo de repensar quem são e desistir de um padrão antigo que já não se aplica, nem faz mais sentido.

Opinião: Talvez uma das chaves do “crescimento” seja a capacidade de admitir que você foi modificado pela experiência. O que significa admitir que você é vulnerável (às vezes), e admitir que não teria acontecido coisas boas na sua vida se não tivesse que passar por esses eventos negativos.

Os choques do ego e as possíveis e consequentes mudanças sísmicas ou crescimento pós-traumático, podem levar à libertação de condicionalismo de uma maneira que as pessoas nunca imaginaram até algo de semelhante lhes acontecer.  Os sobreviventes dizem que muitas vezes tornam-se mais tolerantes e empáticos, capazes de trazer a paz às relações anteriormente complicadas e desajustadas. Muitas pessoas relatam que os bens materiais, os problemas do-dia-dia que eram incomodativos parecem agora insignificantes. Relatam que a crise lhes permitiu reorganizar a vida em sintonia com as novas prioridades.

As pessoas que cresceram com a adversidade muitas vezes sentem menos medo, apesar das coisas assustadoras pelas quais passaram. Essas pessoas são surpreendidas pela sua própria força, sentem-se confiantes de que podem lidar com qualquer outra coisa que lhes surja na vida.

Esclarecimento: As pessoas não dizem que o que lhes aconteceu foi maravilhoso. Essas pessoas não desejaram crescer a partir de acontecimentos traumáticos. Numa fase inicial, estavam apenas tentando sobreviver. Mas, em retrospetiva, o que elas ganharam foi mais do que alguma vez tinham pensado.

RECOMPENSA NA DIFICULDADE

Quando passamos por aquilo que podemos chamar de pior cenário possível. Isso pode tornar-se na melhor experiência de vida.  Há uma enorme liberdade quando você consegue sair daquilo que esperava nunca vir a acontecer ou a conseguir lidar. Há como que um conforto e ao mesmo tempo um enorme incremento de força de vida que emerge da noção que ficamos de nós mesmos. Uma noção de capacidade de superação, uma noção de capacidade de encontrar significado no limite da experiência.

Felizmente, as verdadeiras crises são raras. A maioria das pessoas passam por uma única na sua vida, ou talvez nenhuma. Mas as experiências extremas têm semelhanças com a vida comum. Uma mudança bem-vinda, mas avassaladora, como ser-se promovido, uma conversão religiosa, uma segunda oportunidade no amor, ou aquilo a que chamamos uma oportunidade única (por exemplo: mudar para o nosso lugar de sonho)  podem provocar uma versão mais suave de transformação. Tal como uma ameaça grande ao ego, uma mudança positiva pode igualmente  libertar o senso de identidade. Sempre que uma pessoa está nessa situação de liberdade em queda livre, em que ainda não estamos ligados ao que vai acontecer a seguir, existe uma oportunidade muito boa para o crescimento e desenvolvimento pessoal.

Para um exemplo mais comum de crescimento através da adversidade, observemos um dos maiores desafios da vida: A parentalidade. Ter um bebé, por vezes diminuí os níveis de felicidade. A privação do sono e da necessidade de colocar de lado os prazeres pessoais, a fim de cuidar de uma criança, significa que as pessoas com recém-nascidos são mais propensos à depressão e a poder criar problemas no seu relacionamento. No entanto, a longo prazo, criar um filho é um dos mais gratificantes e significativos propósitos dos seres humanos. O sacrifício da felicidade a curto prazo é compensado por outros benefícios, como a satisfação, o altruísmo e a chance de deixar um legado significativo.

A capacidade de, simultaneamente, aderir tanto à perda como ao crescimento é uma parte normal da vida, um complexo e agudo estado emocional, que talvez seja a maior recompensa de maturidade. Mesmo as memórias positivas do passado são agridoces. Há uma incrível riqueza e bem-aventurança sobre essas memórias, mas igualmente a tristeza também se faz sentir, sabendo que esses acontecimentos estão associados a um determinado momento da sua vida e que você  nunca terá essas experiências novamente.

Em última análise, a recompensa emocional pode compensar a dor e dificuldade da adversidade. Esta perspectiva não anula o que aconteceu, mas coloca tudo isso num contexto diferente: que é possível viver uma vida extremamente gratificante, mesmo dentro das limitações e das lutas que enfrentamos. De uma forma ou de outra,  todos nós acabamos por passar por esta transformação e realização. Você não vai ser a pessoa que você pensou que fosse, mas pode adaptar-se da forma como acha que deve e acabar por ter uma vida bem conseguida.

A EXPERIÊNCIA DE FELICIDADE É UMA CONSTRUÇÃO E INTERPRETAÇÃO

Inevitavelmente, mais tarde ou mais cedo a vida encarrega-se de confrontar-nos com a as suas adversidades, com o outro lado da conquista, do desafio, do êxtase, da alegria e satisfação. O lado oculto da felicidade tem as raízes no sofrimento, na derrota, na perda, na dificuldade, na injustiça, na tristeza e angústia de tudo o que nos faz sofrer e mudar crenças. Somos levados a retirar significado das coisas mais banais, das coisas às quais nunca tínhamos dado importância. Mas esta é uma condição da vida, viver a nossa própria experiência. Por muito que possamos aprender a observar os outros, ou com aquilo que nos dizem, há experiências que têm de ser vividas, sentidas, têm que fazer parte de nós para que possamos retirar a “riqueza” inerente ao acontecimento, versus, a nossa interpretação.

Opinião: A felicidade é forjada, é construída na intrepretação das coisas da vida, sem necessariamente serem em si boas ou más.

E VOCÊ, JÁ EXPERIMENTOU O LADO OCULTO DA FELICIDADE?

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