Nesta segunda parte sobre o esclarecimento dos equívocos acerca da depressão, tentarei desmistificar o facto de grande parte dos profissionais de saúde abordarem a questão do tratamento, numa perspetiva passiva e de vitima por parte da pessoa. Tal como já referi noutros artigos, a depressão está muito mais relacionada com a forma como a pessoa afectada encara a vida e, consequentemente como reage, age e pensa perante os problemas, do que propriamente a ver com um desequilíbrio químico no cérebro.

A DEPRESSÃO É DIFERENTE DE TRISTEZA

A verdadeira depressão pode surgir de várias maneiras, e têm muitos fatores subjacentes. A depressão não é o mesmo que ficar triste ou angustiado algumas semanas, porque se chateou com um amigo ou fica zangado consigo mesmo porque alguém teve a promoção que você deixou fugir. É perfeitamente natural e até saudável ter algumas reações negativas a esse tipos de experiências, mas se você consegue continuar com a sua vida diária e sentir-se bem acerca de outras coisas ou noutras áreas da sua vida, você não está deprimido.

A apresentação clínica da depressão é muito variada, e caracteriza-se  por um conjunto de sintomas que interferem com a capacidade de trabalhar, estudar, comer, dormir, divertir-se. Mas, alguns sintomas da depressão são mais significativos para a confirmação do diagnóstico e necessariamente devem estar presentes: humor deprimido ou perda de interesse ou prazer. Estes sintomas predominam a maior parte do dia, na maior parte dos dias, no mínimo durante duas semanas, infligindo sofrimento ou limitação significativa no funcionamento geral da pessoa.

Caracteristicamente a pessoa deprimida apresenta sentimentos persistentes de tristeza, ansiedade, angústia ou vazio, desânimo, desesperança, cansaço e perda de energia, melancolia, crises frequentes de choro sem causa aparente, diminuição da capacidade de sentir prazer e interesse em atividades que anteriormente gostava e tinha prazer, inclusive o sexo, hobbies e rotinas diárias, insónia, diminuição do apetite e do peso, pensamentos lentificados, diminuição da memória e concentração, atividades físicas mais lentas, dificuldade em tomar decisões, sentimentos de culpa ou fracasso, sentimentos de inferioridade e pena de si próprio, desvalorização, persistência de pensamentos negativos e depreciativos, pessimismo, isolamento, irritabilidade ou impaciência e inquietação.

Com menos frequência aparecem dificuldade ou incapacidade para chorar, aumento do apetite, sonolência excessiva. Há também dificuldade para iniciar tarefas e para terminar o que começou, preocupação com a morte, pensar que a vida não vale a pena, desejo de morrer, sensação de que nunca vai melhorar, queixas frequentes de dores no corpo, desconforto no peito, alterações digestivas. São ainda comuns alterações dos sintomas com períodos de piora e melhora criando a falsa sensação de recuperação.

Outra aspeto a considerar sobre a depressão é que, se não for tratada, pode causar a deterioração perigosa da saúde emocional e física da pessoa deprimida. A depressão normalmente começa como algo “esquisito”, a pessoa pode apenas sentir-se mentalmente confusa e ter pouca energia física. Nesta fase, uma pessoa que tenha pouca informação sobre a depressão pode até pensar que está constipada ou com gripe, ou que apenas precisa de uma pausa na sua rotina normal.

CRITÉRIOS DE DIAGNÓSTICO PARA A DEPRESSÃO

Para o diagnóstico adequado da depressão são usados os critérios definidos no DSM-IV (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais 4ªEd.) da American Psychiatric Association (APA).

Critérios diagnósticos para Transtorno Depressivo Maior DSM-IV (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais 4ª Ed.) – APA:

A. No mínimo cinco dos seguintes sintomas têm de estar presentes durante o mesmo período de duas semanas e representam uma alteração a partir do funcionamento anterior; pelo menos um dos sintomas é (1) humor deprimido ou (2) perda do interesse ou prazer.

(1) humor deprimido na maior parte do dia, quase todos os dias indicado por relato subjetivo (p. ex., sente-se triste ou vazio) ou observação feita por terceiros (p. ex., chora muito). Em crianças e adolescentes, pode ser humor irritável.

(2) acentuada diminuição do interesse ou prazer em todas ou quase todas as atividades na maior parte do dia, quase todos os dias (indicado por relato subjetivo ou observação feita por terceiros).

(3) perda ou ganho significativo de peso sem estar em dieta (p.ex., mais de 5% do peso corporal em 1 mês), ou diminuição ou aumento do apetite quase todos os dias.

(4) insónia ou hipersonia quase todos os dias.

(5) Agitação ou retardo psicomotor quase todos os dias (observáveis por outros, não meramente sensações subjetivas de inquietação ou de estar mais lento).

(6) Fadiga ou perda de energia quase todos os dias.

(7) Sentimento de inutilidade ou culpa excessiva ou inadequada (que pode ser delirante), quase todos os dias (não meramente auto-recriminação ou culpa por estar doente).

(8) Capacidade diminuída de pensar ou concentrar-se, ou indecisão, quase todos os dias (por relato subjetivo ou observação feita por outros).

(9) Pensamentos de morte recorrentes (não apenas medo de morrer), ideação suicida recorrente sem um plano específico, tentativa de suicídio ou plano específico para cometer suicídio.

B. Os sintomas não satisfazem os critérios para um Episódio Misto.

C. Os sintomas causam sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social ou ocupacional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo.

D. Os sintomas não se devem aos efeitos fisiológicos diretos de uma substância (p. ex., droga de abuso ou medicamento) ou de uma condição médica geral (p. ex., hipotireoidismo).

E. Os sintomas não são mais bem explicados por luto, ou seja, após a perda de um ente querido, os sintomas persistem por mais de dois meses ou são caracterizados por acentuado prejuízo funcional, preocupação mórbida com desvalia, ideação suicida, sintomas psicóticos ou retardo psicomotor.

A Depressão é um transtorno de humor que se repete, isto é, que recorre, com frequência. Os episódios depressivos duram algumas semanas ou meses alternando com períodos, longos ou curtos, de humor normal. Mas num grande número de casos, aproximadamente 20%, é contínua, segue um curso crónico sem intervalos de melhora, principalmente quando não é tratada de forma adequada .

PROCURAR ESCLARECIMENTO E AJUDA

Independentemente do género (sexo), muitas pessoas não reconhecem os sintomas de depressão ou não consideram que seja um transtorno clínico. De acordo com as estatísticas, o que se verifica é que muitas pessoas não procuram tratamento, ou quando procuram estão num estado já bastante avançado. Algumas pessoas afetadas pela depressão não reconhecem que se encontram num estado disfuncional e que necessitam de tratamento, sendo que algumas não acreditam existir um tratamento que lhes resolva o problema. Pode ser muito difícil ajudar alguém que não reconhece ter um desequilibro emocional e humor diminuído.

Um sinal claro do problema, é que a pessoa está a tornar-se socialmente isolada. Isso é algo que precisa ser revertido o mais rapidamente possível, porque as pessoas começam a ser cada vez mais esquivas, ficam cada vez mais isoladas.

É importante confrontar  a pessoa (ou confrontar-se a si mesmo!) que apresenta sintomas de depressão e tentar levá-las a conversar com um profissional, para que possam receber tratamento adequado. Um dos maiores equívocos sobre a depressão é que os antidepressivos só por si resolvem e tratam o seu problema. Podem na verdade, numa primeira fase ajudar e incrementar algum impulso para a acção, no entanto é importante perceber que a medicação não muda a forma da pessoa pensar, nem tão pouco faz com que a pessoa aprenda algumas competências para lidar com determinadas situações da sua vida. Uma pessoa que está deprimida pode precisar fazer mudanças no seu estilo de vida. Alerto para o facto, de este ser um problema inerente ao próprio estado deprimido, dado que muitas vezes as pessoas são incapazes de motivar-se para fazer essas alterações necessárias e muito importantes para a superação da depressão.

depressão

Apresento em seguida as cinco grandes áreas em que as pessoas “vivem” a espiral negativa da depressão:

SENTIMENTOS

A depressão na grande maioria das vezes desencadeia uma tristeza profunda, angustia e irritabilidade, mas de uma forma mais incapacitante que as experiências emocionais usuais. Por vezes os sentimentos parecem surgir do nada, especialmente o choro, quando parece não existir nada pelo qual chorar. A depressão também envolve um sentimento de desprendimento e constrição. Quando uma pessoa deprimida sente emoções positivas, elas são normalmente silenciadas ou inibidas. Isto refere-se à anedonia, que literalmente quer dizer, “incapacidade para sentir prazer”. Quando as emoções negativas se fazem sentir, elas chegam rapidamente e em grande força. Esta cascata emocional drena grande parte da energia da pessoa deprimida. Algumas pessoas referem-se à sua depressão da seguinte forma:

“Eu sinto-me como se estivesse a viver num quarto escuro, como se as coisas se movimentassem à minha volta como sombras.”

SENSAÇÕES

A depressão também produz uma variedade de sintomas físicos desagradáveis, como dores abdominais, dores no peito, dores de cabeça, e tantas outras dores e desconforto físico. Os padrões de respiração têm tendência a diminuir, passando a existir um decréscimo de oxigénio no sangue, por esta razão a concentração e o foco atencional podem ser afectados. A tensão aumenta, o que provoca um aumento na inquietação, particularmente à noite. A fadiga é comum, tendo como resultado uma diminuição na vontade para a atividade física, originando mais problemas musculares e dores. A depressão está ainda relacionada com o aumento do risco para a saúde e doença, provocando um impacto negativo na resistência do sistema imunitário. As pessoas deprimidas tendem a ver-se a si mesmo como “doentes” numa perspetiva geral.

PENSAMENTOS

Todos nós temos uma tendência natural para pensar de forma negativa e de forma exagerada sobre alguns assuntos, verificando-se isso na forma de preocupação, mesmo quando não estamos deprimidos. Claro que o rácio dos pensamentos negativos em relação aos positivos aumenta ainda mais quando temos depressão. O pensamento deprimido é caracterizado por  pensamentos do tipo “preto ou branco” e perfeccionista. Os pensamentos auto-críticos são comuns, tais como: “eu sou um desgraçado”, ou “Eu sou um derrotado”, ou “Nada me sai bem”, ou “Não tenho sorte nenhuma”. O pensamento e raciocínio está normalmente focado nos fracassos e desapontamentos que aconteceram no passado, gerando sentimentos de culpa e de vergonha. Num estado deprimido, as pessoas passam grande parte do seu tempo a rever os erros do passado, culpabilizando-se por a vida não lhes estar a acontecer como desejavam, e imaginado resultados catastróficos no futuro.

Um outro tipo de pensamento muito usual nas pessoas com depressão é a ruminação sobre o facto de se sentirem deprimidas, tendo pensamentos recorrentes do tipo: “O que está errado comigo?” ou “Porque é que não posso ser feliz como as outras pessoas?”. Este tipo de pensamentos alimenta ainda mais a espiral negativa da depressão.

MEMÓRIAS

As pessoas deprimidas gastam imenso tempo relembrando acontecimentos passados, especialmente aqueles que fazem disparar sentimentos incapacitantes e angustiantes. As memórias relembradas seguem uma direção negativa. Por exemplo, as pessoas com depressão tendem a recuperar os acontecimentos negativos mais facilmente do que os acontecimentos positivos. São accionadas um conjunto de redes neuronais associadas às situações negativas marcantes, podemos dizer que a pessoa deprimida tem uma tendência para pensar de forma catastrófica. A memória sofre influência dos estados negativos em que a pessoa se encontra, contribuindo desta forma para a construção de um ciclo negativos de pensamentos distorcidos.

Por exemplo: Uma pessoa é capaz de recordar os momentos mais traumáticos da sua infância, podendo qualificar a sua infância como terrível. Seletivamente as pessoas deprimidas relembram-se da grande maioria dos acontecimentos negativos.

COMPORTAMENTOS

A depressão afeta os padrões de comportamento diários e é afetada igualmente por eles. As pessoas deprimidas têm um forte impulso para enveredar por um excessivo conjunto de determinados comportamentos disfuncionais, tais como comer, dormir e consumir álcool em excesso, negligenciando alguns comportamentos mais saudáveis, como o exercício físico, atividades de lazer, ou passar tempo com os amigos e família. Têm ainda uma propensão para passar mais tempo “dentro das sua cabeças” e consequentemente afastam-se das outras pessoas e das atividade que exigem acção física e necessidade de atenção e concentração. Isto acontece principalmente por dois motivos, primeiro pela ausência quase total de prazer, e segundo porque muitos dos comportamentos são efectuados (ou não são efectuados) para preservar a pouco energia que resta.

Não enveredar por comportamentos positivos e construtivos devido à falta de energia é um problema central no tratamento da depressão, porque aumenta os próprios problemas inerentes à depressão. À medida que a pessoa fica menos ativa, o corpo naturalmente produz menos energia e fica mais fraco e com menos capacidade de resposta, levando a um ciclo de feedback negativo.

RESUMINDO

Ajudar alguém com depressão pode às vezes ser difícil, porém um pouco de educação e esclarecimento sobre o assunto pode fazer uma enorme diferença. O tratamento pode envolver coisas tais como a prática do exercício físico, toma de antidepressivos (se necessário e sempre em paralelo com terapia psicológica), terapia social, terapia psicológica, alimentação adequada, mudanças de estilo de vida, ou uma combinação. A coisa mais importante no tratamento da depressão é, não só reconhecer os sintomas, mas também  reconhecer que a depressão é distintamente diferente de tristeza, abatimento ou desmotivação.

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Na terceira parte deste artigo, irei descrever os seis principais mitos/equívocos acerca da depressão. Fique atento.

Abraço