Quando os pensamentos negativos nos invadem a mente, quando queremos fazer uma coisa e acabamos fazendo outra, ou quando queremos deixar de nos preocupar sobre determinado assunto, conseguir ter controle sobre a mente seria o melhor que nos poderia acontecer. Provavelmente é um desejo que pontualmente lhe passa pela mente. Quero dizer-lhe que até determinado ponto isso pode ser possível. Com disciplina e treino sobre a capacidade de foco, de atenção e de decisão sobre que pensamentos criar na mente é possível vir a ser mestre de você mesmo. Saber direcionar a atenção para onde ela mais importa estar, é o caminho que permite alcançar autodomínio, confiança e conhecimento sobre você mesmo.

Em seguida apresento seis passos que descrevem estratégias que permitem ajudá-lo a melhorar a sua autodisciplina e controle sobre os seus próprios pensamentos:

PASSO 1: OUÇA E RECONHEÇA

Por vezes as mensagens que a nossa mente emite para nós mesmos podem ser cortantes, desagradáveis e penosas. É no exato momento que você ganha consciência dessas mensagens que pode fazer algo de positivo, revertendo-as. Assim sendo, é importante que não as considere como uma crítica negativa ou como uma forma de mandar-se abaixo ou punir-se. Em seguida, deve aceitar essa voz silenciosa, e interpretá-la como informação, como uma chamada de atenção, que pode dizer-lhe: “Atenção as coisas não estão a correr como pretendido.” Sinta-se grato pela sua mente estar a contribuir com informação que pode impedi-lo de fazer alguma asneira. Por exemplo, “Obrigado, ainda bem que a minha mente me deu um alerta, lembrando-me que se eu não conseguir fazer mais vendas, posso ser demitido.” Ou “Obrigado por me dizeres que se eu continuar a ter a mesma atitude posso ficar para sempre sozinho e nunca encontrar o amor e ter uma família“.

Com o tipo de mensagens que a mente envia para a nossa consciência, se percebermos que isso é informação em forma de incómodo e de alerta, podemos passar à ação, e fazer algo que permita aumentar a probabilidade de sermos bem sucedidos. Saber ouvir e reconhecer as preocupações momentâneas da própria mente, é um passo importante para ficar ciente acerca dos assuntos para onde deveremos dirigir a nossa atenção.

PASSO 2: FAÇA AS PAZES COM A SUA MENTE

Você pode não gostar de algumas mensagens que a sua mente cria ou da forma que isso influencia as suas ações. Na verdade, toda a negatividade pode ser francamente irritante, às vezes. Mas o fato é, que a sua mente faz parte de você, você está preso a ela, e não pode eliminá-la (e ainda bem). Os pensamentos negativos irão sempre aparecer na sua mente. No entanto, você pode abandonar o seu diálogo autocrítico que promove a negatividade. Aprofundei este assunto no artigo: Capacite-se e desafie o seu diálogo interno autocrítico. Ou seja, ter pensamentos negativos não tem necessariamente de conduzir-nos à negatividade. Aprofundei este assunto no artigo: Abandone a negatividade, acabe com o diálogo autocrítico.

Aceitar que os pensamentos e sentimentos negativos se irão fazer notar, e que não conseguimos impedir que nos apareçam na mente e no corpo, permite-nos fazer as pazes com a nossa mente. Assimilar e levar em consideração este conceito  impele-nos a focar a nossa atenção nas ações que nos permitem aproximar-nos dos objetivos pretendidos, sem que se desenvolvam conflitos internos.

A reter: Não temos necessariamente que gostar dos pensamentos negativos ou concordar com eles, apenas temos que tomar a decisão de temporariamente prestar-lhes atenção, para depois dirigimos o foco para outros pensamentos ou ações que nos sirvam de forma construtiva.

mindfulness

PASSO 3: ENTENDA QUE OS SEUS PENSAMENTOS SÃO APENAS PENSAMENTOS

Não conseguimos ver a nossa mente. Como tal, também não conseguimos ver a grande maioria dos nossos pensamentos. Mas, na grande maioria das vezes pensamos que somos os nossos pensamentos, unimo-nos e fundimo-nos a eles. Nesse exato momento, ao dar-se a fusão, caso os pensamentos sejam negativos, depreciativos e incapacitantes, podemos criar um problema a nós mesmos. Num estado de fusão com os pensamentos e sentimentos, dá-se a unificação, e passamos a aceitar esses mesmos pensamentos ou sentimentos como uma verdade absoluta, como sendo nós mesmos.

Por exemplo: “Eu estou pensando que sou um fracasso e chato, caramba, eu devo ser um fracasso e chato.”

Este tipo de lógica simplista parece prevalecer, porque não podemos ver as nossas próprias mentes, por isso temos dificuldade em desapegar-nos dos nossos pensamentos (ficar fora de nós mesmos) e obter uma perspetiva objetiva do ponto de vista do observador.

Na realidade, os nossos pensamentos são eventos mentais, influenciados pelos nossos humores, sensações de fome ou de cansaço, saúde física, hormonas, o sexo, o clima, o que assistimos na TV ontem à noite, o que comemos ao jantar, o que aprendemos como crianças, e assim por diante. Eles são como hábitos mentais. E, como todos os hábitos, os nossos pensamentos podem ser saudáveis ou não, servir-nos ou não, facilitar-nos a vida ou não. Assim, como não podemos levantar-nos do sofá e, sem treino irmos de imediato correr uma maratona, também não podemos magicamente desligar os nossos padrões mentais de pensamentos negativos, sem prática repetida e esforço considerável.

Para aprofundar o assunto, leia: Como implementar o pensamento positivo na sua vida?

PASSO 4: OBSERVE A SUA PRÓPRIA MENTE

O ditado “Conhece o teu inimigo.” também é aplicável na nossa relação com a nossa própria mente. Assim como um bom líder gasta algum do seu tempo visitando os vários departamentos, para conhecer os funcionários, também nós temos de dedicar tempo para conhecer como a nossa mente trabalha na nossa relação com a vida. Chame isso de plena consciência, meditação, ou tempo de silêncio. O tempo gasto  na observação da sua mente é tão importante quanto o tempo dedicado ao exercício físico. Por exemplo, quando você tenta focar a sua atenção no ritmo da sua respiração, ou sobre as árvores e flores quando você caminha na natureza, consegue fazê-lo sem distrações? Se sim ótimo, está no bom caminho para conseguir observar os seus próprios pensamentos e consequentemente distanciar-se deles. Ou pelo contrário, quando você tenta focar a sua atenção em algo, a sua mente vagueia por todo o lado, provavelmente trazendo preocupações antigas ou problemas não resolvidos? Neste caso, se não for controlada, pode levá-lo para fora da tranquilidade do momento presente, numa espiral de preocupação, medo e julgamento.

A prática da mindfulness (atenção plena) envolve não apenas perceber para onde a sua mente vai quando divaga, mas também trazê-la suavemente de volta para o foco na respiração, no ato de comer, andar, amar, ou de trabalho. Quando você faz isso várias vezes ao longo dos dias ou meses, você começa a treinar a sua capacidade de dirigir a sua atenção de forma intencional para onde quer. Com a melhoria deste processo você começa a saber quando a sua mente está a emitir pensamentos prejudiciais, guiando-a posteriormente de acordo com a sua intenção. Quando você evolui na observação dos seus pensamentos, e consequentemente dos seus estados internos, fica preparado para regulá-los até ao ponto de equilibrio necessário para gerar outros pensamentos que melhor se adequem aos objetivos pretendidos.

Esclarecimento: Praticar a mindfulness (atenção plena) significa prestar atenção mais cuidada de uma forma particular. É a habilidade de tomarmos consciência de estarmos no momento presente. No estado de atenção plena temos a noção do que acontece exteriormente a nós, e também no nosso interior. Os estímulos chegam-nos através de um expectro alargado de inputs, olhos, ouvidos, nariz, língua, corpo, até a nossa própria mente. No estado de atenção plena, ficamos cientes daquilo que estamos a receber através da nossa capacidade de ver, ouvir, cheirar, provar, sentir, ou pensar, está acontecendo no presente, no momento presente.

PASSO 5: TREINE A MENTE PARA ESTRUTURAR NOVAS LIGAÇÕES NEURONAIS 

Há um velho e sábio ditado: “Nós somos o que fazemos repetidamente.” No seguimento deste raciocínio, eu gostaria de acrescentar “Nós tornamo-nos naquilo que repetidamente pensamos.” Ao longo do tempo, os nossos padrões de pensamento vão ficando gravados no nosso cérebro, mais propriamente nos bilhões de neurónios, conectando-se juntos, em padrões único que se enraízam. Quando certos caminhos cerebrais (conexões neuronais) entre diferentes componentes ou ideias, quando frequentemente repetidos, os neurónios começam a “disparar” transmitindo informações numa rápida sequência, interligado-se uns com os outros. Uma vez que um primeiro pensamento seja iniciado, toda a sequência é ativada.

O piloto automático é ótimo para dirigir um carro, mas não tão bom para o ótimo funcionamento emocional. Por exemplo, você pode ter profundos medos de se aproximar de pessoas, porque poderá ter sido maltratado quando criança. Para aprender a amar, é preciso tomar consciência de toda a sequência negativa e como ela deturpou as suas percepções, rotular essas reações como pertencentes ao passado, e reorientar a sua mente  na experiência do momento presente.

Aprofundei este assunto no artigo: Como dar um novo significado aos acontecimentos passados?

Com o tempo, você pode começar a mudar alguns dos seus padrões mentais negativos, através de uma elevada intenção consciente, ativando o córtex pré-frontal (o centro executivo, responsável pelo estabelecimento de metas, planejamento e execução das mesmas), que é capaz de influenciar os seus comportamentos e atitudes quando orientados pelos pensamentos positivos e construtivos escolhidos por você. Desta forma, a técnica é identificar os seus pensamentos, ficar ciente deles, perceber que não é os seus pensamentos, praticando o distanciamento e desapego, para que consiga posteriormente direcionar a sua atenção para outros pensamentos, atividades ou ações com o objetivo de restabelecer o equilíbrio emocional e autodomínio.

A saber: A capacidade de separar-se dos seus pensamentos negativos, perceber que pode criar outros de acordo com os seus objetivos, dirigindo a sua atenção intencionalmente de forma a promover os comportamentos e atitudes positivas e construtivas, beneficia a autodisciplina, colocando-o no caminho da mestria.

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PASSO 6: PRATIQUE A AUTOCOMPAIXÃO

A autocompaixão não tem propriamente a ver com ter pena de nós mesmos. O frase que melhor descreve este conceito é:  “uma maneira mais saudável de relacionar-se consigo mesmo.” E isso é exatamente o que é. Como tenho vindo a explicar, é realmente necessário muita dedicação, esforço e treino para mudar pensamentos. E, não podemos evitar ter determinados pensamentos e sentimentos, quando estes surgem. Mas podemos mudar o modo como reagimos a esses pensamento e sentimentos. A grande maioria de nós fomos ensinados que alguns dos nossos sentimentos são sinais de fraqueza, que devem ser escondidos dos outros a qualquer custo. Esse tipo de conceito está absolutamente errado. Alguns autores, como o Dr. Brene Brown, fornecem-nos um convincente argumento baseado na investigação, que nos diz que expressar a nossa vulnerabilidade pode ser uma fonte de força e confiança, se devidamente gerida.

A vulnerabilidade soa como verdade e sente-se como coragem. Verdade e coragem não são sempre confortáveis, mas elas nunca são fraqueza. - Bréne Brown

Quando julgamos os nossos sentimentos, perdemos o contato com os benefícios desses sentimentos. Como referi anteriormente,  os pensamentos e sentimentos negativos são valiosas fontes de informação sobre as nossas reacções aos acontecimentos nas nossas vidas, e eles podem dizer-nos o que é mais significativo e importante para nós.  por exemplo, algumas emoções desagradáveis são sinais que nos dizem para alcançar conforto ou que devemos tirar um tempo para descansar e repor a nossa energia. Ao invés de criticar a nós mesmos, podemos aprender novas formas de apoiar-nos no nosso sofrimento. Falei deste assunto, no artigo: A verdadeira força está em compreender e aceitar a dor emocional.

Nos momentos de aflição, angustia, desesperança, que nos fazem despoletar apreciações negativas acerca da nossa vida e provavelmente de nós mesmos, é importante relembrar-nos que nós somos seres humanos sensíveis. E, que essa sensibilidade se expressa através dos sentimentos negativos, que consequentemente, caso não consigamos fazer o exercício de desapego, conduzem-nos a pensamentos incapacitantes. Com este conhecimento em mente, importa levá-lo em consideração e relembrar a nós mesmos que somos humanos, e como tal, sentimos a vida, nos bons e nos maus momentos. Apoie-se a você mesmo. Aguente firme o seu desespero, sem autodepreciações.  Invista em si mesmo, seja o seu maior aliado. Seja compassivo com a sua dor, dificuldades e angústias.

Aprofundei este assunto, no artigo: 007, permissão para ser humano.

Podemos deliberadamente procurar experiências internas e externas que nos trazem alegria e conforto, as memórias de momentos felizes com as pessoas que amamos, a beleza da natureza, autoexpressão criativa. Esses recursos podem ajudar-nos a navegar os sentimentos difíceis enquanto permanecemos focados no presente.

 Abraço