Existe uma revolução a tomar forma no treino esportivo, e você está convidado a participar. Quando se trata de fazer o seu melhor, são os pensamentos que mais contam. Quando você corre, ou faz qualquer outra actividade de resistência, a sua mente pode ser o seu maior trunfo ou o seu pior inimigo. Dedicar-se ao treino para atingir a sua melhor performance não se resume apenas à condição física: o seu estado mental, particularmente, os pensamentos que percorrem a sua mente podem afectar a forma como se sente durante o exercício. É normal para os atletas planejarem a sua estratégia de corrida até ao mais ínfimo detalhe. Mas quantos são os que sistematicamente planejam aquilo que devem pensar durante o treino ou competição?

Se ainda não leu os outros artigos que escrevemos sobre a Preparação Mental nos Esportes, ou caso seja um esportista de uma outra área, considere fazê-lo. Eis alguns dos artigos desta nossa série sobre Preparação Mental nos Esportes:

Na experiência que tenho de ter vindo a trabalhar na preparação mental de atletas, mais especificamente nas modalidades de Atletismo, Natação e Judo, posso dizer que o número de atletas que planejam os pensamentos que devem ter, assim como as estratégias mentais que devem accionar nas diferentes fazes da corrida ou do seu esforço, é surpreendentemente muito pequeno. Digo surpreendente porque, com a informação, estudos e relatos que existem sobre a importância da preparação mental para a melhoria do rendimento esportivo, poucos são os que tiram vantagem disso: que os pensamentos, estados emocionais, níveis de activação, mobilização, energia e relaxamento, entre outros, fazem certamente a diferença entre um bom resultado e uma má prestação.

Muitas da evidências científicas chegam-nos de estudos efectuados com corredores da maratona. Os neurocientistas demonstraram que estes atletas têm milhares de pensamentos que lhes percorrem a mente enquanto treinam e competem. Os atletas passam uma grande percentagem do seu tempo a ter pensamentos relacionados com o seu desporto, mas grande parte deles são aleatórios e não planejados, o que inevitavelmente pode ser prejudicial.

Que tipo de desafios se apresentam aos atletas das modalidades de resistência?

No caso de uma disciplina como a maratona, o desafio principal é manter uma mente forte e em controlo quando o corpo começa a ceder e a dificuldade de manter o ritmo aumenta. Em determinada altura de uma corrida, seja ciclismo, natação, meio-fundo ou fundo no atletismo, todos os atletas passam por momentos em que o corpo começa a ceder ao ritmo imposto. O corpo começa a enviar ao cérebro estímulos de mal-estar, de dor e incapacidade, “Estás no teu limite, abranda”. Se a mente aceita esta mensagem, então o atleta irá abrandar ou mesmo parar, não cumprindo com o seu objectivo. Mas se você tivesse a garantia que a sua mente era capaz de resistir a essa mensagem e tomasse o controlo da situação, enviando uma mensagem no sentido inverso, “Continua, tu aguentas”. O corpo receberia um novo estímulo, com uma nova ordem de comando (assumindo que está em condições de continuar e tem capacidade para isso), conseguindo o atleta, desta forma atingir o seu resultado pretendido. Para aprofundar mais este assunto, pondere ler o artigo: As vantagens da auto-hipnose nos esportes.

Então o que se pode fazer para melhor sistematizar os pensamentos?

PASSO 1: ORGANIZAÇÃO DOS PENSAMENTOS DE FORMA INTENCIONAL

Da próxima vez que for treinar, tente ter consciência daquilo que está a pensar. Duas estratégias fundamentais emergiram no estudo dos melhores atletas.  A Associação, envolve o foco nas sensações corporais e na monitorização das alterações que possam ocorrer (normalmente de carácter interno). A respiração e as sensações musculares disponibilizam pistas fisiológicas que permitem ao atleta colocar-se antecipadamente num situação de evitar ou minimizar a dor e mal-estar físico. Por contraste a Dissociação, trata-se de retirar a atenção das sensações físicas de mal-estar e dor, através de uma forma de distracção com a intenção de reduzir a consciência que o atleta tem relativamente ao estado de fadiga e esforço. Existem algumas formas que podem ser utilizadas, tais como a música. No entanto, e dado que em competição não pode ser utilizado, o melhor mesmo é o atleta sistematizar algo que lhe sirva.

Apresento em seguida algumas sugestões para aplicação da dissociação:

  • Musica – pode servir (em treino) como um ótimo gerador de pensamentos positivos, melhorar os estados de humor e distrair o atleta da exigência da tarefa.
  • Jogo de contagem – pode dedicar-se à contagem de uma determinada cor de carros, postes de electricidade, de cães, etc. Coloque a sua imaginação a funcionar.
  • Alfabeto motivacional – Escreva o seu próprio alfabeto motivador de A a Z. Sempre que se sinta em dificuldade pode de forma imaginada lembrar-se das palavras ou frases que escolheu para si que o motivam, ou lhe lembram o objetivo daquele treino ou competição. Exemplo: A (Afirmativo); B (Bestial); C (Capaz); D (Duro); E (Efetivo); …entre outras.
  • Fantasia ativa – pode imaginar-se a construir uma casa, a escolher as mobílias, a decoração. Pode imaginar-se a ganhar a lotaria e decidir em que é que gastaria o seu dinheiro.

O atleta deverá evitar pensamentos relacionados com o seu trabalho, relações pessoais ou o quer que se apresente como problemático, pois isso pode aumentar a tensão muscular. Tente ser criativo e obter algum divertimento com a dissociação, é uma forma que o pode ajudar a relaxar e retirar ainda mais gozo da prática do seu esporte.

Apresento em seguida algumas sugestões para aplicação da associação que segue 3 etapas:

  • Foco na respiração. Controlar o ritmo da respiração é a chave para se conseguir um relaxamento adequado e compatível com o nível de esforço. Quando você expira, tente imaginar libertar toda a tensão no seu corpo.
  • Manutenção do relaxamento.Tente manter-se relaxado enquanto corre (nada ou pedala), mas mantenha uma relativa consciência da tensão e fadiga muscular. Uma forma que se comprovou útil é iniciar o processo de cima para baixo (cabeça > pés), fazendo um scan mental ao seu corpo, dando a cada grupo muscular um pouco da sua atenção. Se detetar tensão em excesso tente focar-se numa palavra “âncora”, tal como “descontrai” ou “solta-te” e tente deixar a tensão fluir para fora dos músculos.
  • Noção de capacidade. Mantenha o seu ritmo de acordo com as sensações obtidas da monitorização do seu corpo. Você pode por exemplo, aumentar o ritmo caso se sinta confortável.

Qual desta duas estratégias é mais eficaz?
Nenhuma é na verdade mais eficaz que outra, podem e devem ser aplicadas em diferentes situações e para diferentes objetivos. Vejamos:

  • De uma forma geral, a associação parece estar relacionada com tempos de corrida mais rápidos.
  • A dissociação pode reduzir a sensação de esforço e a consciência das sensações corporais desagradáveis como a fadiga e dor.
  • Atletas de diferentes níveis, parecem ser favorecidos pelo uso de associações em competição e dissociações em treino
  • Os atletas de elite tendem a usar ambas as estratégias durante os treinos e competições, dado que têm a habilidade para alternar entre as duas, sempre se se verifique necessário.

A melhor estratégia individual

Quanto tentar perceber que tipo de estratégia será melhor para você, é importante considerar a sua situação pessoal, preferências e objetivo. Por exemplo, em algumas situações de treino, treina-se a um ritmo mais reduzido e menos intenso que em competição, verificando-se que a monitorização das sensações corporais é menos essencial. Uma melhor estratégia para o treino poderá ser combater a monotonia e o aborrecimento, que para este caso a dissociação (com uma maior ativação mental) poderá ser mais benéfica. A dissociação também beneficiará mais os atletas que pretendem melhorar a sua resistência, tendo para esse fim que treinar durante períodos de tempo maiores e com uma intensidade mais moderada.

Distracção da mente

No entanto, como a dissociação funciona através da distracção da mente, caso um atleta queira definir um ritmo ideal para uma ótima performance, isto pode funcionar de forma pejorativa. A razão pela qual a associação se apresenta como sendo de extrema importância em competição é porque, através da monitorização das resposta corporais, o atleta pode conseguir gerir a linha ténue que existe entre puxar para um nível ótimo de performance ou exagerar. As associações envolvem a capacidade de conseguir colocar-se num estado de concentração tal, que permite reagir às mudanças que ocorrem no corpo. Focando-se nos estados internos, como o ritmo respiratório ideal, o atleta consegue rapidamente aferir as alterações de forma a compensar o esforço pretendido.

Combinação das estratégias

Alguns maratonistas de elite, combinam estas duas estratégias quando planeiam os seus pensamentos. Existem alturas, especialmente em competição, que o atleta necessita estar muito consciente do seu estado físico e das situações externas ao seu redor. No entanto, existem também momentos em que o atleta planifica intencionalmente “desligar-se” e dar a oportunidade de temporariamente afastar-se das exigências da competição ou treino. O melhor que o atleta pode fazer, é conjuntamente com o seu treinador construir um plano, que esteja de acordo com as suas características pessoas (físicas e mentais) e decidir qual a melhor abordagem a ter, escolhendo o que deve pensar em cada fase da corrida.

Por exemplo: Num treino de 30 minutos, pode decidir alternar entre as estratégias: 10 minutos de monitorização das sensações corporais, 10 minutos de alfabeto motivacional, e no final nova monitorização das sensações corporais. É tudo previamente estabelecido.  

Você não deixa ao acaso a preparação física, nem as estratégias a utilizar, porque razão permite que os seus pensamentos surjam de forma aleatória?


PASSO 2: APLICAÇÃO DAS ESTRATÉGIAS MENTAIS NA PRÁTICA

Existe um momento na corrida em que os atletas são confrontados com uma tomada de decisão importante. Existe um momento em que o atleta tem de enfrentar a dificuldade ou será consumido por ela. A linha de chegada parece estar ao seu alcance e o atleta pensa o quão bom será chegar ao fim, tomar um bom banho, uma boa comida e um bom descanso. É realmente tentador pensar em coisas agradáveis, desde que estas não retirem o objectivo que o atleta está prestes a enfrentar. Os últimos quilometros nunca são fáceis de lidar. Muitos são os que deitam tudo a perder nos momentos finais.

Declaração:

“Agora, estou a 5km do final. Isto é uma afirmação totalmente mental. Estou desejosa que termine. As minhas pernas estão muito pesadas  e parece que vão rebentar a cada passada. Eu continuo a dizer a mim mesma que a mente é o atleta e que o corpo simplesmente faz aquilo que a mente lhe diz para fazer. Usa a tua mente para te esqueceres das pernas. Como deve imaginar, eu repito para mim vezes sem conta durante vários quilómetros… Eu estava longe de desistir, mas eu estava um pouco em modo de sobrevivência. Eu foco-me na minha forma de correr. Eu coloco-me na minha forma de correr mais confortável, como se fosse a correr para casa. Eu centro-me no básico e digo para mim própria para simplesmente correr. A única razão pela qual consegui gerir a corrida e ficar em 6º lugar foi devido ao meu foco mental que o meu treinador implementou na minha alma. Caso contrário, eu teria ficado num dos pontos de abastecimento. Sim, o treino físico tem de ser rigoroso, mas quando o físico já está esgotado, tudo se resume a uma questão mental.” Lisa Bentley, pro triathlete

PASSO 3: CONTROLAR INTENCIONALMENTE AS DIFICULDADES

Existe uma relação entre a preparação física e mental e a capacidade de lidar com a dor. Durante os momentos críticos  em competição, os melhores atletas focam a sua atenção em aspectos específicos da sua performance. Por exemplo, os ciclistas focam-se  nos aspectos da mecânica da pedalada, e a forma como a estão a realizar no momento, a adopção ou manutenção de uma posição o mais aerodinâmica possível, a estratégia da corrida, o ciclista que vai na frente, a respiração e o controlo da mesma.

Dica: À medida que a dor aumenta, a melhor forma de lidar com esta é o ciclista focar-se nos aspectos da performance que o podem conduzir à meta nas melhores condições possíveis.

Mudança do foco atencional:

Durante a competição os atletas dos desportos de resistência como a corrida, natação e  ciclismo beneficiam  da aplicação  da variação  do seu foco atencional de acordo com as necessidades momentâneas da competição. Assim, pode existir um foco externo como a linha de meta, um adversário ou um foco interno como os aspectos da técnica já abordados (no exemplo do ciclista) ou nas estratégias de associação ou dissociação previamente planejadas.

No dia da competição e para retirar o maior benefício das suas capacidades físicas, o atleta beneficiará mais quanto melhor tiver previamente planejado determinado objetivo e quanto mais ciente do processo estiver. O atleta conseguirá assim gerir melhor os momentos críticos, como a dor ou a fadiga e dar um pouco mais de si mesmo. Por outro lado, o facto de o atleta se sentir preparado ou não para a competição influencia a forma como este percepciona a dor e a fadiga.

A reter: Quando o atleta se sente preparado mental e fisicamente para uma competição, a sua percepção de dor durante a mesma é menor.

COMO PODE O ATLETA LIDAR MELHOR COM A DOR E FADIGA?

Plano das estratégias mentais a utilizar. Uma  forma de lidar melhor com a dor, consiste em elaborar e/ou aderir a um plano para a corrida como já referi. Assim, quando o atleta tem objectivos específicos para e corrida ou treino e ou está a realizar algo previamente planejado com determinado objetivo e este está ciente do processo, o mesmo consegue lidar melhor com a dor e “dar um pouco mais de si mesmo”.

Ensaio mental da competição. Outra forma para melhorar a forma de lidar com a dor consiste em efectuar a visualização mental da corrida que o atleta vai fazer, antevendo entre outras coisas, o percurso a percorrer e possíveis sensações que poderão ocorrer durante a competição.

Auto-verbalizações positivas. O atleta fala consigo mesmo de forma positiva (ex: Eu treinei para isto. Eu estou preparado. Ficará mais fácil em breve. Vou conseguir, tenho de me focar na minha técnica. Eu estou a sofrer, mas ainda assim consigo manter o meu ritmo.”

Vivenciar mentalmente a dor e/ou momentos difíceis. O atleta deverá em treino visualizar episódios de dor (em determinadas fazes da competição) e simular estratégias de lidar com a situação (auto-verbalizações, dissociações, associações, alfabeto motivacional, foco na respiração, foco no relaxamento). Estes resultados positivos traduzem-se em recompensas que podem vir de várias formas, vencendo a corrida, atingindo a satisfação de ter cumprindo determinado objectivo, etc.

CURIOSIDADES ÚTEIS

A percepção da dor, nos atletas dos desportos de resistência, encontra-se relacionada com a performance desportiva e com a percepção dos mesmos dessa performance. Sabe-se que mesmo que todas as variáveis físicas sejam iguais (pulsação, potência mecânica, condição física, etc), a percepção de esforço varia de acordo com a situação de corrida. A posição na corrida, é frequentemente uma determinante na percepção da dor (quando um atleta vai na frente, a percepção de dor é menor, pelo contrário se o atleta vai atrasado em relação ao pelotão, a percepção de dor é maior). Desta forma os atletas beneficiam de saber que a sua percepção de capacidade e do seu estado de fadiga ou intensidade de dor tem muito de mental (está fortemente dependente de várias interpretações subjectivas feitas por si próprio). Com este informação em mente, o atleta pode desenvolver a capacidade de reinterpretar as situações a seu favor e produzir os seus próprios estímulos de percepção através da implementação de pensamentos capacitadores.

As técnicas para produzir estes estímulos intencionais de capacidade e de combate à dor ou aos momentos críticos em competição, são todas as anteriormente descritas:

  • Associações
  • Dissociações
  • Alfabeto motivacional
  • Jogo de contagem
  • Fantasia ativa
  • Foco na respiração
  • Manutenção do relaxamento
  • Noção de capacidade
  • Plano das estratégias mentais a utilizar
  • Ensaio mental da competição
  • Auto-verbalizações positivas
  • Vivenciar mentalmente a dor e/ou momentos difíceis

RESUMINDO

podemos dizer que os atletas encaram a dor em treino e competição como algo necessário a que têm de se submeter. Os mesmos convivem com a dor de uma forma consciente, assumindo e aceitando-a ao invés de a tentarem ignorar. A dor deve ser vista pelos atletas como algo necessário e de curto prazo, ou seja algo com uma duração temporal muito limitada. A psicologia esportiva tem ao seu dispor algumas estratégias mentais como o planejamento mental, a visualização, as auto-verbalizações, entre outras, que ajudam a potenciar o treino físico, lidar com a dor, com momentos críticos, com o controlo emocional, ajudando a que os atletas se sintam melhor preparados para a competição.

E VOCÊ, QUE TIPO DE ESTRATÉGIAS MENTAIS UTILIZA PARA POTENCIAR O RENDIMENTO OU SUPERAR-SE?

Deixe os seus comentários e ideias para estratégias mentais nos esportes de resistência. A sua participação é importante para nós! Bons treinos e boa preparação mental.

Abraço