Análise ao livro: The Emperor´s New Drugs do autor Irving Kirsch. Kirsch é um especialista em estatística e na metodologia de ensaios clínicos. Em The Emperor’s New Drugs, ele desmistifica completamente o caso dos antidepressivos como tratamento farmacológico eficaz. O assunto fundamental do livro é uma análise cuidadosa de uma vasta base de dados da empresa farmacêutica usando o Freedom of Information Act, Kirsch conseguiu obter os dados que as empresas farmacêuticas tinham enviado à FDA (U.S. Food and Drug Administration) no processo de obtenção dos seus medicamentos aprovados.

Kirsch reporta que comprimidos de açúcar são tão eficazes quanto os antidepressivos e que, durante muitos anos algumas companhias farmacêuticas retiveram essa informação. Além disso, estes placebos não têm necessariamente que ser comprimidos de açúcar, mesmo hormonas sintéticas da tiróide, disfarçadas como um antidepressivo, ajudaram a aliviar a depressão em indivíduos sem problemas de tiróide. Kirsch revela algumas práticas repugnantes das empresas farmacêuticas. Ele relata que as companhias frequentemente manipulam os dados científicos, retendo a publicação de resultados negativos e publicando os dados positivos várias vezes. Por exemplo, na década de 1990 a empresa GSK (Glaxo SmithKline), realizou várias experiências sobre a eficácia do antidepressivo Paxil, concluindo que a droga não era mais eficaz do que um placebo. Os testes também revelaram alguns efeitos secundários perigosos, incluindo um possível aumento do risco de suicídio. A GSK, no entanto, decidiu não divulgar a maioria dos dados negativos para o público. Quando esse comportamento negligente foi descoberto mais tarde, a empresa foi processada pelo procurador-geral de Nova York. A empresa foi obrigada a tornar todos os dados públicos.

ALGUNS DOS PONTOS-CHAVE DO LIVRO INCLUEM:

  • 1) Quase todas as vantagens dos antidepressivos podem ser atribuídas ao efeito placebo. Quando todos os dados foram analisados, Kirsch chegou à conclusão que os antidepressivos comuns são pouco mais eficazes que os comprimidos de açúcar. Mais de metade dos ensaios clínicos patrocinados por empresas farmacêuticas não mostraram diferença significativa entre a droga e o placebo. O que importa reter, é que o benefício da medicação sobre o placebo não é clinicamente significativo. A vantagem global da droga ascende a 1,8 pontos na escala de 54 pontos utilizada para avaliar a gravidade da depressão (por meio de perguntas sobre o humor, hábitos de sono, e assim por diante), não sendo assim clinicamente relevante.
  • 2) Quando os antidepressivos são mais eficazes que os placebos em ensaios clínicos, é na verdade uma outra versão do efeito placebo. Enquanto os ensaios clínicos devem ser duplamente-cegos (nem o paciente sabe que está a tomar drogas, nem o avaliador sabe se está a administrar drogas ou placebos), os pacientes nos ensaios clínicos podem muitas vezes correctamente perceber que estão a tomar a droga de investigação, porque experimentam efeitos secundários pronunciados, e ao sentirem esses efeitos, ficam a saber que lhes está a ser administrada a droga, accionando assim o efeito placebo (“se eu tenho efeitos secundários, estou a tomar a droga, logo vou ficar melhor”). Ter conhecimento de que se está a tomar algo com potencial de cura aumenta o efeito placebo.
  • 3) Companhias farmacêuticas e a FDA não estão a ser intelectualmente honestas. A grande maioria das companhias farmacêuticas, tem uma ampla liberdade no que diz respeito a que ensaios clínicos querem publicar e que dados querem incluir nas suas publicações. Isto é de extrema importância porque, muitos dos ensaios clínicos produzem resultados negativos (ou seja, não se verificam diferenças entre a droga e o placebo). Se uma companhia farmacêutica faz 10 estudos e apenas em 2 se verifica alguma eficácia da droga, eles podem eleger apenas os 2 que lhes convém para a publicação. Não existe nenhuma lei contra “cherry picking” que é o acto de apontar para casos individuais ou dados que parecem confirmar uma posição particular, ignorando uma parte significativa dos casos relacionados ou dados que possam contradizer essa posição. A FDA não obriga à divulgação de todas as tentativas sem êxito. Isto leva à exacerbação da percepção sobre a eficácia das drogas, quer dos próprios médicos que prescrevem os medicamentos quer do público em geral.

Kirsch é um amante dos dados. Se ele vai para além dos dados, ele rotula as suas declarações como tal. Os dados levam a concluir que as abordagens psicológicas que fornecem tratamentos para a depressão quando devidamente aplicadas são tão eficazes a curto prazo e mais rentáveis a longo prazo do que os antidepressivos.
Este livro representa um golpe duro e poderoso contra os métodos psiquiátricos e farmacêuticos. Ironicamente, Kirsch de certa forma argumenta para o poder do efeito placebo poder vir a prejudicar o suposto efeito clínico dos antidepressivos. Se perdemos a fé que eles funcionam, eles não irão funcionar.

A MINHA OPINIÃO

Espero que muitos leitores ponderem esta informação, pois é minha convicção que a máquina de vendas das companhias farmacêuticas têm vindo a mascarar os resultados negativos dos seus dados, e assim enriquecerem à custa de quem sofre. Acresce a este facto, o diagnóstico exacerbado de casos de depressão a pessoas que efectivamente não o estão (podendo eventualmente ter outros problemas não diagnosticados), agravando ainda mais esta situação é que, além de na grande maioria das vezes serem mal diagnosticadas, de acordo com o DSM-IV (Manual de diagnóstico e estatística das desordens mentais), não cumprem os critérios de diagnóstico para a depressão, ainda vão ser encaminhadas para um tratamento baseado na premissa que existe um desequilíbrio químico no cérebro responsável pela “doença”. Não existindo na verdade evidências científicas que suportem esta teoria.

De acordo com um estudo novo em co-autoria com uma Universidade Estadual da Florida, Jeffrey Lacasse, professor doutorado da Florida State University, e Jonathan Leo, um professor de neuroanatomia no Lincoln Memorial University, no Tennessee, descobriram que os jornalistas que incluíam declarações em artigos sobre a depressão causada por um desequilíbrio químico, ou a falta de serotonina no cérebro, eram incapazes de fornecer provas científicas para apoiar essas afirmações.
Lacasse e Leo passaram cerca de um ano no final de 2006 a 2007, a controlar as notícias diárias de artigos que incluíssem declarações sobre os desequilíbrios químicos e contactando posteriormente com os autores a solicitar evidências que suportassem as suas declarações. Vários jornalistas, psiquiatras e uma empresa farmacêutica responderam aos pedidos dos pesquisadores, mas não forneceram a documentação que suportasse a teoria do desequilíbrio químico.
A apresentação da teoria por parte dos meios de informação como um facto consumado é preocupante, pois deturpa o estatuto actual da teoria”, Lacasse disse. “Por exemplo, há poucos cientistas que vão surgir na defesa desta teoria, e alguns psiquiatras proeminentes reconhecem publicamente a hipótese de que a serotonina é mais metáfora do que um facto. De acordo com os documentos do estudo, quando se perguntou sobre a existência de factos que comprovassem a evidência da teoria da depressão como um desequilíbrio químico no cérebro, os jornalistas não conseguiram citar os artigos primários em apoio à teoria”.

Talvez porque na verdade os factos são inexistentes!

Nos Estados Unidos, como em Portugal a prescrição médica de antidepressivos para a depressão tem vindo a aumentar, enquanto as referências para tratamentos psicológicos têm vindo a diminuir. Este é um acontecimento inverso ao que se poderia esperar, uma vez que existe uma evidência mínima e limitada de que os antidepressivos são eficazes, em adultos e igualmente em crianças. A abordagem psicológica parece ser mais eficaz do que os antidepressivos tanto para adultos como para crianças. Praticamente, todas as psicoterapias para a depressão devidamente aplicadas são eficazes.
Na verdade, tudo parece muito confuso, como é que uma droga pode ser eficaz para o tratamento de um problema, quando essa droga foi criada partindo do princípio que existe um desequilíbrio químico que na verdade tudo indica não existir. Foi criado um tratamento farmacológico para fazer efeito em algo (“doença” de carácter endógeno) que não existe?

Eu concordo que sim!

Então, como é que o nosso sistema de saúde recomenda a toma de medicamentos sem o encaminhamento para a psicoterapia, sabendo-se que os medicamentos não aliviam nem resolvem os problemas na vida das pessoas?
Existem algumas razões possíveis para o aumento da utilização de antidepressivos que podem incluir:

  • (a) A introdução de ISRS (inibidores selectivos da recaptação da serotonina) como por exemplo o Prozac, Paxetil, Zoloft, entre muitos outros, têm menos efeitos colaterais que os tricíclicos.
  • (b) Publicidade agressiva da indústria farmacêutica.
  • (c) Viés da publicação de pesquisa.
  • (d) Erros na investigação metodológica.
  • (e) Um aumento do nível do rastreio para a depressão.
  • (f) Reembolso de medicamentos para terceiros.
  • (g) Maior número de médicos dispostos a tratar a depressão em cuidados de saúde primários.

Há uma clara evidência de que os antidepressivos podem ajudar alguns pacientes, o que não comprova necessariamente a teoria do desequilíbrio químico. Há evidências suficientes para sugerir que os tratamentos psicológicos competentes devem ser o tratamento de primeira linha para a depressão. Há também evidências de que a psicoterapia isoladamente não deve ser prescrita para casos graves de depressão e que a combinação de psicoterapia e antidepressivos pode ser prescrito para pacientes graves e sem resposta. Estes resultados sugerem que existe uma diferença significativa entre a ciência e o tratamento da depressão. As directrizes actuais e recomendações para o tratamento da depressão deveriam ser revistas à luz dos resultados da investigação internacional para bem da saúde pública.

Nota: É importante perceber, que não quis com esta explanação dizer que os antidepressivos não surtem efeito. Aquilo que pretendi transmitir é que quando existe alguma eficácia comprovada tudo aponta que seja devido ao efeito placebo. E que existem alternativas mais eficazes, com menos efeitos colaterais e menos dispendiosas a longo prazo. Assim como as causas da depressão podem estar relacionada com outros factores que não meramente a causa biológica provocada por um desequilíbrio químico.

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