Quando alguém começa a tomar antidepressivos prescritos pelo médico, provavelmente  esse médico conta uma história que muitos outros médicos pelo mundo fora dizem aos seus pacientes todos os dias: “tomar antidepressivos tem a mesma função que um diabético tomar insulina.” A insulina ajuda o diabético com o seu problema, então porquê parar de tomá-la? Se você tem um desequilíbrio químico no seu cérebro e os antidepressivos estão ajudando a regular e a estabelecer o equilíbrio, então, não faz sentido parar de tomar a medicação. O problema com esta história é que em muitos casos, é falsa.

Igualar um transtorno mental a uma doença física é enganoso. Não me interpretem mal, eu acredito que os fatores físicos e químicos estão envolvidos nos transtornos psicológicos em certa medida e para algumas pessoas, mas também acredito que abordar o tratamento dos transtornos psicológicos, da mesma forma que é tratada a diabetes ou o colesterol elevado, faz-nos criar falsas associações entre as doenças consideradas físicas e os transtornos psicológicos.

Aprofundei este assunto, nos artigos:

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FALSAS VERDADES

Por outro lado, equiparar os transtornos psicológicos à doença física pode aparentemente ser benéfico, na medida em que ajuda a aliviar um pouco do estigma associado à toma de antidepressivos. Ao assumir-se que os problemas relacionados com ansiedade e depressão resumem-se meramente a um problema no corpo (o suposto desequilíbrio químico no cérebro), ao contrário de pensar-se que o problema é “todo na cabeça”, proporciona uma sensação de normalidade, descanso e despreocupação. Da mesma forma que se toma um medicamento para o coração todos os dias a fim de estabilizar o ritmo cardíaco, toma-se um medicamento todos os dias para o cérebro, para que a pessoa possa manter a sua sanidade mental.

A desvantagem desta explicação, é que atribuir a causa da ansiedade e da depressão a um desequilíbrio químico no cérebro é terrivelmente incapacitante, e pior que tudo, é falso. Em vez da pessoa sentir que tem qualquer coisa a dizer relativamente ao seu problema, joga a toalha ao chão e decide em consciência que não há nada que possa fazer acerca da sua saúde mental, porque é tudo uma questão de um desequilíbrio químico. Então, a pessoa não pondera aderir a um programa de terapia psicológica. Por exemplo, a pessoa continua a andar desalinhada no seu relacionamento disfuncional, cometendo os mesmo erros de pensamento, mantendo as mesmas crenças, fazendo as mesmas asneiras e não aprendendo novas formas de conseguir lidar com a situação. A pessoa convence-se (ou é convencida) que não há nada que possa fazer ou em que se deva focar (quaisquer abordagens alternativas), porque não há nada que possa fazer para mudar a química do seu cérebro. Infelizmente, este ponto de vista fecha a porta para um grande número de recursos que puderiam ser benéficos para o bem-estar das milhares de pessoas que sofrem diariamente com os problemas psicológicos.

Para aprofundar o assunto, leia:

CUIDADO COM AS MENSAGENS ENGANOSAS

Acredito, sobretudo baseado na minha experiência profissional, que existem muitas pessoas que enraizaram a ideia (e talvez você também) que tomar antidepressivos para sempre é simplesmente o destino de quem sofre de depressão ou de transtornos de ansiedade. Se você sofre de problemas relacionados com a depressão ou ansiedade, muito provavelmente terá ouvido algo do género: “É provável que você tenha de tomar antidepressivos por tempo indeterminado.”  Assim, muitas pessoas, confortavelmente resignam-se a esse destino, mas provavelmente sentido que as suas vidas com o passar do tempo têm piorado. Para as pessoas que melhoraram, ótimo. Mas, e para as pessoas que são “vítimas” de uma história mal contada, e suportada por pressupostos falsos? Certamente estes sofrem.

A grande maioria das pessoas que estão atualmente medicadas com antidepressivos podem reduzir significativamente as doses ou parar completamente de tomar (com a ajuda de seu médico, aprendizagem de estratégias comportamentais, mudança de crenças e  mudanças de estilo de vida).

É também crucial salientar que a suposta “deficiência de serotonina”  no cérebro não está comprovada cientificamente, sendo ainda uma hipótese e não um fato. Tal como o Dr. Irving Kirsh diz no seu livro: The Emperor’s New Drugs: Exploding the Antidepressant Myth, uma deficiência de serotonina para a depressão não foi conclusivamente encontrada. De fato, a maioria dos testes que examinaram a hipótese de deficiência de serotonina têm sido feitas em cérebros de ratos que foram cortados em pedaços e colocados em tubos de ensaio. Estes estudos em tubos de ensaio não mostram que os antidepressivos do tipo SSRI elevam os níveis de serotonina. No entanto, extrapolar os resultados a partir de cérebros de ratos liquidificados e aplicar a mesma lógica a seres humanos vivos, na melhor das hipóteses é sombrio  (e na pior das hipóteses é pseudociência).

Ridículo: Isso é quase equivalente a dizer que alguém cuja dor de cabeça desaparece quando toma um Tylenol tem uma deficiência de Tylenol.

Na atualidade é realmente impossível medir os níveis de serotonina em seres humanos vivos com elevada precisão. É por isso que quando você vai ao médico com sintomas depressivos não lhe solicitam um exame de sangue para avaliar os níveis de serotonina. Os níveis sanguíneos de serotonina não são muito úteis, pois o sangue que circula no nosso braço está muito longe do nosso cérebro, e 95% da serotonina no organismo está no estômago e outros tecidos. Além disso, a serotonina está envolvida em muitas outras coisas, além do humor, tais como o apetite e sexo, sendo por isso que os antidepressivos têm vários efeitos secundários.

Esta é uma das principais razões para olharmos para a ansiedade e depressão como condições diferentes da doença física: você não pode fazer um exame de sangue para transtornos psicológicos. Por outras palavras, a maneira que existe para diagnosticar transtornos psicológicos é completamente subjetiva. O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, ou DSM-IV, é o que psiquiatras e psicólogos utilizam para diagnosticar os transtornos psicológicos (mentais). O DSM-IV é composto de intermináveis ​​listas de sintomas que foram compilados por especialistas em diversas áreas. Muitos destes diagnósticos são ainda muito debatidos, e a subjetividade do DSM-IV é captada perfeitamente pelo fato de que recentemente, em 1975 a Associação Americana de Psicologia deixou de considerar a homossexualidade um transtorno mental.

Mesmo se, em algum momento e com determinada tecnologia, fosse inequivocamente provado que as pessoas com ansiedade e depressão têm um desequilíbrio químico, isso não prova necessariamente que esse desequilíbrio é a causa do problema. Para ilustrar este fato, por exemplo se alguém que é roubado à mão armada, e essa pessoa for depois testada, ela certamente teria todos os tipos de hormonas do stress e produtos químicos a percorrer todo o seu corpo. Mas estas hormonas e produtos químicos seriam o resultado do trauma psicológico e abalo emocional, e não a causa.

A verdade da questão é: Os investigadores apenas têm apenas uma vaga ideia dos efeitos químicos destas “drogas” no cérebro humano vivo.

O DESEJO ILUSÓRIO DE UMA SOLUÇÃO RÁPIDA

No final, acho que a pesquisa atual sugere que a serotonina provavelmente tem algum tipo de efeito sobre o nosso humor. Mas os mecanismos pelos quais isto ocorre estão longe de serem bem compreendidos. O cérebro humano e os neurotransmissores que fazem disparar os nossos pensamentos, sentimentos e estados de humor são extremamente complexos, e é muito prematuro para os cientistas e companhias farmacêuticas estarem a agir como se soubessem exatamente o que estão a fazer.

Acho que a aceitação tão peremptória da ideia que a depressão é uma doença que tem a sua causa num desequilíbrio químico no cérebro, reflete o anseio e desejo que as pessoas têm numa solução simples. Afinal, se a maioria dos problemas psicológicos pudessem ser tratados como a diabetes ou doenças cardíacas, poderíamos proporcionar alívio rápido para muitas pessoas que estão sofrendo.

Não pretendo passar a mensagem que sou contra os antidepressivos. Se enfrentou alguns problemas psicológicos e os antidepressivos funcionaram para você, ajudando a superar um período difícil em sua vida, então que assim seja. No entanto, eu incentivo quem sofre de ansiedade ou depressão a manter sempre uma mente aberta e investigar as muitas alternativas que existem aos antidepressivos, mesmo que você tenha sido informado de que provavelmente tem um desequilíbrio químico no seu cérebro.

Atenção: Precisamos parar de atribuir uma confiança cega só porque uma máquina bem oleada como as farmacêuticas apresentam explicações que não foram cientificamente comprovadas, mas fazem parecer que foram. Recupere o seu poder, informe-se, esteja atento, você é muito mais que apenas um suposto efeito de um ou dois produtos químicos do cérebro.

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UM CASO ALARMANTE,  MAS BEM SUCEDIDO

Em Outubro de 2009, a Margarida (nome fictício) de 48 anos de idade chega até mim como cliente. Vinha diagnosticada com depressão pela sua médica psiquiátrica. Não trabalhava há três anos, tinha movimentos lentificados, um discurso demasiado articulado, níveis de concentração reduzidos, apatia, desmotivação, não continha as urinas (usava fralda). A Margarida media 1,50m e pesava 112kg. O seu maior desejo era voltar a trabalhar. A Margarida antigamente trabalhava na agricultura, e desde então não conseguia sequer sair de casa devido ao enorme cansaço e vergonha do seu estado. Claro que ela não chegou a este estado deplorável de um dia para o outro. Devido às primeiras queixas a Margarida dirigiu-se ao médico, foi medicada para a depressão, passado algum tempo, voltou ao médico, não tinha melhorias, pelo contrário, apresentava mais queixas e sintomas, e consequentemente foi prescrito mais medicação. Na altura que iniciei o tratamento com a Margarida, ela tomava nove medicamentos distintos, entre antidepressivos, ansiolíticos, antipsicóticos e neuroléticos, (Anafranil, Perdin, Socian Depakine, Metamidol, Fluoxetina, Tofranil, Diazepan, Tricticum). Um verdadeiro cocktail de efeitos secundários imprevisíveis e nefastos que estavam a arruinar a vida da Margarida, e consequentemente a sua recuperação. Por razões profissionais vou omitir o procedimento de desmame da medicação.

Expliquei à Margarida um conjunto de mecanismos internos, e como eles se fazem sentir no nosso organismo e consequentemente na falta de vontade para fazer coisas, dado que são acionados pela percepção de incapacidade  que temos quando enfrentamos determinados problemas que não conseguimos resolver (desesperança aprendida). Esta foi a parte psicoeducacional do programa. Ao mesmo tempo solicitei à Margarida que iniciasse caminhadas diariamente (com uma progressão programada). A Margarida passou também a fazer algumas pequenas tarefas domésticas que tinha abandonado (ativação comportamental). Controlou a toma de líquidos na última hora antes de ir dormir, e continuámos com a mudança de algumas crenças disfuncionais que tinha. Ensinei-lhe algumas técnicas de relaxamento, que passou a fazer antes de deitar-se e sempre que se sentia mais ansiosa. Passou a acreditar mais nela, na sua capacidade para organizar a sua vida, perdeu peso, passou a sair à rua para conversar com as vizinhas. Passado um mês parou o uso de fraldas. No final de Janeiro de 2010, a Margarida pesava 85kg, voltou a trabalhar e apenas tomava o Diazepan.

A SUA SAÚDE MENTAL ESTÁ NAS SUAS MÃOS, NÃO NA SUA CABEÇA

Inequivocamente, a grande maioria dos transtornos psicológicos e mais especificamente os transtornos de ansiedade, tais como ataques de pânico, fobia social, stress pós-traumático, transtorno obsessivo compulsivo, ansiedade generalizada e fobias, e ainda os transtornos de humor como a depressão, estabelecem uma forte relação com os acontecimentos de vida, e igualmente com a forma como aprendemos a lidar com o incómodo sentido e o quanto afetam a funcionalidade no dia-a-dia. De acordo com esta visão, é lógico e adequado que a forma de recuperar ou tratar algumas destas condições que afetam a vida das pessoas esteja muito mais relacionado com aquilo que podem aprender a lidar, compreendendo um conjunto de mecanismo fisiológicos e igualmente formas distorcidas de pensamento associadas que empurram a pessoa para uma zona de disfuncionalidade.

Mudando a atitude comportamental que a pessoa tem quando se encontra com algum dos problemas psicológicos anteriormente referidos, para promoção do seu bem-estar, é fácil perceber que a saúde mental está mais naquilo que se faz, do que propriamente devido a algo que não está funcionado corretamente na cabeça de quem sofre. Os nossos comportamentos e formas de pensar estabelecem uma forte relação com as atitudes que tomamos. Entender algumas reações fisiológicas (sensações físicas desagradáveis no corpo), mudar algumas crenças, mudar formas de pensar e aprender a agir de novas maneiras é aquilo que está na base de um programa psicológico de recuperação dos transtornos mentais, e não necessariamente recorrer em primeira instância à medicação.

A pessoa beneficia de uma aprendizagem que lhe transmite capacidade, que lhe devolve a vida às suas mãos, percebendo que tem uma posição e uma voz ativa na sua melhoria. Percepcionado que pode ajudar-se a si mesmo, que o poder da sua recuperação passa muito mais por aquilo que faz, do que passivamente ficar à espera que algo na sua cabeça mude, só porque um comprimido irá “aranjar” algo que está errado na sua cabeça.

Agarre a sua saúde mental nas suas mãos, faça coisas para sentir-se melhor, procure ajuda profissional que não esteja “viciada” por uma máquina megalómana que está muito mais interessada em gerar dinheiro do que propriamente ajudar adequadamente quem sofre.

Se toma medicação para ultrapassar algum problema psicológico, e ao final de seis meses verifica melhorias, ótimo. Se não é ou não for o caso, questione-se, questione o profissional em questão e pondere uma segunda opinião. Não se deixe cair em anos a fio de desespero desmedido envolto num mar de medicação que vai aumentando ao longo do tempo, em prol de uma suposta melhoria que tarda em verificar-se.

Abraço