O que é a depressão? É uma doença? Uma desordem mental? Um desequilíbrio bioquímico? Um disfunção cerebral? Um síndrome psicológico? Uma crise existencial ou espiritual? Pretendo elucidar o leitor do meu ponto de vista enquanto psicólogo, baseando-me na prática clínica tenho vindo a observar grandes equívocos de diagnóstico, e tratamento da depressão através do “modelo biomédico”. Para mim, a questão crucial é saber se a depressão (unipolar ou bipolar) é uma “doença” decorrente da aplicação um tanto duvidosa do modelo biomédico para a teoria e prática da psiquiatria e da psicologia. O que é o “modelo biomédico”? O modelo biomédico é o paradigma em que a prática da medicina clínica é fundada: os sintomas são vistos como manifestações de processos fisiológicos patológicos (doença) que é diagnosticada e depois tratada com os métodos disponíveis.
O propósito do tratamento médico é eliminar, suprimir ou controlar os sintomas da doença. Ou seja, tanto quanto possível, reduzir o sofrimento e prolongar a vida. Os médicos têm seguido à risca esse paradigma honroso e praticam-no desde os tempos de Hipócrates. Não quero com esta explicação ter a intenção de menosprezar ou criticar os tratamento médicos, certamente têm toda a razão de ser e mérito na grande maioria das doenças, o que nos beneficia a todos. No entanto no que diz respeito a algumas “condições” como a depressão (desordens do foro psicológico), o modelo biomédico é redutor e inapropriado.
O modelo biomédico é uma forma particular de olhar para o sofrimento humano: decadência, disfunção e por fim a morte. É um paradigma, uma lente através da qual os médicos e algumas pessoas percebem certos fenómenos anormais, como leucemia, diabetes, e agora a depressão e muitos outros transtornos mentais. Mas, como já referi, apesar da imensa contribuição do modelo biomédico no diagnóstico e tratamento da doença, a sua aplicação literal para experiências humanas representativas, como a depressão e a ansiedade é problemático.
DEPRESSÃO UMA CONDIÇÃO DEBILITANTE
Não tenho como negar que as pessoas que sofrem de depressão enfrentam um problemas grave. A depressão pode ser bastante debilitante, e em alguns casos levar à morte. Os sintomas físicos, tais como náuseas, vómitos, fadiga, dor crónica, diarreia, insónia, etc, são concomitantes à depressão maior. O “tratamento”, para usar a terminologia médica, é necessário. A verdadeira questão que importa levantar e refletir é qual o tipo de “tratamento” mais adequado? A resposta a isso depende em parte de como se entende a etiologia ou a causa da depressão, assim como outros transtornos mentais graves, como transtorno bipolar e transtorno de pânico.
Há várias teorias sobre a causa da depressão, nenhuma das quais foram inequivocamente comprovadas. Essas teorias causais incluem aspectos biológicos, psicológicos, sociais e explicações espirituais. Algumas pesquisas indicam a probabilidade de pelo menos alguma predisposição genética para a depressão unipolar e bipolar, assim como transtornos psicóticos, como esquizofrenia e transtorno esquizoafetivo. Mas a predisposição biológica não é causalidade. Outros (por vezes não reconhecidos) catalisadores são necessários: a perda, o stress, o isolamento, trauma, frustração, falta de sentido na vida, abuso de substâncias, raiva crónica reprimida, podem ser e, frequentemente são, fatores centrais que contribuem para esses transtornos, não podendo ser ignorados. Têm e devem ser levados em consideração na aplicação de um programa de tratamento da depressão.
ALTERAÇÕES NEURO-QUÍMICAS NÃO SÃO SUFICIENTES PARA DIAGNOSTICAR ALGO COMO DOENÇA
Ainda que depois da pessoa apresentar alguns dos sintomas da depressão já referidos, possa verificar-se alterações bioquímicas no seu cérebro, não podemos afirmar que foi devido a um problema endógeno de redução da produção de químicos (serotonina) no cérebro que se produziu a depressão. Tal como acontece quando corro durante 5 minutos a uma intensidade elevada e fico com um sensação de dor nos músculos devido a uma acumulação de ácido láctico. A dor que sinto quando corro, deve-se às circunstâncias do meu esforço e não de um problema de excesso de produção de ácido láctico. Podem os desequilíbrios bioquímicos ou padrões anormais de fluxo sanguíneo no cérebro ser sintomas adicionais ao invés de causas da depressão? Ou manifestações fisiológicas de condições psicológicas subjacentes? A minha resposta é afirmativa. Tal como todo o investigador sabe, a correlação não é necessariamente a causa.
Mas, infelizmente para quem sofre não importa a causa fundamental da depressão, os médicos têm o dever para com os doentes de lhes fornecer os métodos de tratamento mais agressivas e supostamente mais eficazes atualmente disponíveis. O uso da psicofarmacologia no tratamento da depressão grave, apesar dos seus inconvenientes, foi revolucionária e salva-vidas. Fármacos antidepressivos e estabilizadores do humor fazem algo que a psicoterapia não pode: eles proporcionam alívio relativamente rápido dos sintomas dolorosos e debilitantes da depressão e estabilizam perigosamente o humor instável. Isso prova que a depressão é sobretudo uma doença biológica? Nem um pouco. Isso só demonstra que temos meios bioquímicos para combater e controlar os sintomas mais agudos da depressão: perturbação do sono e do apetite, falta de motivação, apatia, humor deprimido ou maníaco, ansiedade, tendências suicidas, etc. Ainda assim, grande parte destes sintomas também podem ter alívio com determinadas técnicas aplicada na Terapia Cognitivo-comportamental, mas que demoram um pouco mais de tempo, dado que necessitam de ser aprendidas.

A DIMINUIÇÃO DOS SINTOMAS ATRAVÉS DA MEDICAÇÃO É UM PAU DE DOIS BICOS
Mas isto ainda assim tem o reverso da medalha, mesmo quando os sintomas da depressão são atenuados pela medicação, o quadro depressivo subjacente continua a expressar-se, evidentemente, tornando os pacientes medicados suscetíveis a episódios futuros. Mais de metade das pessoas que sofrem um primeiro episódio depressivo major, tudo indica que seja provável experimentarem episódios subsequentes, em algum momento. A probabilidade de recorrência aumenta de forma dramática (90%) após três episódios. Que susceptibilidade subjacente é esta? Isto parece sugerir a presença de um tratamento bioquímico que não resolve nada. Qual é essa vulnerabilidade latente que persiste? É a manifestação de uma personalidade depressiva? Será um monstro de nove cabeças?
Alguns transtornos mentais, incluindo depressão, pode ser comparado à lendária Hydra: um enorme monstro mitológico com nove cabeças de serpente, cada uma, expelindo um veneno letal. Muitos pacientes sofrem de uma miríade de sintomas – por exemplo, ansiedade, depressão, dor crónica, intestino irritável, insónia, fadiga, dores de cabeça, ataques de pânico, etc – que, depois de supostamente ser farmacologicamente vencido, volta como que uma vingança a atormentar a pessoa. O herói grego Hércules teve que fazer a batalha com a mortal Hidra, começou a decepar as suas cabeças, mas assim que ele fez isso, mais duas apareceram no seu lugar. Além disso, a Hydra tinha uma cabeça que era imortal e indestrutível. Como é que o Hércules finalmente derrotou a Hidra? Primeiro, Hércules cauterizou a cabeça decapitada com fogo para evitar a regeneração da cabeça, em seguida, enterrou a cabeça imortal da Hidra debaixo de uma pedra maciça, a fim de torná-la inofensiva. Mas porque esta cabeça era imortal, a Hydra jamais poderia ser completamente destruída. Só atenuada e subjugada.
A depressão é um pouco como a Hydra. Você pode tentar farmacologicamente, através da toma de antidepressivos “matar” os seus sintomas, mas infelizmente estes tendem a voltar. Pode a depressão ser derrotada? Não, sem lhe atacar o seu cerne, sem atacar o coração da Hydra. Não, sem reestruturar o pensamento da pessoa para que exista uma relação mais funcional e com propósito na sua vida. A partir da minha própria observação, as raízes da depressão são muito mais psicológicas que bioquímicas, embora, claramente uma afete a outra. O aparecimento da depressão estabelece uma relação com a vida, de um ponto de vista psicológico, desenvolve-se uma tríade negativa:
- Visão pessimista de si mesmo
- Visão pessimista sobre o mundo
- Visão pessimista sobre o futuro
Esta tríade negativa, estabelece relação com algumas distorções cognitivas identificadas por Beck (1967, 1976, Beck, Rush, Shaw & Emery, 1979):
- Inferência arbitrária – ocorre quando pessoa deprimida chega a uma determinada conclusão (normalmente auto-depreciativa) na ausência de provas ou quando existem provas contrárias à sua conclusão;
- Abstracção selectiva – consiste na focalização de um detalhe com valor negativo retirado do contexto, ignorando outros aspectos mais positivos e conceptualizando a experiência depreciativamente com base nesse fragmento;
- Hipergeneralização – refere-se ao modo como o deprimido chega a uma conclusão geral com base em um ou mais incidentes negativos isolados, projectando esta negatividade para outras situações presentes ou futuras;
- Magnificação / minimização – reflectem-se na distorção da importância ou amplitude de um acontecimento, por exemplo dando excessiva importância a uma crítica ou desvalorizando completamente um elogio;
- Personalização – propensão do deprimido para relacionar ocorrências externas consigo próprio, atribuindo às suas características acontecimentos desagradáveis que ocorrem no meio;
- Pensamento absolutista e dicotómico – tendência para categorizar todas as experiências em categorias opostas, colocando-se a si próprio e às suas experiências no pólo mais negativo.
Muitas vezes, na origem da depressão está o ódio reprimido, ira, raiva, ressentimento, abandono, traição, desânimo, tristeza prolongada, Insignificância, perda da fé na vida. Sem levar em consideração estas situações do foro psicológico, espiritual e emocional, a depressão não pode ser tratada eficazmente. Ou seja, se a abordagem de tratamento da depressão for cingida apenas aos fármacos a pessoa até pode conseguir suprimir temporariamente os sintomas que lhe causam mal-estar, mas não irradia as suas causas. A pessoa não consegue de forma alguma aprender a estabelecer uma relação mais funcional na sua vida. Correndo o risco de alguns fármacos funcionarem como um tampão emocional, retirando à pessoa capacidade para “sentir” o seu dia-a-dia, deixando de preocupar-se e/ou comprometer-se com algumas situações de vida que necessitam da sua atenção e que podem estar a contribuir para o agravamento dos sintomas da depressão.
PSICOTERAPIA, MEDICAÇÃO OU AMBOS?
De acordo com Irving Kirsh, autor do livro: The Emperor´s New Drugs, a psicoterapia tem algumas vantagens significativas sobre a medicação, e que eu concordo em absoluto. Vejamos:
- A vantagem mais óbvia é que não é uma droga, o que quer dizer que não tem os efeitos secundários ou outros riscos que estão associados com a toma de drogas.
- A segunda vantagem é que pode ser usada de forma segura para tratar a depressão em crianças, adolescentes e jovens adultos, comparativamente os antidepressivos aumentam o risco de suicido nesta população tão específica.
- A terceira vantagem é que as pessoas tendem a abandonar menos a psicoterapia prematuramente do que param a toma de antidepressivos, e isto é ainda mais verdadeiro para quem sofre de níveis severos de depressão.
- Mas a maior vantagem de todas da psicoterapia sobre a medicação é que diminui a probabilidade de recaída depois das pessoas terem melhorado.
Porque razão a psicoterapia, seja de forma isolada ou em combinação com os antidepressivos, tem melhores resultados e mais duradouros que só com a medicação? Se você tomar medicamentos e ficar melhor, irá atribuir a sua melhoria à medicação. Então quando você pára de tomar, irá certamente “esperar” vir a ficar pior novamente. Ao invés de interpretar as normais mudanças de humor que se fazem sentir numa situação de stress e problemas de vida, estes podem ser interpretados como um indicador que a depressão está a voltar, entrando num ciclo vicioso, em que as expetativas de uma possível recaída alimentam os sintomas da depressão, conduzindo a pessoa a uma eventual recaída.
Quando a pessoa recupera da depressão através da psicoterapia, as suas atribuições acerca da sua recuperação parecem ser diferentes do que aquelas pessoas que foram tratadas com medicação. A psicoterapia é uma experiência de aprendizagem. A melhoria não é produzida por uma substancia externa, mas por mudanças que ocorreram na própria pessoa. É como aprender a ler, andar de bicicleta ou escrever, uma vez aprendido fica com você. Acrescento ainda que, parte daquilo que a pessoa possa aprender na terapia leva em consideração os recuos no seu humor e assim interpretá-los como parte normal da sua vida, ao invés de como indicadores de uma desordem subjacente e iminente de poder atormentar de novo a vida da pessoa.

PODE A DEPRESSÃO SER TRATADA COM ÊXITO?
Deve a depressão ser tratada tal como as outras doenças? Depende. Algumas formas de depressão leve a moderada e até mesmo severa são claramente respostas conjunturais, estabelecem uma forte relação com o stress, trauma, perda e outros eventos de vida. Estes problemas de adaptação chamados episódios depressivos ou até mesmo os principais podem ser completamente recuperados na maioria dos casos com tratamento adequado, especialmente psicoterapia. A depressão crónica e a depressão profunda, como distimia, transtorno depressivo recorrente grave, transtorno ciclotímico e transtorno bipolar necessitam de tratamento intensivo durante períodos prolongados de tempo.
Mas mesmo nessas condições aparentemente e relativamente intratáveis, com um programa de psicoterapia combinada com a farmacologia pode reduzir a gravidade e a frequência de sintomas depressivos e/ou episódios de hipomania ou mania. Através da abordagem psicológica e com a aplicação de psicoterapia promove-se a melhoria da recorrência de episódios da pessoa, a frequência e a gravidade dos episódios futuros pode ser diminuída. Mas, enquanto o uso de medicamentos tem por objetivo a diminuição dos sintomas, exigindo doses crescentes e vários tipos de drogas para controlar as suas manifestações, a psicoterapia de abordagem cognitivo-comportamental (a que eu recomendo e pratico), pode realmente reduzir e até eliminar a dependência da medicação psicotrópica, assim como as distorções cognitivas e causas psicológicas incapacitantes.
Assim sendo: Eu diria que a depressão não é uma doença e que não deve ser tratada da mesma maneira como a diabetes. A depressão é uma síndrome biopsicossocial que exige muito mais do que a intervenção farmacológica. O que é lamentável é que a psicoterapia mais contemporânea, incluindo a Terapia Cognitivo-comportamental, não ofereça ainda uma abordagem totalmente eficaz para o tratamento da depressão mais severa e a depressão bipolar. Existe ainda a necessidade de avançar para uma psicoterapia mais eficaz, ao invés de se tentar provar e promover uma causa biológica. A procura desta causa biológica é motivada pelos elevados lucros que as companhias farmacêuticas ganham, fazendo passar a mensagem que: “sem os nossos medicamentos o seu problema não melhora”.
TOME CUIDADO NÃO SE DEIXE ENGANAR, ESCLAREÇA-SE
Apresento algumas questões que o podem elucidar e ajudar a decidir que rumo tomar no caminho para a melhoria da depressão:
- A depressão tem de ser uma doença porque é incapacitante e aversiva. Sim, a depressão é algo horrível e indesejado e está associado a deficiências mentais. Muitas doenças verdadeiramente reais são indesejadas e estão associadas a deficiências. No entanto, por algo ser mau não quer dizer necessariamente que seja uma doença. Febre, tosse e dor são desagradáveis e indesejáveis, mas estão longe de serem doenças, estas respostas são realmente de protecção da nossa saúde (sem capacidade para a dor, você está propenso a ficar gravemente ferido ou a morrer!). Portanto, este é um argumento falso.
- Mas os cientistas não descobriram já as áreas do cérebro que são responsáveis pela depressão? Esta é de fácil resposta. Embora não haja pesquisas que correlacionem padrões de estrutura cerebral ou função para os sintomas da depressão, quase nenhuma evidência, estabelece que um qualquer padrão cerebral é a causa da depressão, ao contrário de ser apenas um efeito da depressão (ou seja, sentir-se triste o tempo todo, altera as funções cerebrais. Isto parece-lhe interessante ou surpresa?). De facto, não existem nenhuns testes laboratoriais de espécie nenhuma, incluindo imagens cerebrais, que possam verdadeiramente diagnosticar a depressão. Um metáfora comum que é usada para suportar a ideia de que a depressão é uma doença, é que é como a diabetes. Deixando no ar a ideia de que uma pessoa deprimida necessita de antidepressivos (exemplo, de prozac) tal como o diabético precisa de insulina.Um problema com a metáfora é que, diferentemente da diabetes (e outras doenças físicas), não existem testes de diagnóstico ou até mesmo sinais mensuráveis da depressão que sejam independentes da descrição de sintomas da própria pessoa.
- Mas não é aceite que a depressão é genética? Se assim for, não é apenas uma questão de tempo até que os investigadores descubram os genes da doença? Sim, há evidências de que a depressão pode ter um determinado cariz hereditário. Mas isso não significa que a depressão é uma doença. Inteligência, extroversão, criatividade, e quaisquer outros traços são apenas características que tem sido estudadas podendo ser substancialmente hereditárias, mas acredito que concorde que a hereditariedade ligada à inteligência, extroversão e criatividade não faz desses traços doenças! Por outras palavras, só porque uma coisa é hereditária (ou seja, está relacionada à variação genética), isso não significa que seja uma doença. Quanto à busca por “genes da doença” específicos para a depressão, esta especulação não está indo muito bem. Talvez o gene candidato mais célebre para a depressão foi o ‘”gene transportador da serotonina”. No entanto, as evidências científicas que procuravam uma relação entre o gene transportador de serotonina e a depressão estão quase completamente desvendados. A maioria dos especialistas em genética comportamental não acham que venha a ser descoberto qualquer gene de grande efeito que explique a vulnerabilidade à depressão.
- E sobre a eficácia dos medicamentos antidepressivos? Não conquistaram a ideia de que a depressão é uma doença? Sim, os antidepressivos são eficazes na redução dos sintomas da depressão para a maioria dos portadores de depressão. Isto é uma coisa boa, mas a que preço? Assim sendo, isto não pode ser considerado um argumento decisivo forte. Primeiro, porque a eficácia dos antidepressivos está de certa forma exagerada. Segundo, estes medicamentos por si só parecem não ter nenhum tipo de eficácia para a melhoria da depressão. Eles são usados para uma variedade de tratamemtos de problemas clínicos diferentes incluindo o transtorno-obsessivo-compulsivo, transtornos alimentares e dor neuropática. A não ser que estas condições tão diferentes sejam a mesma doença, o mais provável é que essas drogas não tratem qualquer dessas doenças ou processo específico por si. Terceiro, é sensato supor que um medicamento sempre nos transmite algo sobre a causa da doença para a qual é prescrito. Você concorda que seria absurdo argumentar que, porque a aspirina é útil para tratar uma dor de cabeça, quererá dizer que a dor de cabeça é causada pela falta de aspirina? Quão diferente é o argumento de que o Prozac e outros antidepressivos, por serem úteis no alívio de alguns sintomas da depressão, a depressão seja causada pela falta de um qualquer químico? Caso queira esclarecer-se melhor acerca deste tópico pondere ler o nosso artigo: Quebrando o mito dos antidepressivos.
RESUMINDO
Ponto 1: Gostaria que ficasse bem claro que não estou de forma alguma contra o modelo biomédico, nunca poderia estar, sem ele a humanidade estaria muito mais pobre e com imenso sofrimento. O que pretendi transmitir foi que este modelo não é o mais apropriado para o tratamento de algumas desordens, tal como a depressão.
Ponto 2: Para além de não ser apropriado, existem uma série de equívocos à sombra dos quais as pessoas que são afectas pela debilidade da depressão estão a ser alvo, prejudicando ainda mais um problema incapacitante para a sua vida.
Ponto3: Como referi no artigo, quebrando o mito dos antidepressivos: Acresce aos pontos anteriores, o diagnóstico exacerbado de casos de depressão a pessoas que efectivamente não o estão (podendo eventualmente ter outros problemas não diagnosticados). A agravar ainda mais esta situação, muitas pessoas são na grande maioria das vezes mal diagnosticadas, se o diagnóstico fosse feito levando em consideração o DSM-IV (Manual de diagnóstico e estatística das desordens mentais), elas não cumprem os critérios de diagnóstico para a depressão, ainda assim este trilho negativo continua com um encaminhamento para um tratamento baseado na premissa que existe um desequilíbrio químico no cérebro responsável pela “doença”. Não existindo na verdade evidências científicas que suportem esta teoria. Caros leitores, estamos perante este cenário com um problema de saúde pública. Mantenham-se atentos.
Leituras complementares recomendadas:
-
A Depressão não é uma doença, de Carlos M. Lopes Pires
-
Manufacturing Depression, by Gary Greenberg
-
The Emperor’s New Drugs: Exploding the Antidepressant Myth, by Irving Kirsh
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Abraço









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Sinto-me cada dia mais normal :)
Recomendo consulta de psicologo, é estranho no inicio, mas resulta se confiarmos no profissional, abraço
O seu testemunho é de grande valor. Fico contente por ter encontrado uma solução eficaz, e principalmente por se ter dado bem com a abordagem psicológica, esta quando bem aplicada tem elevadas taxas de sucesso
Espero que consiga debelar totalmente o seu problema, certamente que vai:)
Abraço
A MINHA DUVIDA É A SEGUINTE:
QUANDO SE FALA EM DEPRESSÃO E SINTOMAS ASSOCIADOS ESTAMOS A FALAR DAQUELAS PESSOAS QUE ANDAM DEPRIMIDAS E COM VONTADE EM SUICIDAR-SE OU OS SINTOMAS QUE TENHO TAMBEM SE PODEM CONSIDERAR DEPRESSÃO?
Sim e não. Sim as pessoas que andam deprimidas e pensam em suicidar-se pode estar relacionado com a depressão.
Não, daquilo que me descreveu no outro comentário, não se trata de depressão. Ainda assim é possível que pessoas com alguma desordem de ansiedade possam desenvolver de pressão e vice-versa. As coisas nem sempre são lineares.E o mais importante não é saber o nome daquilo que tem, por vezes as coisas não são taxivamente enquadradas numa desordem, mas sim num conjunto de acontecimentos que necessitam de ser resolvidos.
Abraço
Já lidei com depressão e crises de ansiedade. Um ano de Terapia Psicanalitica não me ajudou em NADA. O olhar para trás, o esquadrinhar o passado, o procurar as origens... Para quê? Para compreender melhor o meu problema?!
Eu (falando, obviamente por mim) precisava era de ajuda PRÁTICA para lidar com os sintomas. A Terapia Cognitiva Comportamental ensinou-me isso. A analisar os meus pensamentos, a encontrar padrões e a quebrar o círculo da depressão. Literalmente aprendi a "borrifar-me" para meu passado problemático. Hoje sou uma pessoa diferente: Mais despreocupada.
Curiosamente, nos EUA (e outros países) esta é a terapia standard para casos de depressão e a que tem maiores índices de sucesso.
Mais: Esta terapia é de curta duração e tem benefícios a curto prazo.
Por cá... ainda assim tão poucos psicólogos têm esta competência...
O seu testemunho pessoal é de grande valor, principalmente porque aborda uma questão que se prende inteiramente com o tipo de abordagem psicológica que se pratica ou que no seu caso inicialmente experimentou. Teve uma má experiência com a psicanálise, esta é uma abordagem que caiu em desuso nos últimos tempos e não é a mais usada e mais estudada no tratamento da ansiedade e depressão.
Como referi, eu pratico e aconselho sempre em todos os meus artigos a abordagem Cognitivo-comportamental a que é recomendada pela APA (American Psychology Association).
Agradeço uma vez mais as suas palavras pois refletem na integra a realidade de muitas outras pessoas.
Abraço
Seria especialmente interessante ver um estudo de pessoas seguindo quaisquer recomendações alternativas e comparar isso ao grupo tradicional, e talvez até placebos de cada um. Ver então como ficam em termos de seus relatos sobre depressão, e até mesmo suicídio a longo prazo. Se eu fosse obrigado a apostar em algo assim, e felizmente não sou, apostaria que o lado tradicional, fazendo uso de antidepressivos teria os melhores resultados, e menores números de suicídio em longo prazo, dado que os participantes dos grupos sejam realmente diagnosticado como estando dentro de um mesmo grau de depressão, e não algo como "depressão leve", meramente tristes de forma mais recorrente por uma razão ou outra.
É no entanto algo próximo de uma aposta, fazer tal alarde, e eu seria mais cauteloso com algo que pode por em risco a vida das pessoas.
Acho um tanto desprovida de sentido a questão da nomenclatura de "doença" ou não. Parece ser cada vez mais comum uma vontade de livrar algumas síndromes do "estigma" de doença, mas em boa parte do tempo isso serve apenas para fazer as pessoas afetadas se sentirem menos mal por estarem dentro de tal condição, não sendo realmente uma "revisão" da coisa, que leva a crer que seja diferente, menos grave do que era. Algo como dizer que miopia não é doença porque os míopes -- ou, termo preferível, "pessoas que não enxergam bem de longe", ou "pessoas com miopia", pois "míope" ou "portador de miopia" são termos que desumanizam -- podem levar uma vida completamente normal, basta usar óculos ou lentes de contato, e de vez em quando nem sendo necessário, se conseguirem ler livros sem precisar disso, por exemplo.
Tal como referiu, apenas passou os olhos por alguns excertos. Na verdade, deveria ter sido mais cauteloso e ler devidamente todo o artigo.
Depois de ler convenientemente todo o artigo e mantiver a mesma opinião, responder-lhe-ei de forma mais concreta.
Existem estudos, tal como livros (veja no final do artigo, leituras complementares recomendadas.
Abraço
depressão há muito tempo.Pela minha experiência posso dizer
que em Portugal toda a terapêutica gira á volta da medicação,
e para mim têm sido o "meter um penso rápido" numa ferida que
umas vezes sangra mais, outras menos.Recentemente segui a via
da terapia de consultório ,mas a conclusão final das sessões
foi uma mensagem de :"é forte ,já convive com a doença há
tanto tempo ,vai ter de se mentalizar que é crónica e não há
nada a fazer".Não ponho em causa a competência e o diagnóstico
do profissional em questão mas a depressão é mesmo crónica ?
Vou ter mesmo de conviver com isto ad nausea ?
Cumprimentos
Isso, que lhe disseram, é absolutamente rídiculo!!!
Mariana, por favor, por favor, POR FAVOR!!!! . Terapeutas, há muitos. Poucos deles são realmente bons.
Depressão crónica - ou "distimia" - que acompanha a pessoa, por vezes desde a infância, é perfeitamente recuperável, contando que o deprimido SE EMPENHE na recuperação (coisa rara), mas que evidentemente é o seu caso.
Você precisa das ferramentas certas, da abordagem certa de terapia, de uma abordagem que funcione consigo. Procure um terapeuta que pratique uma abordagem prática: Cognitivo-Comportamental. Foi a que me ENSINOU a experimentar a vida de um modo mais despreocupado, a me responsabilizar pela minha felicidade.
É GRAVE quando um "profissional" condena a pessoa com um "você não conseguirá recuperar".
Afinal:
"Quer VOCÊ diga que consegue, quer diga que não consegue, VOCÊ terá razão."
Concordo em parte com o seu comentário, à excepção de concluir taxativamente por um exemplo, uma imagem negativa acerca da psicoterapia em Portugal (sendo que existem várias abordagens na psicoterapia).
Sem dúvida que a recuperação é possível, e enumerou muito bem algumas coisas que podem ser feitas no sentido de construir um programa terapêutico adequado à recuperação.
Abraço
O meu psiquiatra, depois de ter diagnosticado depressão, recomendou psicoterapia (que, como exposto no meu primeiro comentário, não funcionou). Mas frequentei essa terapia por quase dois anos.
É impossível viver com depressão tanto tempo e evitar o pensamento: "Mas eu já tomo medicação, eu já faço terapia... e não fico bom. É PORQUE NÃO TENHO SOLUÇÃO". É um pensamento devastador!
Apesar disso, nunca desisti de me informar sobre o meu problema "crónico". Foi quando encontrei na net um site muito bom (psychcentral.com, fica a recomendação) com um artigo sobre os resultados promissores da Terapia Cognitivo Comportamental (abordagem completamente diferente da que eu estava a praticar).
Conversei com o meu psicólogo que disse não ter experiência na área, mas estava disposto a explorar outras abordagens. Mas... mais do mesmo não, e eu acabei por desistir.
Sou da Margem Sul e só eu sei a dificuldade que é encontrar um psicólogo apto a praticar essa abordagem. Depois de muitos telefonemas e e-mails, descobri um psicólogo em Lisboa.
Eu empenhei-me na recuperação. Fazia diários e registos da minha evolução e das recaídas. Fazia exercicios práticos usando situações do dia a dia. Aprendi a reconhecer os sinais que antecediam uma crise de depressão ou ansiedade e aprendi a não ter medo deles.
Em poucos meses fiz um progresso notável.
Deus sabe. VALEU A PENA!!!
É com base nesta minha experiência (que nem é tão antiga como isso) que eu digo, com muita pena, que foi e é díficil encontrar este tipo de ajuda, concreta, pelo menos na minha zona de residência.
Existem muitas opiniões acerca das causas da depressão e do seu consequente tratamento ou recuperação.
Mais importante do que simplesmente categorizar um suposto transtorno (neste caso depressão), é transmitir esperança e um caminho possível. Não podemos ou não devemos partir do principio de querermos encontrar a solução mágica para uma possível recuperação da depressão (seja com terapia psicológica e/ou medicação).
Aquilo que se sabe (de acordo com dados estatísticos) é que a aplicação da terapia cognitivo-comportamental é bastante eficaz (cerca de 85%). É claro que como em qualquer outro problema, depende sempre muito da competência do profissional e da consequente aderência por parte de quem sofre.
A mensagem que lhe transmito é: Existe sempre algo que pode ser feito, existe muitas estratégias que podem ser aplicadas no sentido de restituir bem-estar à pessoa. A recuperação é possível.
Para mais esclarecimentos aconselho a ler a nossa série :http://www.escolapsicologia.com/olhe-a-depressao-como-ela-e-acabe-com-os-equivocos/
Sorte, esperança e coragem.
Abraço
Artigo que dispensa comentários, somente divulgação para que outras pessoas leiam e entendam um pouco sobre um assunto que é muito falado, mas na verdade poucos conhecem realmente.
Estou em tratamento faz um tempo (transtorno depressivo-ansioso com crises de pânico), sou auxiliar de enfermagem, trabalho em um hospital e foi dificil aceitar o diagnóstico.
Graças à Deus e a fé que Ele não permitiu que eu perdesse estou muito bem. Ainda uso uma medicação, no início eram seis, mas o que me equilibrou foi a psicoterapia e um psiquiatra que acredita nela, na minha opinião são poucos. Geralmente, conversando com outras pessoas em tratamento, quando acontece alguma queixa/sintoma é mais uma medicação que é acrescentada ou duplicada, foi o que aconteceu comigo tambem.
Acredito muito na psicoterapia. A mídia fala muito de dependentes químicos e nós somos tambem, mas de uma química controlada e receitada por um médico. A psicoterapia deveria ser muito mais abordada na mídia para que fosse mais valorizada que pequenos comprimidos que podem causar grandes estragos ao nosso valioso organismo saudável.
Obrigada pelo espaço.
Um abraço.
Agradeço o seu testemunho, dado que reforça a ideia que suporta o artigo. Acredito que por vezes o uso das duas formas de tratamento (farmacológica e psicológica) em coordenação podem ser bastante eficazes. Espero que este tipo de informação possa chegar às pessoas que sofrem com o uso exacerbado de medicação e que poucas melhorias sentem ou que pelo contrário por vezes até pioram.
Abraço
A sua pergunta está colocada de uma forma muito ríspida e indignada, acredito ter motivos para isso.
Neste Blog, existem mais artigos sobre a depressão que lhe podem dar resposta à sua questão.
Não podemos falar da melhoria da depressão como uma cura. O que na abordagem psicológica é possível é ensinar um conjunto de estratégias de saber lidar com os problemas e consequentemente restabelecer a funcionalidade à pessoa.
Para mais informação leia a nossa série:
http://www.escolapsicologia.com/olhe-a-depressao-como-ela-e-acabe-com-os-equivocos/
Boas leituras
Abraço
Força-se a barra em vista de padronizar as pessoas e medica-las, trata-las, mas o fato é que tem gente que não gosta de viver mesmo. E não é frescura, pois quem tem frescura espera repetir um situação de gozo já sentida, atráves de chantagem e barganha.
O depressivo de fato, não doente, sabe que nenhuma situação, pelo menos às dadas ao empirismo serão capazes de o satisfazer.
É sem dúvida muito criterioso e contumaz depurador das coisas.
Os únicos que podem definir o que seria uma qualidade universal, abrangente à todos.
A questão não se coloca em se existem ou não pessoas que gostam de viver. Estamos aqui a falar de um transtorno psicológico que é a depressão, que tem de ser diagnosticada de acordo com critérios definidos e o seu possível tratamento, também é importante que seja esclarecido de uma multiplicidade de opções e não apenas de um ponto de vista rígido para o qual aponta a abordagem de olhar a depressão como algo intrinsecamente biológico (que de facto não é).
Abraço
Comecei a tomar citalopram há 2 anos e desde o início fui contrária a usar medicação, sou anti remédio. Me senti incompetente e só iniciei e continuoo tratamento pois o psiquiatra disse que tenho falta de algo quimico no cerebro e que minha historia familiar me torna depressiva. Quero interromper o tratamento, mas tenho medo, porém tenho mais medo da dependência quimica e de pendar que certas coisas boas e atitudes só acontecem por estar tomando remedio. Também solicitei exame que comprove tal falta de serotonina, mas o medico disse que o diagnostico é feito por observação do paciente. Me sinto enganada.
Vários traços de personalidade, aliados à minha maneira de pensar e às circunstâncias da vida formaram uma bola de neve que lentamente se instalou como uma depressão. Sofri com seus sintomas por anos antes de aceitar ajuda profissional.
Quando finalmente busquei ajuda, passei por dois profissionais (um de cada vez) que não me satisfizeram, pois eu refutava seus argumentos com facilidade. Parecia que eu sempre "ganhava" a argumentação, pois eles ficavam sem saber o que responder. Somado a isso o fato de eu perceber atitudes não profissionais da parte deles, perdi a confiança neles e interrompi o tratamento. Um deles ainda chegou a me encaminhar a um psiquiatra que me receitou citalopram, que me fazia dormir o dia inteiro e só acordar para as refeições. Quando disse isso ao psiquiatra, ele disse "não é possível que esteja tendo sono, 99% das pessoas não sentem sono com este remédio". Respondi que deveria estar no 1% restante, pois eu mal acordava, e ele me deu outra receita para o mesmo medicamento. Nunca mais apareci no consultório nem tomei o remédio outra vez.
Passado um tempo, em que ficava cada vez pior e com menos confiança de que alguém pudesse me ajudar, dei mais uma chance ao acaso e encontrei uma excelente psicóloga, com quem fiz tratamento por quase 5 anos. Não sei qual a sua linha, mas creio que a terapia cognitivo-comportamental faça parte dela. Tratei minha depressão por quase um ano sem medicamentos, até chegar a um ponto em que não era possível avançar, pois chorava intensamente a ponto de não conseguir falar, como se tivesse um nó na garganta. Além disso, sentia-me muito mal e as emoções não deixavam que pensasse, não conseguindo assim tratar o problema de forma racional. Meu quadro piorava cada vez mais e eu não aceitava tomar antidepressivos pela má experiência que havia tido com o citalopram. Quando finalmente dei o braço a torcer, minha psicóloga indicou-me uma excelente psiquiatra, que analisou meu caso minuciosamente. Tomei fluoxetina, aumentando gradativamente até 40mg/dia. Em nenhum momento parei a terapia com minha psicóloga. Consegui recomeçar a terapia e também a minha vida, que parecia haver parado por alguns meses. Tratei-me por um ano com o medicamento, até que decidimos ir baixando a dose gradativamente, pois apesar de gostar do efeito do medicamento, queria caminhar com minhas próprias pernas e também abandonar os efeitos colaterais, que eram pequenos, mas existiam. Retirado o medicamento, a depressão não estava mais ali. Faz 2 anos e meio que não tomo mais a fluoxetina e nunca mais tive um quadro depressivo. Devo isso às excelentes profissionais que me acompanharam durante todo o processo, mas principalmente à minha psicóloga. Não adiantaria nada tomar o remédio e não mudar o padrão dos meus pensamentos, que era o que me levava a ficar mal. Eu não deixava de me sentir mal com o remédio, apenas não tinha crises tão constantes e graves. O remédio não é uma pílula mágica, é apenas uma muleta que às vezes precisamos usar até nos fortalecermos o suficiente para voltarmos a andar sozinhos. E a terapia é o que nos fortalece.
Após a retirada do medicamento, continuei a terapia por mais de 2 anos. Diminuí a frequência das consultas até minha psicóloga sugerir que terminássemos a terapia, o que ocorreu há pouco mais de 6 meses. Apesar de ter tido situações muito difíceis na minha vida, fico triste por alguns momentos, mas não tive mais episódios de depressão. No entanto, estou sempre cuidando meu pensamento e minhas emoções, pois já sei identificar o que me leva à depressão, mas rapidamente refuto tais pensamentos com bons argumentos e reestabeleço a razão.
Vejo por aqui (Brasil) muitas pessoas sendo tratadas de depressão com antidepressivos e que não fazem terapia. Não concordo com isso. Os profissionais que as acompanham estão fazendo com que elas dependam eternamente de uma muleta que era para ser temporária... É muito triste, pois dependem de doses cada vez maiores e combinações mirabolantes de remédios para que consigam viver, mas não estão realmente vivendo, pois não há crescimento pessoal nisso.
Não sou profissional da saúde, portanto não sei qual a definição formal de "doença", nem se dizer que algo é doença implica tratar com medicamentos. Durante meu tratamento da depressão, não me deixei levar pelo argumento "é doença, precisa de medicamento" (de fato, resisti muito aos medicamentos). Mas enquanto não me convenci de que o que eu tinha era de fato uma doença, não aceitei que precisava de ajuda. E negar isso só fez o problema ficar muito maior e mais grave. Eu acreditava que era apenas uma "frescura", que se eu fosse forte o suficiente poderia resolver sozinha, que eu não estava tentando o bastante... Quando deixei de alimentar essas ideias e me convenci de que era uma doença e precisava de ajuda profissional, abri o caminho para melhorar. E ao perceber que sozinha não poderia ter resolvido o problema, parei de me culpar e me sentir pior ainda pela culpa. Chamar a depressão de "doença" me ajudou muito a tirar o peso das minhas costas. E somente quando vi que tinha esgotado as possibilidades da terapia, pois estava tão mal que não podia falar ou pensar, me convenci de que precisava de um medicamento. Talvez isso tenha me ajudado a separar o que é e o que não é função do medicamento.
Ainda, chamar a depressão de "doença" me ajudou muito a explicar para as outras pessoas o que eu tinha. Só quando comecei a chamar assim elas deixaram de me julgar tanto, pois até então, também me tratavam como se tivesse uma "frescura". É muito difícil quando as pessoas à sua volta não levam a sério a condição em que você está. Não adiantaria dizer a elas que não tenho uma doença, que o que tenho é uma síndrome biopsicossocial, elas não entenderiam e talvez até ririam da minha cara. "Doença" é bem mais fácil de entender e é algo que as pessoas costumam respeitar.
Nesse sentido, arrisco dizer que é benéfico chamar a depressão de doença, mesmo que do ponto de vista dos profissionais da saúde não seja uma doença. Desde que não implique que o tratamento deve ser obrigatoriamente com medicamentos. Chamar assim a depressão ajuda o paciente a se aceitar e a ser aceito pelos que estão à sua volta.
Mais uma vez muito obrigada por disponibilizar o conteúdo do blog, que é de muita qualidade e com certeza ajuda a muitas pessoas. =)
Anos mais tarde, já casada e mãe, passei por um período de intenso stress laboral. Entrei novamente em depressão profunda. Mas agora já existia o Prozac e foi graças a ele que recuperei mais rapidamente. Com o tempo, o desgaste emocional e psíquico provocado pelos problemas e da vida e pelo excesso de trabalho, foi originando outras patologias: problemas gastrointestinais (acabei por descobrir que já tinha 4 ulceras duodenais cicratizadas); a tensão arterial começou a apresentar picos. Mais tarde desenvolvi transtorno do pânico. Durante alguns anos estabilizei. Na sequência de outro período stressante no trabalho em que fui vítima de assédio moral (na altura não se falava disso)tive nova depressão. Passei a ser hipertensa embora não tenha problemas cardíacos. Na sequência do meu divórcio voltei a ter crises de pânico com maior gravidade, passei a ter extrassístoles cardíacas devido a stress e tenho que tomar medicação para a hipertensão e para o pânico. Recentemente na sequência de novo período de trabalho intenso entrei quase em colapso novamente e tive que parar de trabalhar por uns tempos. O que questiono é, como não considerar uma doença um transtorno de origem psíquica, originado não só por uma eventual predisposição genética que aumenta a vulnerabilidade do organismo a certos fatores externos prejudiciais? Tal como uma patologia de origem respiratória por viver num ambiente poluído? Se eu tivesse crescido e vivido num ambiente diferente, por exemplo no campo, teria algum dia tido este tipo de problemas? A medicação ajuda-me a viver com alguma normalidade. Se eu tivesse uma personalidade diferente, menos perfecionista, os problemas laborais não me afetariam da mesma forma. Faço notar que sou uma pessoa otimista e com boa auto-estima. Acredito que a psicoterapia me pode ajudar a evitar o pânico, mas como pode evitar as extrassístoles que tanto me perturbam porque as sinto todas? Ou a hipertensão? Como me pode ajudar a evitar que o stress sobrecarregue as minhas suprarenais? E que por vezes todos estes fatores em conjunto me façam ter períodos depressivos caracterizados por grande apatia e cansaço psíquico? Para finalizar, acrescento que desde que passei a tomar antidepressivos nestas fases nunca mais tive ideias suicidas. Obrigada pela atenção.
Cuidado, porque a terapia não vale só pros pacientes...
No fundo, vc conhece a dor das pessoas e sabe que a nossa doença (ISSO MESMO) não é apenas um transtorno ou um conjunto de sintomas, como tosse e dor... e sim algo muito mais sério, e não é porque tambem envolve a alma que não pode ser classificado como doença. Nos dê ao menos este direito.
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