A experiência ansiosa induz ou é acompanhada de tensões físicas e psicológicas relacionadas com a percepção de um perigo e o medo desse perigo. De um ponto de vista mais cognitivo, a ansiedade está presente onde o indivíduo percebe um perigo ou uma ameaça. Níveis moderados de ansiedade revelaram desempenhar um “papel-tampão” perante diversos stressores. A ansiedade facilita assim a adaptação, ainda que seja desagradável: mobiliza os recursos físicos e psicológicos para enfrentar aquilo que nos ameaça ou desafia, o que pode possibilitar transformações benéficas e facilitar o desenvolvimento psicológico.

DA ANSIEDADE “NORMAL” À ANSIEDADE PATOLÓGICA

Em primeiro lugar a ansiedade protege-nos, favorecendo o estabelecimento de atitudes de defesa /ataque. A ansiedade tem um papel motivador na vida de todos nós. A Ansiedade pode perder a função adaptativa, o seu papel protector e motivador, e tornar-se patológica. A ansiedade influencia os processos de atribuição de sentido e de significado à experiência introduzindo enviesamento ou distorções perceptivas. Nas perturbações da ansiedade, a ansiedade patológica corresponde a determinados critérios relativos ao contexto no qual ela se gerou, ao handicap causado e à qualidade dos acontecimentos que a poderiam desencadear.

Segundo o DSM-IV (Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais), existem cinco transtornos de ansiedade:

ENQUADRAMENTO

As desordens de ansiedade são mais prevalentes que a depressão, mas nenhuma desordem de ansiedade em particular se aproxima do número de pacientes com depressão. Os números também apontam no sentido de existirem muitas pessoas que possuem um tipo de ansiedade usualmente também sofre de outros, e que a relação entre depressão e ansiedade é elevada.

O que é que se estará a passar? Estaremos nós mais expeditos a categorizar e a rotular estas condições?

Responder a estas questões pode ser premente, mas o que importa mesmo examinar é a relação que existe com o stress e adição química do corpo. Nas suas mais variadas formas a ansiedade pode ser considerada uma resposta saudável a um estímulo externo. Nós deveremos colocarmo-nos num estado intensificado quando temos de fazer um discurso, ministrar uma apresentação, um desempenho considerado significativo por nós ou depararmo-nos com uma possível ameaça. Mas quando a nossa ansiedade ultrapassa determinados limiares no nosso dia-a-dia e se torna crónica, então temos um problema que necessita da nossa atenção

FORMAÇÃO DA ANSIEDADE PATOLÓGICA

A Ansiedade é um produto da avaliação cognitiva e corresponde a um conjunto de pensamentos e afectos perante uma situação ameaçadora. Uma desordem de ansiedade forma-se quando, sem razão aparente, uma pessoa começa a sentir o batimento cardíaco a acelerar e sente dificuldades na respiração, medo intenso, emoções intensas, perda de controlo, dores no peito, excesso de sudação, e com dificuldade de ter um raciocínio claro.

O sistema nervoso autónomo toma o controlo do nosso organismo, influenciando aquilo que se pensa. Os ataques de pânico são gerados quando a pessoa treinou (acostumou) o seu corpo a estar vigilante e antecipadamente preparado para a próxima experiência stressante. O ataque de pânico que ocorre repetidamente a alguém é o resultado da sua prática mental rigorosa de preocupação exagerada e ansiedade, ou sobre-exposição às condições ambientais stressantes previamente conhecidas.

ACONTECIMENTOS DESENCADEADORES

Na minha experiência, se conseguirmos fazer a revisão do percurso anteriormente ocorrido, isto pode ser esclarecedor, para a grande maioria das pessoas começa com algumas dificuldades com que se deparam na vida e que causam uma intensa pressão emocional. Depois desse acontecimento, a memória dessa experiência leva a pessoa a pensar acerca do episódio ocorrido, vezes sem conta, na tentativa de antecipadamente evitar que um acontecimento idêntico ocorra novamente. Ao rever mentalmente o seu passado, o cérebro encarrega-se de libertar os químicos apropriados, e esses pensamentos ansiosos enviam um estímulo ao sistema nervoso simpático para iniciar a ativação do organismo. Estas pessoas ficam ansiosas e com receio acerca do futuro e daquilo que potencialmente lhes possa acontecer. As suas atitudes (emaranhado de pensamentos) permitem desta forma a libertação de químicos que dão suporte às sensações de ansiedade e preocupação. Os seus pensamentos acerca de um stressor particular, não o stressor em si mesmo, criam a resposta de stress.

COERÊNCIA ENTRE O CORPO E O CÉREBRO

Se nos preocuparmos todos os dias acerca daquilo que possa acontecer nos momentos seguintes, iniciaremos uma série de pensamentos que irão criar um estado mental de insegurança. No funcionamento do neocórtex, um conjunto de redes neuronais irão ser activadas, suportando o processo contínuo de pensamentos relacionados com as memórias de preocupação anteriormente registadas. Quando estes pensamentos ativam padrões específicos de conexões neuronais, o corpo irá depois criar os químicos relacionados com esses pensamentos inquietantes (ver quadro 1). Agora que esses químicos da vigilância foram libertados no corpo, o corpo fica inquieto. Assim que o cérebro (neocórtex) reconheça o que o corpo está a sentir, nós provavelmente iremos dizer, “eu sinto-me preocupado.” Quando nos sentimos apreensivos, nós ficamos conscientes do no nosso estado corporal interno. Se depois se seguir um ataque de pânico, nós iremos sentir uma genuína perda de controlo, uma situação altamente assustadora. Neste exato momento, temos mais uma coisa com que nos preocuparmos, porque certamente não queremos voltar a ter uma sensação destas (ataque de pânico).

CONSCIÊNCIA DO CORPO

Assim que estejamos cientes que o corpo está a sentir ansiedade, a rede neuronal associada à ansiedade é ativada. Sentimo-nos exatamente da mesma forma que pensamos, e pensamos da mesma forma que sentimos. Desta forma o cérebro reconhece os sentimentos de preocupação, e irá usar a rede neuronal da preocupação para avaliar aquilo que sente (ver quadro 2) . Como resultado, iremos focar-nos nos pensamentos relacionados com a nossa preocupação, porque a rede neuronal foi accionada. Depois iremos fazer mais ligações químicas para reforçar a forma como o corpo se sente, porque a nossa avaliação imediata do corpo é a causa de sentirmos aquilo que pensamos. Até que enfim!

A realidade: Agora os nossos pensamentos iniciais tornaram-se realidade. Se os conseguimos sentir, são genuínos, certo? Estamos no caminho de treinar o nosso corpo para ter outro ataque de pânico.

CONSTRUÇÃO DE UMA RESPOSTA EMOCIONAL

Ao caminhar-mos no bosque, se inesperadamente nos deparar-mos com uma cobra … saltamos para a evitar. O que foi que nos fez saltar? A resposta muito provavelmente, é: a amígdala (ver figura 1).

A amígdala funciona como uma sentinela emocional, capaz de apoderar-se do controlo do cérebro, ainda que momentaneamente. LeDoux (1996), nas suas investigações demonstrou que os sinais sensoriais  vindos do olho e do ouvido chegam ao cérebro passando primeiro pelo tálamo e depois, através de uma única sinapse pela amígdala; um segundo sinal emitido pelo tálamo é encaminhado para o neocórtex. Este percurso mais curto  – uma espécie de atalho neuronal – permite a amígdala receber informações directas dos sentidos e iniciar a resposta antes que as informações sejam registadas no neocórtex.

Estas respostas acontecem antes do cérebro ter tido a chance para começar a pensar sobre o que fazer. Para pensar é necessário tempo, em contrapartida responder ao perigo, grande parte das vezes necessita de ocorrência rápida e sem dúvidas na decisão. Poderemos dizer que é um sistema que detecta o perigo e produz uma resposta que aumenta da forma mais benéfica a probabilidade de sobreviver a uma situação de risco. Este sistema que produz um comportamento representa a operação do cérebro que foi programada pela evolução para lidar com o perigo da rotina diária.

A investigação de LeDoux,  pode chamar-se de revolucionária para o entendimento da vida emocional, pois foi a primeira a detectar os percursos neuronais seguidos de sensações que não passam pelo neocórtex.

A reter: Este circuito contribui para a explicação do poder da emoção para se sobrepor à racionalidade.

LeDoux chegou a esta conclusão no decurso das suas investigações sobre o medo nos animais. Fez uma experiência importantíssima, com um grupo de ratos, destruiu-lhes o córtex auditivo, e em seguida expô-los a um sinal sonoro ligado a um choque eléctrico. Os ratos em pouco tempo aprenderam a recear o sinal, no entanto não podiam registar no neocórtex o respectivo som, que seguia directamente do ouvido para o tálamo e para a amígdala. Resumindo, os ratos aprenderam uma reacção emocional sem envolvimento do neocórtex.

Esta interessante experiência com ratos, explica de igual modo, o facto de o controlo motor de uma sequência de movimentos relacionados com a emoção (ato automático), não se situar no mesmo local que o controlo de um ato voluntário.

CONDICIONAMENTO EM MASSA DE UM ACONTECIMENTO TRÁGICO

Em 24 de Janeiro de 2004, Miklos Feher jogador de futebol de uma equipa portuguesa (Sport Lisboa e Benfica) teve uma paragem cardio-respiratória durante o jogo, acabando por falecer. Este acontecimento foi assistido por milhares de pessoas, dado que estava a ser transmitido na televisão em directo. Nos dias que se seguiram a este acontecimento, as urgências dos hospitais encheram-se com pessoas em pânico e ansiosas, pois ficaram hipervigilantes sobre algumas sensações corporais, nomeadamente o batimento cardíaco acelerado (comuns palpitações). O receio criado pela interpretação das sensações físicas habituais, levaram a que algumas pessoas mais susceptíveis, fizessem uma interpretação de medo, criando uma preocupação exagerada que lhes causou mal-estar físico e emocional.

A reter: A ansiedade patológica diz respeito assim, ao processamento selectivo da informação por parte do individuo, que a interpreta como uma ameaça ou um perigo ao seu próprio bem-estar, à sua segurança e tendo um sentimento de ineficácia face à situação.

SEI QUE ESTOU ANSIOSO PORQUE SINTO ISSO

O nosso receio causa-nos mais preocupação, que por sua vez nos faz sentir mais ansiosos, que depois nos causa mais preocupação. A razão para isto é simples. Quando o nosso estado de ansiedade é criado, o nosso “estado de ser” cria um contínuo ciclo de feedback do corpo para o cérebro, para ativar a rede neuronal da preocupação, que por sua vez provoca mais ansiedade no corpo, e assim sucessivamente.

Sabemos agora que quando respondemos às sensações do corpo pensando acerca daquilo que sentimos no corpo, o cérebro irá fabricar mais dos mesmos químicos, alimentando o corpo com os mesmo sinais químicos para que possa experienciar o que estamos a sentir. Esta é a forma como mantemos um “estado do ser” um estado de consciência.

A reter: Para uma sensação continuamente repetida, qualquer que seja essa sensação, é criado um determinado “estado de ser“, seja felicidade, tristeza, confusão, solidão, insegurança, contentamento, ou mesmo depressão. Um “estado de ser” significa que o ciclo de feedback entre o cérebro e o corpo está completo.

REFORÇO PELA REPETIÇÃO

Ao longo do tempo, mantemos este estado neuro-químico, suportado pela forma como continuamente ativamos os mesmos padrões neuronais das nossas memórias anteriores. Esta contínua química do corpo, suportada pela forma como nós ativamos os nosso padrões neuronais únicos de sensações da nossa identidade pessoal individual, é diferente de pessoa para pessoa. Mas os mecanismos do ciclo de feedback são os mesmos. A ansiedade alimenta a ansiedade.

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Abraço,

Miguel Lucas