Ao longo da vida todos nós vamos acumulando histórias que preferíamos não nos recordar. São situações de vida que nos causaram mal estar, sofrimento, angústia, trauma, desilusão, sentimento de culpa, entre outros. Essas situação começam a acontecer em tenra idade, e dependendo da forma como olhamos para elas e como as interpretamos, podemos transformar-nos em pessoas sofredoras, ou não. Se você se vitimiza com frequência, se olha para si mesmo com autopiedade e o seu discurso é negativista, pessimista, crítico e altamente focado no que lhe acontece de errado, pode ter desenvolvido uma estrutura mental negativa que se suporta numa visão catastrófica da sua história e igualmente dos acontecimentos ao seu redor.

Eu nasci no gueto.

Eu olhei a morte de frente três vezes.

Passei anos vivendo com um distúrbio alimentar.

O meu pai deixou-me quando eu era apenas uma criança.

Eu tive que ser hospitalizado por duas vezes para fazer cirurgias.

Passei a maior parte da minha vida medicado, por doenças físicas e mentais.

Quando algumas pessoas têm histórias idênticas ao descrito acima, a interpretação catastrófica da sua vida (ainda que com toda a legitimidade) pode conduzi-las para a frase que comprova um padrão sofredor já instalado:

 Porque  é que as coisas ruins sempre acontecem comigo.

PADRÃO SOFREDOR DE PENSAMENTO

Neste padrão sofredor de pensamento a pessoa espera sempre o pior. A pessoa vai acionando padrões de medo que a levam a um estado quase permanente de preocupação e miséria, esperando a desgraça sempre ao virar da esquina. Mesmo quando as coisas começam a correr bem, a pessoa desconfia, torna-se sarcástica consigo e com os outros, acabando por profetizar a sua própria desgraça. Vai desenvolvendo um padrão de comportamento de autosabotagem, mesmo quando as situações têm tudo para dar certo. A pessoa liga-se ao seu sofrimento, alimenta o seu sofrimento e não consegue viver sem sofrer. A pessoa passa a sentir-se confortável nos braços do sofrimento. Na verdade, algumas pessoas ficam tão confortáveis que resistem (mesmo que inconscientemente) a qualquer tentativa de libertar-me do seu calvário.

Por vezes, numa perspetiva de fuga ilusória a pessoa atribui o seu sofrimento a tudo o que é externo a ela, ao universo, à familia, ao lugar onde nasceu, ao governo, aos professores, aos colegas.

Se você se queixa com frequência acerca da sua vida, das coisas que lhe foram acontecendo, se conta histórias catastróficas como se a sua vida não tivesse nada de bom e nada lhe seja facilitado, pondere perceber se você se tornou numa pessoa sofredora. Se sim, ainda está a tempo de reverter a situação. Não a situação de apagar os acontecimentos menos bons, mas sim deixar de pensar que é um mártir e de que a sua vida é miserável. Tudo na vida muda e você também pode mudar algumas formas de olhar para si mesmo e para a sua história de vida. Quanto mais cedo você perceber o seu padrão mental de pensamento acerca da sua história de vida,  mais cedo pode deixar ir toda a tristeza e, finalmente, descobrir que a vida tem o seu lado positivo.

Apresento nove conceitos que podem ajudá-lo a perceber o seu padrão mental de pensamento e consequentemente ficar esclarecido se você se transformou numa pessoa sofredora:

1. VOCÊ ESTÁ INCONSOLÁVEL

Quando algo de ruim lhe acontece, você recusa-se a ser consolado e apoiado. Nada nem ninguém consegue fazê-lo sentir-se melhor. Mesmo quando claramente se verifica que não existe nada nem nenhuma situação que permita que fique chateado, magoado ou em sofrimento, você fica com o humor em baixo. Você descarta toda e qualquer possibilidade de minimizar os problemas que possa estar a enfrentar.

2. VOCÊ ACREDITA QUE AS PESSOAS NÃO PODEM FAZER NADA PARA SE SENTIREM MELHOR

Você tonou a dor e a tristeza sua aliada na vida, porque você acha que não tem qualquer capacidade para gerir as suas emoções. Provavelmente você não resiste à frustração e fica devastado sempre que as coisas não acontecem como deseja, o que consequentemente o coloca num estado de humor diminuindo, emergindo algum tipo de sofrimento. Este padrão emocional toma o seu lugar sempre que você julga não conseguir fazer nada para conseguir sentir-se bem. E, rapidamente conclui que tem toda a legitimidade para sentir-se mal. O comportamento consequente são horas de choro, tristeza, angústia e justificações dramáticas do sucedido.

3. VOCÊ FOCA TODA A SUA ATENÇÃO NO QUE ESTÁ ERRADO NA SUA VIDA

Tente perceber se num dia normal você se foca nas coisas que aos seus olhos estão erradas, e nas pequenas coisas que lhe correm mal, concluindo que o dia foi um desastre. Provavelmente você desenvolveu uma capacidade extraordinária para reparar em todos os detalhes que possa associar a tristeza, angústia, mal estar, sofrimento, fracasso, ao ponto de ignorar por completo quase todos os acontecimento positivos.

sofrer

4. VOCÊ TEM UMA MENTALIDADE DE VÍTIMA

Você pode sentir que não tem as mesmas habilidades do outros, que não lhe surgem oportunidades e que os problemas vêm sempre ao seu encontro. Quando as coisas não acontecem da forma como deseja, você encontra sempre uma justificação para comprovar a “teoria” que por mais que se esforce o resultado é sempre negativo. Seja porque os outros estão em vantagem, ou ao invés, porque você não tem as capacidades, os meios ou a inteligência dos outros. Você culpa os outros e se isso não for suficiente para você se sentir mal, vira-se contra si mesmo. Você culpa a sua educação, a sua família, os seus amigos, a sua infância e tudo aquilo a que você se possa agarrar para comprovar o seu estado crónico de vítima.

5. VOCÊ CULPABILIZA-SE

Você culpabiliza-se por situações desastrosas que nunca poderiam ser . (1) ser culpa sua, ou, (2) não são tão desastrosas como você está fazendo parecer. Por vezes a sua vida está sem drama e sem catástrofe ou sofrimento e você procura a coisa mais pequena que seja negativa para arranjar motivos para continuar a ser uma pessoa sofredora.

6. EXISTE UM PADRÃO DE NEGATIVIDADE QUE ACONTECE NOS BONS MOMENTOS DA SUA VIDA

Por vezes algumas pessoas receiam ser bem sucedidas. No caso do sofrimento, existem pessoas que já têm o hábito de sofrer tão enraizado nos seus comportamentos e pensamentos que têm medo de perder aquilo a que mais se habituaram ao longo da vida (mesmo que o façam de uma forma subconsciente). O seu padrão de pensamento defende o apego ao sofrimento e inibe os bons resultados ou bem estar que possa ser possível.

7.  VOCÊ PERSONALIZA A GRANDE MAIORIA DAS COISAS OU SITUAÇÕES

Mesmo nas mais pequenas críticas construtivas ou chamadas de atenção, você torna tudo um caso pessoal. É como se sentisse que cada vez que alguém está em desacordo consigo ou não gosta de algo que você fez, você sente-se atacado ou perseguido. Ou nas situações em que não consegue atingir algo ou as coisas não vão no rumo que pretende, vira a culpa para você mesmo e para o seu passado e condições de vida pessoal.

8. VOCÊ ACHA IMPOSSÍVEL PERDOAR A SI MESMO

Na grande maioria das vezes que você se propõe a realizar algo e não é bem sucedido, você pune-se, e volta a culpa para si mesmo. Neste estado de revolta interna, mais uma vez assume a posição de vítima de si mesmo. Perante este cenário tudo se complica e o ciclo de negatividade vai crescendo e você vai-se tornando num sofredor profissional.

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9. VOCÊ NÃO ENCONTRA NADA PELO QUAL SE POSSA SENTIR GRATO

A sua forma de olhar o mundo passou a ser tão sofredora que tanto as grandes coisas como as pequenas coisas boas que lhe vão acontecendo ou que você tem na sua vida passam-lhe despercebidas. Esta é uma questão de enorme impacto negativo, dado que o filtro da negatividade não deixa que você se sinta grato na sua vida. Esta visão nublada para o que é bom e positivo impede-o de sentir-se bem com as boas coisas que tem ou acontecem e que podiam trazer-lhe satisfação e alegria.

NOTA FINAL

O que apresentei não pretende ser uma forma de diagnóstico para o sofrimento. Pretende sim descrever alguns sinais, conceitos e formas de pensamento que caracterizam a implementação de um padrão sofredor de olhar o mundo e a si mesmo. Nem todos os itens referidos têm de estar presentes para que você se considere um sofredor crónico. Fica ao seu critério perceber se algumas das situações referidas podem ajudá-lo a ficar mais consciente da forma como olha o seu sofrimento e consequentemente tomar medidas para mudar as formas de interpretação da história dos acontecimentos da sua vida. 

Para aprofundar o assunto leia: Tem um problema? Deixe de ser o seu próprio carrasco

Abraço