Problemas quem não os tem? Certamente todos nós temos. Grande parte desses problemas são situações comuns do dia-a-dia que necessitam da nossa atenção no sentido de arranjarmos uma solução imediata, não nos causando grande desconforto, instabilidade emocional, prejuízo, ou perda significativa. Mas o que dizer dos problemas pessoais ou problemas psicológicos que interferem na funcionalidade da nossa vida, afetam-nos negativamente o equilíbrio emocional, retiram-nos capacidade, afetam-nos a autoconfiança e autoestima, contribuindo ainda para o enraizamento de crenças negativas acerca de nós mesmos? Este tipo de problemas, sem qualquer dúvida necessitam da nossa atenção redobrada, e acima de tudo que possamos aprender a perceber como não contribuir para aumentarmos ainda mais o problema, ou pior, sermos o próprio problema.

Seja por proteção ao nosso ego, medo do fracasso, medo de falar em público, preocupação exagerada, angústias do passado,  distorções do pensamento, diálogo autocrítico, muitas causas ou gatilhos podem fazer de nós o nosso  pior carrasco.  Qualquer que seja a forma de pensamento que esteja na raiz de exacerbar ou criar o nosso problema, o resultado acaba por evidenciar-se na autosabotagem, e consequentemente na incapacidade de alcançarmos os nossos objetivos ou na impossibilidade de  criarmos uma solução satisfatória.

seu carrasco

CRENÇAS NEGATIVAS E DISFUNCIONAIS

Inequivocamente algumas das nossas formas de pensamento sedimentam-se e formam as nossas crenças. Todos temos crenças internas sobre as nossas qualidade intrínsecas, sobre o que somos ou não somos capazes de fazer. Para muitos de nós aquilo em que acreditamos passou a ser uma realidade implícita sobre a vida que raramente são examinadas e dificilmente questionamos. A nosso favor ou contra nós essas crenças exercem uma tremenda influencia na forma como olhamos o mundo e consequentemente influenciam as nossas escolhas, decisões e caminhos para a ação. Se algumas dessas crenças forem autodepreciativas e negativamente  irrealistas acerca das nossas capacidades, certamente tornam-se só por si num problema.

Para aprofundar o assunto, leia: Mude as suas crenças, evolua a sua mente – parte I e parte II

Em consulta, quando revejo as crenças internas com os clientes,  muitos chegam à conclusão que estão repletos de  autocrenças negativas. Frases como, “Eu sou impaciente / rude / estúpido”, “Eu não sou bom a fazer _____,” ou” Eu não posso lidar com _____” são muito comuns e estão associadas às disfuncionalidade e problemas emocionais apresentados pelas pessoas. Nos programas de tratamento em psicologia, e como forma de substituir as crenças disfuncionais e igualmente as distorções cognitivas, utilizo a técnica de  reestruturação cognitiva, tornando-se o foco essencial durante as primeiras sessões.

A reter: As autocrenças negativas podem tornar-se numa enorme fonte de vergonha.

Inevitavelmente essas autocrenças negativas e a vergonha associada, na grande maioria das vezes emergem das experiências passadas, sejam pessoais ou infligidas por outros. Por exemplo, o mau desempenho em alguma atividade na infância, ser ridicularizado pelos pares, ou palavras duras ditas pelos pais podem deixar marcas aparentemente permanentes na visão do mundo de um jovem, e depois podendo transitar para a idade adulta.

Para aprofundar o assunto, leia: Como libertar-se das angústias do passado

DIÁLOGO INTERNO NEGATIVO

Ironicamente, mesmo aparentemente seguros de nós mesmos, tendo a noção de, “Eu estou no controle da minha vida” pode tornar-se num percursor para o sentimento de fracassado quando a pessoa desenvolve o pensamento de, “Se eu não posso lidar com isto sozinho é porque sou um fraco.” Mais uma vez, este padrão de pensamento leva à vergonha e, muitas vezes  a pessoa torna-se resistente à procura de ajuda. A pessoa pode ainda não querer ganhar consciência que é a sua própria forma de pensamento que está a contribuir para piorar o problema. Este ciclo de distorções do pensamento conduz a que a pessoa vá construindo a sua lista oficial de desculpas (ainda que possa fazer isto de forma inconsciente), fazendo com que se retire da possibilidade de fazer uma auto-análise benéfica.

Para aprofundar o assunto, leia: Elimine as desculpas paralisantes, movimente-se por aquilo que quer

Na minha prática profissional e sobretudo no uso da terapia cognitivo-comportamental (TCC), ensina-se a pessoa a examinar e a contestar algumas das sua crenças e distorções cognitivas. É raro que essas declarações (autocrítica e visão depreciativa de si mesmos e do mundo) provem uma verdade universal e, normalmente acabam por ter uma forte conexão com um conjunto de mágoas passadas. Muitas pessoas encaram com toda a naturalidade o fato de necessitarem de ajuda em coisas como aprenderem a ler, praticar esportes, desenvolver uma habilidades técnica, aprender a conduzir, ou aprender a trabalhar com um novo software. Estamos constantemente a depender de outras pessoas para nos ajudar ou para nos capacitar, mas quando se trata de melhorar o nosso funcionamento psicológico, acreditamos que devemos ser mestres, independentemente do nosso nível de formação, desenvolvimento ou dificuldade, uma crença que eu vejo como não tendo qualquer fundamento ou benefício. Mas, na verdade, eu sou suspeito para proferir tal afirmação pois sou psicólogo!

Se pretende perceber se tem ou usa algumas distorções de pensamento que possam estar a contribuir para que seja o seu próprio  carrasco, é importante que leia aprofundadamente o artigo:  Distorções do pensamento, saiba porque causam problemas e como as mudar

Depois de ter lido o artigo anterior, talvez possa ter identificado alguns dos seus próprios padrões típicos de pensamento e igualmente a forma como você lida com essas distorções cognitivas, pergunte a si mesmo o quão está disposto a tornar-se mais ciente disso no momento presente. Quando você faz o compromisso consigo mesmo para se tornar mais consciente dos seus próprios pensamentos, cria a possibilidade de poder construir um futuro diferente e mais positivo. Não há nada que você possa fazer para mudar o que aconteceu no passado, é importante e benéfico conseguir enquadrá-lo, resignificá-lo e posteriormente deixá-lo ir. Cada momento que vive no presente é rico em oportunidades para começar a mudar o que ainda pode ser mudado.

PENSAMENTO NEGATIVOS

Os pensamento negativos e a forma como lida com eles, podem igualmente contribuir para que você se torne no seu próprio carrasco. O problema não está em termos pensamentos negativos acerca de nós e/ou de alguma situação que possamos estar a enfrentar, o problema está na forma como lidamos com o conteúdos desses pensamentos. Por outras palavras, se por exemplo lhe chega à mente um pensamento do tipo, “Nos últimos dias tudo me tem corrido mal.” Se você pensar negativamente acerca deste pensamento negativo, a sua forma de pensar poderia passar a ser:

Forma negativa de pensar: “Eu sou uma desgraça, nunca irei ser capaz de ter sucesso naquilo a que me proponho.”

No entanto, você poderia adotar uma perspetiva bem mais positiva de pensar acerca do pensamento negativo que lhe apareceu na mente, vejamos o exemplo:

Forma positiva de pensar: “O que posso fazer, em que necessito forcar-me, ou o que necessito aprender para que consiga fazer melhor na próxima vez?”

Sempre que conseguimos ter uma atitude positiva ou ter um pensamento positivo quando nos aparecem pensamentos negativos na mente, o nosso problema é imediatamente abordado numa perspetiva virada para a solução. Accionamos o lado direito do cérebro e acedemos à capacidade de planejar, criar e procurar soluções funcionais para o problema em questão.

Se acha que está a ser afetado na sua vida por pensamento negativos recorrentes e que estes estão a dificultar a resolução dos seus problemas, é importante que possa investir algum do seu tempo em reverter essa situação, lendo os artigos:

Como podemos verificar existem essencialmente três processos de pensamentos (crenças negativas, diálogo interno negativo e pensamentos negativos) que em muito podem contribuir para piorar os problemas que enfrentamos, ou pior ainda, isso pode fazer com que nos transformemos no nosso pior problema, fazendo com que sejamos o nosso próprio carrasco.  No entanto, como fui demonstrando ao longo do artigo, se você conseguir elevar o seu nível de consciência acerca destes três processos de pensamento, monitorizando-se, percebendo em que medida isso não corresponde à realidade, e ao mesmo tempo perspetivar como substituir essas formas redutoras de raciocínio, certamente começará a relativizar os seus problemas e olhá-los de uma forma realista, funcional e positiva. Com esforço e dedicação, você pode tornar-se no seu maior aliado.

Abraço